Nossa, já tinha séculos que eu não ia para aquela lojinha, a padeira, as filhas dela, os clientes que eu conversava sempre ia lá pra pegar um pãozinho. Pra mim todos eles eram parte da família.
Mas a lojinha em si, também era uma velha amiga, que eu gostava de visitar também, porque sempre que eu entrava nela, o lugar sempre parecia ficar um pouco mais acolhedor.
E depois de ter visitado aquela loja pelo menos uma vez por semana a mais de 20 anos, eu conhecia aquele lugar com a palma da minha mão
Eu segurei forte a mão do Sir Hades, e o guiei na loja, tendo certeza que eu tava a alguns poucos passos do balcão. À minha direita estavam vários jarros, todos cheios de uma farinha especial, que a própria Padeira tinha colhido. E a minha esquerda com um forno exposto, pras pessoas verem o pão sendo feito.
Aquela era uma das coisas que fazia eu não gostar de ser cega, pois pelo o WOW que o Sir Hades deu quando olhou a parede, com certeza aquilo era algo muito lindo de ver.
Isabeli: Sir Luci, o que agente combinou?
Hades: desculpa minha Lady, foi sem querer.
Eu testei pra ver se ele sabia mesmo que expressão eu tava fazendo, mesmo sem a maquiagem, e pela forma como ele ficou com medo da minha carinha emburrada, eu tive certeza que ele sabia sim, então fiquei mais calma, e continuei andando.
Isabeli: você tem sorte de ser muito fofinho, senao nao teria deixado isso passar em branco
Hades: eu sou tocado pela sua bondade, Lady Bia
Padeira: hohoho, esses jovens de hoje em dia, sempre cheios de energia.
A Padeira riu quando me notou, era uma risada doce, daquelas que idosos que amam crianças faziam quando viam os netos.
E assim que ouvi essa risada, eu senti que tinha chegado no balcão, um balcão que tinha papéis em cima, mas dentro dele, tinha uma grande prateleira cheia dos vegetais mais variáveis, carnes, e outras coisas pra colocar nos grandes sandubas gigantes, que a Padeira era famosa por fazer.
Padeira: ah Lady Bia, faz um tempão que eu não vejo a senhora, vai querer o de sempre?
Eu amava muito a voz dela, mas não perdendo tempo, eu já falei.
Isabeli: sim, a propósito, esse aqui é o meu noivo, o Sir Luciano, mas ele prefere se chamar de Luci, quer pedir alguma coisa querido?
Achei fofinho a forma como ele gaguejou quando eu falei “noivo” tão fácil, eu dei um sorrisinho brincalhão enquanto via ele tentando falar algo coerente, até que a Padeira falou primeiro, pro alívio do Sir Hades.
Padeira: nossa, noivo? Já uniram os trapinhos rápido assim? Vejo que andou ocupada
Isabeli: o que posso fazer? Não queria que alguém roubassem ele de mim
Padeira: não iriam conseguir, mesmo se tentassem
Isabeli: sei disso, por isso me casei, é mais simples só impedir o banho de sangue desnecessário
Padeira: hmhm, garota esperta.
E mesmo com a nossa brincadeira, eu senti a Padeira analisando o Sir Hades, nossa, eu só esperava muito que aquilo não acabasse de forma ruim.
E depois que a Padeira analizou detalhe por detalhe o Sir Hades com os seus peritos olhos detectores de encrencas patenteados, ela falou.
Padeira: fico aliviada que a Lady Bia tem bom gosto para cavaleiros.
E como eu já pensei que ia rolar, a Padeira aprovou o Sir Hades, eu não tava mais testando ele ou algo do tipo, a essa altura, eu já sabia que ele era o cara certo pra mim.
O motivo de eu ter ido até ali era mais que um simples teste.
E quando a Padeira se afastou um pouco da mesa, a mágica dela começou, ela pegou um pão gigantesco, e o cortou perfeitamente no meio, ela pegou requeijão, queijo derretido, manteiga, ketchup e cobriu tudo com um molho especial que eu não sabia qual era.
O cheiro de cada uma daquelas coisas era quase um paraíso pro meu nariz, mas ela tava apenas começando.
Depois ela pegou o alface e começou a colocar por todo o sanduíche, e então, ela começou a pegar pedaços gigantescos de carne, e os fatiar de forma perfeita no sanduíche, e eu sentia o cheiro de forma tão precisa que eu até podia até listar de cor cada carne que ela escolheu.
Isabeli: carne de javali orbital, carne de void snake, carne de cervos projéteis e carne de touros parafusos
Hades: ah, o que? Mas esses ingredientes não são meio que, ultra mega caros?
