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A Luz do Seu Amor
😭🧐🙂‍↕️o inferno de cada um🙂‍↕️🧐😭
4217 palavras • 23767 caracteres • ⏱ 16 min 52 s

😭🧐🙂‍↕️o inferno de cada um🙂‍↕️🧐😭

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Nossa, aqueles garotos só falavam, mas ainda conseguia me deixar muito cansada, era nesses momentos que eu agradecia por ter um cônjuge como o Sir Hades do meu lado agora.


Eu admito, eu pensei que ia levar mas alguns dias pro Sir Hades se abrir com os Singulares, mas assim como eu pensei, ele realmente se dava melhor com crianças, e, pessoas que já não tinham muita força pra esconder as coisas, algo que eu sentia que era um padrão nas pessoas que eu gostava, hummmmmm. 


Que nem eu, nós éramos realmente almas gêmeas, hihihi. E exatamente por esse pensamento que eu esperava que ele não ficasse com raiva por eu ter deixado ele ali.


Por pior que isso soasse falado em voz alta, tinham alguns Singulares ali que precisavam de um cuidado mais especial do que aqueles que tinham permissão de ir pra Sala Mista.


Bom, depois que eu cheguei naquele lundo corredor de salas, com portas amarelas, e um chão verde, tentando ao máximo ser um chão gentil. 


Eu segurei as coleiras da Anima com ainda mais força, pois apesar de eu confiar muito nos pacientes que eu iria visitar hoje, eu ainda tinha um pouco de medo da imprevisibilidade do que eles podiam fazer.


Mas isso era bom, meu medo ia me deixar alerta, me preparar pro pior.


E depois de falar aquilo pra mim mesma o suficiente pra meu corpo começar a acreditar nisso, cheguei em uma porta, e com muito cuidado, entrei.


Na sala que eu entrei, tinha uma garota que eu já tinha feito 10 sessões de terapia, é algo em mim dizia que a moça logo ganharia seu direito de sair dali sozinha, oh pelo menos conseguir ir pra Sala Mista. 


Normalmente, eu não era chamada pra me encontrar com as pessoas que não podiam sair dos quartos, porque na maioria das vezes, aqueles dentro dos quartos não estavam em uma situação crítica o bastante para receberem  um tipo de terapia como a minha.


A minha Psicomancia era  especializada para pessoas em estados bem graves de mudança, algo que, mesmo que eu ainda conseguisse sem problemas tratar pessoas normais, todos sabiam que minhas atividades eram mais bem aproveitadas em casos mais graves.


Casos como o da senhorita Lorenza, que eram casos de Singulares de nível 2 que estavam quase entrando no nível 3.


E pra impedir que a Senhorita Lorenza ocupasse um lugar no porão do meu castelo, eu não podia deixar isso acontecer…mas considerando como a Lorenza tava exalando bem menos magia sentimental e corrompida, comparada com as primeiras sessões que conversamos.


E que ela tava com a respiração mais calma e controlada. Me fizeram pensar que ela tava muito mais do que pronta pra eu ir a um ponto mais intenso das minhas seções, onde antes, a respiração dela tava rápida e desregulada.


Eu sentei na cadeira que tinha no quarto dela, e pelos sons de madeira rangendo, senti que ela se sentiu na madeira na minha frente.


A Anima e o Animus estavam calmos, e isso é bom, isso significa que, naquele momento, eu não estava sofrendo nenhum nível de ameaça.


E com um tom que eu esperava estar mostrando a alegria que eu tava sentindo agora, eu falei.


Isabeli: ola Lorenza, essa é a nossa décima sessão, e sinto que chegamos bem longe até agora, vos e me falou como você sente raiva da sua mãe, em como você preferiu viver na rua e ficar sobrevivendo através das rações das casas para os desabrigados do que ficar com sua mãe. 


Dei uma pequena pausa, para ver se a garota queria me interromper em algum momento, mas como sempre, quando ela que tava no controle, eu quase não ouvia nada além de um simples “unhun” dela.


Ah, eu queria poder entender melhor o que ela sentia, mas não ia desistir, mesmo que “a outra” fosse mais fácil de ouvir e entender, eu não ia desistir de entender a senhorita Lorenza.


Isabeli: que você trabalhou até que o irmão mais novo da família Mamuhorn se encantou com seu trabalho de empregada temporária e decidiu te contratar como uma permanente, até que você conseguiu dinheiro o bastante pra dar uma vida melhor pra você e a Gabriela, Algo a acrescentar até aqui?


