Isabeli
E como sempre, eu precisei de uma pequena preparação pra fazer todas as coisas que eu amo, pra começar, eu tive que usar meu kit de “garota invisível”, por mais que não parecesse, minha Singularidade não era muito rara quanto eu pensava quando criança, então se eu me vestisse como uma garota invisível comum, eu não ia ser notada.
Eu também deixei uma sósia minha dentro do castelo, caso alguem desse falta de mim, e mais uma vez, estava preparando meus cãezinhos para irem junto de mim para meus cantinhos de relaxamento especiais.
Hades: ok, ok, entendi, você vai ficar normal pra sair, mas como EU vou andar com você, minha cara é conhecida
Isabeli: os mordomos vão dar um jeito nisso.
E depois de eu falar isso, os mordomos levaram o Hades pra um lugar diferente, e logo depois, ele voltou, bem impressionado
Hades: meu deus, como eles fizeram isso? Eu me sinto olhando pra um estranho (voz chique debochada) quem é esse bonitão? Hahahahaha
Isabeli: com certeza nenhum estranho te reconheceria, agora vamos nos divertir um pouco. Ah, e a propósito, meu nome de disfarce é Bianca, e seu nome de disfarce e Luciano
Hades: lidera o caminho, Bia
Isabeli: pode deixar, Luci.
E sorrindo, eu tava decidida a mostrar ao Hades um dos lados mais bonitos do meu reino, depois de mostrar os lados mais doidos e deprimentes do território, era o mínimo que o meu Lorde merecia.
Isabely: Sir Luci, voce se importa de nós irmos andando? E que eu osto muito de andar pra aproveitar melhor meu disfarce
Hades: sem problemas Lady Bia, eu sei que você deve ter algo incrível me esperando nessa caminhada.
Eu sorri pra ele enquanto pedia pra abrirem os portões de casa pra nós sairmos. O castelo da família Crowborn era um lugar tão imenso que nós tínhamos uma pequena comunidade no nosso território, que era onde os funcionários do castelo dormiam, faziam exportações, e outras coisas que não dava pra fazer no castelo.
Mas não olhei para aquele ponto específico da minha casa, não, eu queria levá-lo a outro lugar, um lugar que era muito especial pra mim, então não podia perder tempo só olhando pra minha própria casa.
E depois de nos ficarmos caminhando um tempinho, logo chegamos no caminho que eu queria, eu não falei aonde eu tava levando agente, mas a Anima sabia perfeitamente onde eu queria ir, então tava me puxando pro caminho certo.
Hades: Lady Bia, você sabe aonde estamos indo?
Isabeli: eu não, Sir Luci, mas a Rexi com certeza sabe, vamos confiar nela.
E com uma risadinha, o Sir Hades decidiu confiar em mim, e na Anima. Nem questionando porque eu a chamei de Rexi como nome falso, hihihihi. E quanto mais nós caminhávamos, pela primeira vez em muito tempo, não me importei de ser cega.
Porque eu consegui sentir de forma perfeita, o cheiro doce das lojinhas, as risadas das crianças, as vozes contentes dos cidadãos, e principalmente o trotar de cavalos, que tinha um tom calmante demais na minha cabeça.
E pela forma que o Sir Hades parecia tão tranquilo e calmo quando nós andávamos por ali, eu tinha certeza que ele tava vendo algo incrível por causa da Singularidade dele.
Hades: meu deus, quantos assuntos mal resolvidos você resolveu?
Ah, o lance dos “assuntos mal resolvidos” dos fantasmas, bom, pois é, ele sempre me falou como ambientes ficaram mais acolhedores e gentis quando um fantasma ascendia por ter o assunto mal resolvido realizado, tinha todo um lance místico por tras, sobre como ajudar essas almas perdidas deixavam o último lugar que eles ficaram mais amigável mesmo.
Sendo elogiada de forma tão fácil como aquela, eu podia apenas rir e me gabar pro meu Lorde de todos os fantasmas que eu ajudei, mas no lugar disso, meu coração pesou e eu falei bem mais no automático que de forma proposital mesmo.
Isabeli: sou eu? Ah Sir Luci, você me dá crédito demais, não foi apenas eu, foi meu pai, e meu avô, e meu bisavô, e todos que vieram antes de mim…
Após falar aquilo, eu senti que meu coração tinha ficado tão leve que ele parecia que criou asas e ia tentar fugir pela minha boca. Mas eu só me contentei em erguer minha mão esquerda pro horizonte, e continuar.
Isabeli: …toda essa maravilha à nossa volta e um esforço em conjunto, não posso ficar com todo o crédito.