Padeira: só se você os conseguir em lojas.
O Sir Hades ficou um pouco assustado quando a Padeira falou aquilo, mas enquanto ela pegava uma faca, e começava a fatiar tomates amarelos, e cebolas que flutuavam no ar, eu falei.
Isabeli: isso aí, os melhores ingredientes são cultivados pelos próprios cozinheiros, você vai encontrar gente mais forte cuidando de um restaurante do que participando de torneios até a morte
Hades: eu acho que “gente acostumada a sobreviver” é um título mais apropriado pros cozinheiros.
E depois de ouvir aquilo, a Padeira colocou manteiga, mostarda, maionese, ketchup, batata palha na outra parte do sanduíche, e colocou queijo derretido por cima pra manter tudo no lugar.
E só depois disso, e com muito cuidado, a Padeira espremeu tudo colocando as duas fatias de pão juntos, pra que o sanduíche “na teoria” tivesse tamanho o bastante pra caber na minha boca, algo que a Padeira já sabia que não precisava fazer, mas ela ainda fazia, por consideração.
E eu não tinha visto nada daquilo, mas eu já tinha ido até lá tantas vezes, e já tinha ouvido aqueles sons tantas vezes e sentido aquele chão tantas vezes que eu apenas sabia o que a Padeira fazia, tanto que eu sabia que ela tava andando até o balcão de novo, me deixando bem empolgado
Mas antes de eu conseguir falar alguma coisa, ela falou.
Padeira: quando descobrem minhas atividades, os jovenzinhos sempre falam todo o tipo de coisa sobre mim, mas “acostumada a sobreviver” isso eu nunca ouvi…é diferente, e único, eu gostei, hehehe
Isabeli: hihihi, pois é, meu noivo tem um dom com as palavras.
Fiquei alegre ao ouvir a risada da Padeira, ela era uma velhinha boa, que já tinha dado o negócio pra filha, mas ela era apegada demais aquela loja, mesmo com a filha sendo dona oficial, ela iria continuar trabalhando ali até ela morrer.
Padeira: então Sir Luci, o que deseja?
Hades: aaaaaaah, bom, eu nunca fui aqui, então vou aceitar uma sugestão sua.
Ah, resposta certa meu Lorde, aquilo era quase um codigo pra Padeira a essa altura, os que assim que ela ouviu isso, a Padeira se afastou do balcão e fez outro pão, o cortou e só colocou presunto, queijo e manteiga nele, com aquele molhinho especial que eu vi ela colocando antes.
Então, ela foi até nós, com aquela tranquilidade no andar que eu conhecia muito bem, e entregou dois sanduíches pra nós, e logo depois eu dei uma bolsa de moedas com uma gorjeta bem generosa dentro, e falei, com as próximas palavras saindo com muito mais satisfação do que eu poderia admitir pra mim mesma.
Isabeli: pode ficar com o troco
Padeira: obrigada, querida (olha pro Hades) pros que visitam minha loja a primeira vez, sempre sugiro um sanduíche de presunto.
Nossa, eu conseguia sentir o olhar do Sir Hades em mim, mas não apenas em mim, ele tava olhando pro sanduíche, como se não conseguisse acreditar que eu conseguisse colocar aquela coisa na minha boca. Mas não era pra menos também, eu comia aquele sanduíche a anos, mas ele era longo e grande o bastante pra ser comparado ao braço de alguém.
Ai ai, ele teria muitas ideias quando me visse comendo, e considerando que nós ficamos muito ocupados com nossas coisas pra “consumar” o casamento, com certeza isso ia dar muita inspiração pra ele, hihihi.
HADES
Hehe, eu tava gostando muito daquela padaria, mesmo agente quase saindo dali, eu senti na hora o que tinha de tão especial ali para a minha Lady querer tanto ir pra lá de novo.
E enquanto eu pensava nisso, acabei sendo chamado pela Padaria.
Padeira: Sir Luci, você parece ser uma boa pessoa, mas já irei lhe avisar, tome cuidado para não machucar a Bia, ela tem muitos amigos, e machucá-la pode acabar com uma punição bem ruim pra você
Hades: ah, não se preocupe senhora, eu tenho uma boa noção disso.
E como eu tinha, os pais dela, os cidadãos, e até as pessoas que só a conheciam pelo nome de Bia, todos eles pareciam mais do que prontos pra entrarem em guerra com qualquer um que a magoasse, se eu a machucasse de qualquer forma, eu sabia bem que eu tava perdido.
Mas eu não queria pensar nisso, não agora, hoje era um dia pra nós relaxarmos, um dia que eu sabia muito bem o quanto era raro, então quando saímos da padaria, deixei que a minha Lady me levasse pra um lugar pra nos sentarmos.