E quando perguntei isso, senti a respiração dela falhando, ela mudando o lugar da cadeira, e mexendo bastante o próprio corpo, porque, mesmo bem melhor, certeza que ela ia precisar ficar naquela casa de recuperação por muito mais tempo do que agora.


Lorenza: sim…a minha mãe…ela era uma idiota, pra eu não falar coisa pior, quando eu, falei pra ela o que eu tinha, ela me fez escolher entre ela ou a mulher que eu amo…eu fiquei em dúvida por alguns segundos, mas quando ela me falou “você é uma aberraçao” eu sabia que, mesmo se eu tivesse que comer o pão que o diabo amassou lá fora, eu seria muito mais eu mesma do que te ter viver com uma mãe que não aceitava que eu passasse meus dias com as pessoas que eu realmente amo.


Ai, aquilo me encheu de raiva, e de forma bem calma, não tentei esconder minha raiva, deixei ela sair em gestos, que deixaram claro pra Lorenza que eu simpatizava com a dor dela.


Isabeli: eu lamento pelo que você teve que passar, muitos estão tentando fazer as coisas mais fáceis para…pessoas “diferentes”, mas…


Lorenza e Isabeli: …mas tem doidos por aí que se recusam a mudar, mesmo que o mundo inteiro dele esteja mudando.


Eu ri um pouquinho quando ela falou daquela forma, então a Lorenza continuou.


Lorenza: é, eu sei, ainda me lembro como você falou pra mim, “não se preocupe, quando pessoas como sua mãe se recusam a mudar, quando o mundo inteiro muda, só existem duas escolhas pra ela, ou ela tenta mudar o mundo de volta, ou é deixada pra trás na mudança”.


E com cada palavra, eu senti direitinho como. Lorenza se segurou muito pra não chorar. 


Quando terminou de falar, ela respirou um pouco, deixou os sentimentos saírem em lágrimas tímidas, daquele tipo que pessoas dão quando choram, mas não gritam enquanto choram. 


Eu sabia disso, porque eu já tinha ouvido ela fazer esses gemidos de choro o bastante pra saber quando ela tava fazendo isso. 


Tinham certos tipos de som que não dava pra fingir ou imitar, não importa o quão boa a pessoa fosse nisso.


Lorenza: e infelizmente, considerando que eu vou bater um recorde de quase 20 anos seguidos sem falar com a minha mãe, eu sei que ela será uma daquelas que será deixada pra trás


Isabeli: está triste?


Lorenza: claro que sim, ela é minha mãe…mas, acho que isso não significa mais nada agora…toda essa tristeza agora, é algo que eu quero exterminar, mesmo que seja a força


Isabeli: lembra o que eu te ensinei, esse tipo de dor só dá pra fazer desaparecer quando você aceita que ela tá ali, e não tentar enfiar elas dentro de você, como se nunca tivesse existido


Lorenza: (funga) é, eu não me esqueci disso…não me esqueci, minha tristeza tá tentando fazer eu me reconectar com a minha mãe, mas a minha raiva tá me mantendo no lugar certo…


E lá vem, eu já tava esperando uma condição na nossa décima seção, considerando o quanto ela evoluiu de lá pra cá.


Lorenza: engraçado, se ela tivesse mudado, mesmo que só um pouquinho, eu teria tentado falar mais com ela…mas ela não mudou, ela continuou igual, e já que ela é a adulta da situação, não vou ser a adulta que tenta se reconciliar com ela quando ela não quer se reconciliar comigo. 


A voz dela estava engrossando, tava vindo, aquela coisa que “a outra” falou pra mim, e eu tava bem empolgada pra ela conseguir falar aquilo com a própria boca.


Lorenza: e eu não vou recuar, mesmo se nós chegarmos naquela cena clássica de filmes de drama, onde “ah, minha mãe tá morrendo, tenho que perdoá-la pra não ficar com minha consciência pesada”...bom eu não vou fazer isso. 


Não era a primeira vez que ela usava aquela voz comigo, mas eu gostava disso, aquela voz, era apenas quando a raiva mais profunda dela ia pra fora.


Ela tinha medo daquela voz, a primeira vez que ela falou daquele jeito, ela própria se assustou com ela, mas comigo, ela tinha confiança pra falar naquele tom comigo.


Algo que me deixava extremamente feliz porque eu sentia que aquela voz tava vindo de um canto bem sombrio, escuro e escondido do coração dela.


E como uma Psicomaga, aquilo era como uma mina de ouro pra mim.