Mas assim que eu falei aquilo, o Sir Hades pareceu ter entendido alguma coisa, então respondeu, como no automático, igual a mim.
Hades: olha, não precisa achar que me deve mostrar as coisas ultra legais só pelo que agente fez esses dias, sei que um Reino que criou uma mulher tão fantástica quanto você deve ter coisas bem fantásticas pra me mostrar tambem
Isabeli: você não sabe disso, você está fazendo assumpções, mas não se preocupe-se…Sir Luci, vou te mostrar algo que transformaram suas assumpções em verdades absolutas.
Eu gostei bastante do risinho que o Sir Hades deu quando falei aquilo, e quando eu ouvi os passos das pessoas aumentando, o som dos cascos de cavalos diminuindo, e as conversas sobre instrumentos, e músicos ficando cada vez mais recentes, tive certeza que nós chegamos no lugar, finalmente.
Hades: um teatro?
Isabeli: é, sei que pode parecer mega óbvio pra você, mas sou uma fanzona de musicais, seja eles orquestras ou musicais solos, então, você vem?
Hades: e claro, tô ansioso pra ver que tipo de rosto que voce fará quando estivermos lá dentro.
Aaaaaah, pelo jeito ele já entendeu como saber que tipo de rosto eu tava fazendo, mesmo sem maquiagem, que fofinho.
Isabeli: pode apostar nisso, e como não estamos com o “uniforme” hoje, saiba que você ta liberado pra me zuar pelas minhas caretas a vontade
Hades: anotado.
E no meio daquelas brincadeiras e risinhos que dávamos, acabei pisando num relevo no chão, um relevo que qualquer um com olhos podia ver, mas mesmo eu tendo olhos, eles não funcionam.
Eu não fiquei com medo, pois eu sabia que a Anima ia me pegar antes de cair no chão, ela foi treinada pra isso.
Mas a Anima nem se mexeu, ela ficou parada enquanto eu ouvi um grito, e braços poderosos me envolvendo mais uma vez, com uma delicadeza que eu não achava ser possível para alguém tão forte. o Sir hades me segurou pela cintura com uma mão, e a minha nuca com a outra.
Apesar do quão desconfortável era a posição que ficamos, meu lado mais apaixonado mal pensou no desconforto, eu tava ocupada demais tentando não explodir de emoção por nós dois estarmos em talvez, a cena mais clássica em qualquer obra de romance no mundo, qualquer obra de romance da história e até talvez mais clássica em qualquer obra de romance do imaginário das pessoas. Isso era o quão comum essa posição que nós estávamos era.
Algo me dizia que eu tava pensando assim pra tentar manter minha cabeça no lugar, o que ironicamente tava funcionando muito bem.
Dessa vez, eu não me amaldiçoei por não conseguir enxergar, por que eu consegui sentir direitinho a mão dele na minha cintura, e a outra na minha nuca, e um calor bem diferente do calor mais inocente do meucoracao queimava onde ele me tocava naquela posição.
O Sir Hades estava tão próximo de mim que eu até conseguia ouvir o coração dele batendo, ou será que era o meu? Bom, eu também senti que o rosto dele tava ultra perto do meu, porque eu conseguia sentir a respiração dele no meu rosto, ela tava tão rápida que eu podia sentir o quão nervoso ele tava…ele só precisava de um empurrãozinho.
Então, de forma bem lenta, pra não assustar ele, passei minha mão no pescoço dele, e lentamente o segurei pela nuca, e o trouxe pra perto de mim pra me dar um beijo, eu tinha sempre problemas pra colocar comida na minha boca, mas naquela situação, eu não errei dessa vez.
O Sir Hades, não resistiu, ele na verdade me segurou com ainda mais forca, e conosco apenas parando de nos beijar pra conseguirmos respirar um pouco.
Depois disso, ele me levantou bem devagar, ele colocou nós dois em pé de novo, e pra impedir que eu caísse de novo, ele continuou segurando a minha mão, deixando apenas uma das minhas mãos para controlar as coreias dos meus cães, mas a essa altura, eu nao tava me importando muito com aquilo.
E enquanto agente andava até a entrada do teatro, eu falei.
Isabeli: somos marido e mulher, quando não estivermos trabalhando, nao precisa ter vergonha de me beijar
Hades: hehe, claro, é que, a ficha não caiu ainda, sabe, que nós estamos realmente casados
Isabeli: é, entendo o que você quer dizer.
E rindo um pouquinho, eu me senti um pouco estranha pelo quão feliz eu estava, mesmo que não tenha chegado nem perto de mostrar todas as grandes maravilhas do meu reino ao meu Lorde.