Porque depois de tudo que eu vi, eu só entendi que ela conhecia aquele canto da cidade muito melhor que eu, e nós andamos por 5 minutos ate chegarmos em uma pracinha, bom, ela me vendeu como uma racinha, mas quando eu olhei praquele lugar com mais atenção, eu tinha certeza que o nome “pracinha” devia ter outro significado para o reino Uriuuete.
Porque o que tava na minha frente nao era um”parquinho” era mais um grande centro ambiental com grades de ferro como limites, e dentro dela, tinham granes estradas de pedra pras pessoas andarem, mas o resto do lugar era cheio de moitas, floes lindas e árvores gigantescas, sem um unico brinquedo de um parquinho normal a vista.
O que era bem engraçado, porque mesmo sem nenhum brinquedo, eu vi crianças no parquinho brincando de escalar as árvores, de espantarem passarinhos que estavam ali por perto, brincando com bolas de meia, sacolas plásticas, e tinha uns garotos que até encontraram diversão jogando com um tens em vez de bola.
E esse último realmente me pegou de surpresa, eu quase falei WOW, mas eu me segurei, sabendo que minha Lady não queria que eu fizesse isso com mais ninguém.
Hades: nossa, a criatividade tá em alta nos seus cidadãos
Isabeli: é o mínimo que eu espero deles.
Bom, apesar de eu gostar de ver as crianças brincando, eu fiquei aliviado quando a minha Lady nos levou pra longe delas, e levou agente para um ponto do grande parque sem nenhuma criança.
E pela quantidade de banquinhos feitos de madeira naquele lugar, e quantidade de casais fazendo seus lanchinhos ali, eu só entendi que aquele era um canto do parquinho onde os adultos podiam ficar sem as crianças incomodarem.
Hades: nossa, os caras que fizeram esse parque pensaram em tudo
Isabeli: você não sabe nem da metade Sir Luci, nem da metade.
E quando encontramos um lugar vazio no meio de todos os bancos, apenas com passarinhos para cantar a nossa presença ao redor de nós, eu me sentei com a Isabeli, e comi junto com ela.
Mas antes de eu dar uma única mordida no meu sanduíche, eu vi que a Isabella mordeu o sanduíche, e ela abriu a boca de uma forma que eu não sabia que ela podia abrir…
Por todos os beijos que agente já deu, eu tinha noção que a boca dela era bem pequena, então não achei que ela conseguia abrir a boca daquele jeito. E pelo jeito quando algo entrava dentro da boca dela, sumia também, bom saber disso.
Tentei não pensar muito nisso, mas com o rosto dela sujo de gordura, e dos outros molhos que tinham no sanduíche, eu pude ver direitinho como ela tinha mesmo uma boca pequena, e mesmo com ela limpando o excesso, ainda tinha gordura o bastante pra eu ver como ela realmente abria muuuuuuito a boca pra comer aquele sanduíche colossal. E como se adivinhasse o que eu tava pensando, a Isabeli falou.
Isabeli: não pensa besteira
Hades: Tô tentando.
E eu tava mesmo, mas era difícil depois de ver a habilidade surreal que ela tinha com a boca, mas consegui me acalmar respirando fundo, e dando uma mordida naquele sanduíche de presunto.
E no fim, aquilo funcionou mesmo, porque o gosto daquele sanduíche era algo que podia tirar qualquer foco que eu tinha da boca da minha Lady.
E eu fiquei realmente surpreso com o gosto daquele sanduíche, o gosto era…novo, mas antigo ao mesmo tempo, ele era bom, muito bom, ao mesmo tempo que eu já conhecia aquele gosto.
As sensações que eu tinha com cada mastigada eram tão contraditórias um do outro que eu precisei parar de pensar besteira e me focar naquele sanduíche, fechando os olhos, e sentindo cada mastigada, não cada mordida, mas cada mastigada.
Eu fiquei mastigando e me deliciando com aquele sanduíche por muito tempo, E minha mente ficava cada vez mais confusa sentindo como o sanduíche tinha um gosto muito familiar, mas muito novo também.
Hades: nossa, que delicia, eu ja vi muitos chefes que usam ingredientes de monstros, mas nunca foi um tão gostoso assim pra mim
Isabeli: deixa eu adivinhar, esses chefes compraram os ingredientes ao invés de coleta-los eles mesmos, não é?
Hades: segundo minha rede de inteligência, sim, mas apesar de eu entender o preço mais baixo sobre esses ingredientes, ainda não entendi porque eles tem um gosto melhor
Isabeli: simples, porque quando os chefes coletam eles mesmos os ingredientes, o tipo de concentração no ingrediente depende totalmente deles, e não do que o mercador que eles compraram decidiu
Hades: ta dizendo que foi aquela Padeira velhinha que pegou ingredientes certos pra conseguir fazer essa comida incrível?