Comecei minha lista de maravilhas com aquilo que manteve minha sanidade nos dias em que eu senti que estava perto de precisar ficar uns dias na casa de recuperação.
Uma vez dentro, não demorou para entrarmos mais pra dentro do palco, ouvirmos milhares de pessoas conversando no meio do caminho, ate acharmos nosso lugar.
Hades: nossa, a casa tá cheia, esse pianista deve ser um cara bem famoso
Isabeli: digamos que ele apenas tem um bom histórico nesse teatro, por isso que ele consegue mobilizar multidões como essas
Hades: nossa, agora to empolgado pra quando ele aparecer, hihihi.
O desejo do Sir Hades acabou não demorando muito, pois segundos depois, o barulho das cortinas abrindo foi feito, e com uma salva de aplausos humildes, o pianista apareceu.
Um silêncio momentâneo, que foi preenchido apenas pelo som dos sapatos duros do pianista no palco de madeira, então ele se sentou na cadeirinha do piano, e começou a sinfonia.
Deu pra ver que o Sir Hades estava empolgado pro que ia acontecer, pela forma que ele começou a apertar com mais forca a minha mao, mas sinto que ele iria gostar daquela peça com certesa.
O pianista não poupou esforços e ja começou com um complicado setor de 8 notas, repetindo de forma rápida um espaço de 2 notas grossas, 4 finas e 2 grossas no final. Terminando com um soneto, fazendo com que 2 notas finas, de extremidades distintas, fossem ouvidas ao mesmo tempo. Repetindo essa sequência 5 vezes, antes de partir pra próxima.
Ao chegar na quinta seção, ele quebrou a sequência fazendo um deslize simples, onde ele deslizou o dedo pelo piano, conseguindo tocar todas as notas uma por uma, da mais grossa a mais fina, e depois da mais fina a mais grossa.
Mesmo sendo cega, eu fechei os olhos, apenas sentindo cada tecla daquele piano, sentindo como aquela melodia parecia carregar grandes ondas de mares em suas notas grossas, e as suas notas finas pareciam grandes ventanias que batiam em meu rosto, tentando me afetar.
E com essas duas combinações sinistras, eu me senti em um barquinho em alto mar, mas o barco não estava desgovernado, nananananão, era bem o contrário, eu sentia como cada onda balançou meu barco, enquanto cada vento complementava a onda, impedindo que meu barco caísse no meio da água.
Isabeli: cada nota do piano complementa a outra, impedindo que uma fique muito tempo na melodia, e por isso que eu amo esse lugar
Hades: sabe Lady Bia, posso não estar tão ligado ao teatro como voce, mas eu to entendendo por que você gosta de vir aqui
Isabeli: não precisa ficar com vergonha Sir Luci, leva anos pra entender a complexidade desses musicais
Hades: sem letras, sem outros instrumentos pra acompanhar, e tendo apenas uma luz teatral para ajudá-lo no palco, e, eu to bem curioso pra saber que tipo de coisa você consegue sentir apenas com a música
Isabeli: não vou te explicar, eu quero que você entenda tudo sozinho, porque no fim, quando você conseguir entender, você vai entender do seu próprio jeito, não do meu.
Hades: hmhmhm, nesse caso, menos papo e mais música.
E rindo um pouquinho, me concentrei na música de novo. E mais uma vez, aquela melodia perfeita foi feita, em uma combinação de 5 notas grossas e 4 notas finas.
Tudo seguido de uma mudança sutil, onde as notas grossas continuavam as mesmas, mas as notas finas lentamente foram levadas pra mais perto das notas grossas, até que as 4 notas finas tocaram nas 5 notas grossas.
E quando isso aconteceu, a música saiu de 5 pra 4 pra uma sequência ultra rápida de duas notas finas sendo tocadas de forma tão rápida que pegou a atenção de todos nos por um segundo.
E a próxima sequência foi interessante, com tudo sendo tomado por apenas notas medianas, as notas que ficavam bem no centro do piano. Elas aumentaram devagar até as notas mais finas, até que o ritmo foi parado, por um único toque, o toque da nota mais fina em todo o piano.
Aquele toque foi o suficiente pra deixar tudo em pleno silêncio por alguns segundos, até que o ritmo do pianista continuou, adotando novamente o ritmo preciso onde a música parecia estar tentando se manter alegre, mas uma melodia extremamente fina, que se destacava de todas as outras, sempre forçava o ritmo a se manter na melancolia.
Era o ritmo perfeito para a história que ela estava representando, eu já tinha escutado aquela melodia muitas vezes, mas eu sempre me sentia mexida quando eu a ouvia, sabendo muito bem e qual história era ela inspirada.
Era a melodia da história do Herói nível 4, uma história pouco conhecida para as massas, mas que era bem famosa para aqueles que possuíam fome por conhecimento como eu.
E aquela música em específico, estava focada na melancolia do grande Herói, na dor e pânico que ele sentia vendo como, mesmo depois de todo o trauma que ele já carregava depois de tudo que ele passou, toda a dor, sofrimento e desafios que ele sentiu na pele, a jornada dele ainda não tinha acabado.
O Herói ainda precisou cuidar do assunto que mais adultos incompetentes criaram, o Herói pegou um fardo grande demais pra si mesmo.
E assim como a própria melodia explicava, sem nenhuma palavra, o Herói guardou o fardo pra si mesmo, ele se forçou a segurar a própria dor dentro de si mesmo por tempo demais.
A confusão, destruição, e dor liberada quando ele não conseguiu mais se conter foi tão intensa que foi necessária uma música separada para todos entenderem o quão ruim ele tava.
Os sentimentos eram tão intensos que as próximas músicas da jornada do Herói eram uma gigantesca opera rock.
Uma fascinante, mítica e fantasiosa ópera rock, com tantos instrumentos que era necessário um maestro para que toda a raiva e dor que o Herói sentiu fosse explicada.
Aí aí, que nostalgia, aquela ali era a minha favorita, eu fantasiei tanto em ouvir aquela melodia de novo em um palco gigantesco igual a esse.
Mas então eu me lembrei que eu não tava ouvindo aquela peça agora, estão tentando não me perder muito na minha própria mente, voltei a focar na música na minha frente.
Apenas pra perceber que a música acabou. Mas todos esperam algum tempinho, antes de levantarem e começarem a aplaudir devagar.
E pelos gemidos de tristeza e sons de choro que eu ouvi o meu Lorde dando ao meu lado. Eu senti como aquela peça o tocou em um ponto bem fundo do coração de pedra dele, do jeitinho que eu queria, hihihi.
Até que eu senti algo gelado no meu próprio rosto, percebendo que eu comecei a chorar também, e naquele momento, eu só agradeci que eu estava sem maquiagem, porque eu sabia que eu ficava assustadora quando ficava de maquiagem borrada.
E nós ficamos ali, parados e aplaudindo, apenas olhando o Pianista se levantando, e se curvando.
Eu sabia disso porque, eu conseguia ouvir o ranger do palco, imaginando que foi esse movimento que ele fez, eu já tinha ido lá vezes demais pra eu confundir aquele barulho.
E quando a peça acabou, fiquei algum tempo sentada, esperando que o Sir Hades me perguntasse alguma coisa.
Hades: aquela música, foi incrível, qual o nome dela?
Isabeli: “podre por dentro” a segunda parte de uma sessão de 4 músicas detalhando a vida e morte prematura de XXX, o herói que virou um amaldiçoado de nível 4
Hades: aaaaaah, não é atoa que eu senti que a música me lembrava de algo familiar
Isabeli: você conhece esse conto?
Hades: ele meio que foi minha inspiração pra correr atrás da minha saúde, e a saúde dos meus irmãos.
Eu fiquei bem feliz e quentinha quando ele falou aquilo.
É claro que ele leu a história do Herói Caído, ele era o Sir Hades, ele com certeza iria gostar de algo assim.
Hades: então, pra onde vamos agora?
Isabeli: vem comigo.
Apesar de eu gostar muito do quão feliz o Sir Hades parecia naquele momento, eu não tinha acabado de demonstrar a música do Reino Uiruuetê para o Sir Hades, nananão, eu ainda tinha um “lugar” para ainda levá-lo.
Isabeli: Sir Luci, escuta, eu espero que você seja paciente, para o próximo lugar que vamos, podemos demorar um pouco pra chegar no lugar certo
Hades: com você do meu lado, tenho certeza que podia ficar o dia inteiro só andando
Isabeli: mas eu não.
Eu então me aproximei do Sir Hades bem devagar, e sussurrei no ouvido dele.
Isabeli: não esquece que eu tô descalça.
Eu senti que o que eu fiz não foi nada demais, mas pelo jeito eu fiz alguma coisa, por que o Sir Hades deu um salto pro lado oposto ao meu, como se eu tivesse dado um beijo surpresa nele, e pela respiração rápida, sabia que eu tinha feito alguma coisa.
Isabeli: você tem orelhas sensíveis?
Hades: não, mas, não sussurra no meu ouvido assim do nada.
Ah, entendi, ele não era sensível nas orelhas, ele era sensível a minha voz…isso me deu ideias interessantes, mas por enquanto, eu ia apenas mostrar pra ele a próxima alegria musical do meu reino.