Isabeli: isso aí (morde)
Hades: cara, esse é o tipo de coisa que acho que só dá pra entender passando por isso (morde)
Isabeli: até que não, o que os cozinheiros fazem não é muito diferente de fazer compras, a diferença é que eles vão fazer compras na selva ao invés do mercado. A carne deles é mais saborosa quando eles estão na selva, por algum motivo (mordida)
Hades: (sorri) então é permitido caçar aqui também?
Isabeli: sim, bom, claro, tem algumas regras, como não caçar animais ameaçados e nunca desperdiçar a carne do animal, mas sim, é permitido caçar no meu território
Hades: humpf, tenho certeza que tem muita gente que não gosta muito disso (morde)
Isabeli: (morde de forma violenta) e sabe o que eu sempre falo pra essas pessoas? “Você se sente mais confortável comendo um animal em cativeiro? Em cativeiro, animais pro abate comem, são felizes e recebem comida todos os dias por um único fazendeiro, até que BAM, ele é traído e o fazendeiro que o alimentava por tanto tempo virou o abatedouro dele e o matou, é esse tipo de carne que você sente menos culpa em comer?”
Hades: wow, eu mesmo fiquei com pena de comer carne pronta agora
Isabeli: peraí que eu ainda vou te convencer que caçar um animal é melhor que comer a carne pronta. (tosse) “na selva, animais não são amigos de ninguém, é matar ou morrer, um grande javali que é cacado pra morrer e mais perigoso de bater, mas ele não sente traição ao ser morto por um humano, quando um animal é morto por nós, tudo que ele pensa e que ele não conseguiu sobreviver ao predador dessa vez, simples assim, não dá um peso na consciência menor caçar na floresta?”
Hades: (assovio surpreso) acho que acabei de entender por que crne selvagem tem mais sabor que a carne do mercado (morde)
Isabeli: tem mais de um motivo do que esse, mas sinto que o motivo que você descobriu é um dos mais fáceis de perceber mesmo (morde).
Nossa, eu sabia que ia aprender muitas coisas com essa garota, mas eu não tava esperando aprender sobre comida com ela.
Hades: e sobre aquelas pessoas que dizem “matar animais é errado”, que discurso você tem pra elas?
Isabeli: e um bem simples na verdade, eu nem preciso falar muita coisa, só preciso dizer que as plantações que criam o bendito prato vegetariano deles mata mais animais do que qualquer abatedouro. Que as barragens que criam a linda água potável deles inundou florestas e matou milhares de animais inocentes.
Hades: meu deus
Isabeli: depois eu normalmente digo que eles não se importam com os animais, apenas com os fofinhos que aparecem nos vídeos de abatedouros, porque não importa se estamos na era moderna, ou se estamos vivendo sozinhos em uma cabana, porque de uma forma ou de outra, mesmo indiretamente, sempre estamos matando animais e nos aproveitando do que conseguimos na morte deles.
Eu fiquei sem palavras quando ela falou aquilo, incapaz de falar qualquer coisa, até que eu a ouvi falando.
Isabeli: normalmente isso é o bastante pra os fazer calar a boca
Hades: consigo entender porque.
Nossa, eu nao fazia ideia como nós chegamos naquele ponto da conversa, mas eu gostei como agente conversou tanto que agente tinha terminado os sanduíches sem perceber, me fez rir dá bobeira que agente tava conversando, até que a minha Lady pegou um guardanapo e limpou a boca até ela ficar invisível de novo, se levantar e falou.
Isabeli: vem, ainda temos um outro lugar pra ir.
Nossa, como aquela garota podia ter tanta motivação pra sair assim? Ainda mais depois de tudo que ela fez apenas naquela semana. Bom, depois de tudo aquilo, eu apenas consegui sentir alívio em ver como ela parou antes de cair no chão, depois que percebeu que eu tinha soltado a mão dela.
Claro, os cãezinhos ainda estavam com ela, mas ela queria que eu segurasse a mão dela. E quando a peguei de novo, não tive medo de falar.
Hades: tenta não se apressada demais, ta bom?
Isabeli: tá bom, eu vou tentar.
Apesar de ter muitas dúvidas, de onde aquela energia toda tava vindo, eu fiquei ainda bem feliz de ela ter essa disposição toda dela, me dava uma alegria o coração ver ela tão disposta e feliz assim. Bom, tava curioso pra ver onde ela iria me levar dessa vez, então nem me preocupei em pensar aonde eu tava indo.