Lorenza: se chegar um dia onde aquela vadia estiver morrendo e eu estiver bem, eu vou visitá-la, mas só pra deixar claro que eu ainda a odeio, e que eu sempre vou odiá-la por tudo que ela me fez passar, e que ela podia morrer e passar os restos dias dela no inferno sabendo que eu nunca a perdoei, e nunca iria a perdoar.


Nossa, dava pra sentir que ela colocou a alma dela aqui, e pela forma que a cadeira rangeu e ela soltou um suspiro de alívio, eu conseguia sentir o quanto ela tava se preparando para falar isso a muito tempo.


Eu fiquei um tempinho calada, apenas deixando que ela registrasse tudo que ela falou pra mim naquela hora, e quando eu tive certeza que ela já se recuperou o bastante, e que ela não iria me interromper.


Quando tive certeza disso, eu peguei meu caderninho com letras em braile, o folheto um pouco, e enquanto lia tudo com meus dedos, eu falei.


Isabeli: você também me falou que se sentia culpada depois que você melhorou de vida. Segundo suas próprias palavras “fugi de casa com a mulher que eu amo, comi o pão que o diabo amassou, fui ajudada por um homem bom, e consegui dar a vida que eu e a minha amada merecemos, mas mesmo assim, não consegui me sentir feliz nesse paraíso que eu criei com minhas próprias mãos, e eu me odiei por isso”


Lorenza: é, exatamente.


Ai ai, infelizmente essa era uma história bem comum, uma garota que tinha muitos traumas, e pensava que ter uma vida feliz era o suficiente para os traumas desaparecerem e não virem a luz do dia, sendo que é exatamente o oposto. 


A garota criou o próprio porto seguro com as próprias mãos, e nesse novo porto seguro, os traumas delas finalmente acharam um canto de descanso.


Um canto para relembrar a Lorenza que, apesar de tudo que ela fez, não, ela não tava bem, por mais contraditório que parecesse.


Isabeli: e o seu desejo de manter a boca fechada, acabou criando a sua contraparte, a Sirene, não é?


Pois é, a Lorenza tinha uma Singularidade que criou uma segunda personalidade nela, uma criatura parte Arara, parte Mulher.


Era uma interessante, mas não tão rara, variante da Singularidade da sombra com rosto.


Uma Singularidade que criava uma personalidade inteira com todas as coisas que a pessoa reprimiu de si mesma por muito tempo, até essas “coisas ruins” ficarem fortes o bastante para ganharem uma consciência totalmente autonoma.


A maioria das segundas personalidades, tinham a aparência de lobos, pois lobos eram famosos por andar em Alcateias, e segundas personalidades com aparências de lobos, normalmente representavam o desejo de pertencer a família que as pessoas carregavam em si próprias.


Mas a Lorenza era muito próxima a “alcatéia” que ela escolheu ter, então a segunda personalidade dela não podia ser um lobo.


Não, o desejo dela era de manter toda a dor e raiva dela reprimida dentro dela, e como uma contrapartida disso, a magia dela lhe deu uma segunda personalidade.


Uma personalidade com a aparência de uma Arara, uma lobis-arara, uma segunda personalidade que ela ainda estava aprendendo a controlar. 


Mas felizmente, algo comum em segundas personalidades, principalmente as de rostos, é que elas quase sempre gostavam de suas contrapartes.


Isso porque, em algum momento, a parte da personalidade das pessoas de “amar a si mesmo” acabava se desprendendo da original, era algo bem comum no estudo dessa Singularidade, algo que era ao mesmo tempo fascinante, e absurdamente triste.


Tentando não perder o fio da meada, voltei a prestar atenção na Lorenza, a Sirene, apesar de amar a Lorenza, não a respeitava, bom, o nome foi dado a ela na sessão passada, então era até bem compreensível ela estar assim.


Bom, mesmo que a Sirene não respeitasse a Lorenza, ela me respeitava, então eu pelo menos conseguia conversar com a Lorenza sem querer ela atrapalhasse nossas sessões. 


Mas eu tinha que admitir, conversar com a doidinha da Sirene era muito bom também, eu esperava que as duas conseguissem sair em um futuro próximo, mas eu já tava perdendo o fio da meada de novo, eu ouvi a voz da Lorenza, então me preparei pra ouvir ela falar.


Lorenza: pois é…eu criei a Lorenza, nao foi minha mae, nem todas as coisas ruins que eu passei na infância, foi eu, e apenas eu…mas a minha garota não me abandonou né quando a Sirene gritou pra ela tudo que eu segurei por muitos anos bem em cima dela…


E mais uma vez, a Lorenza parecia estar se lembrando de dias bem sombrios,mas que eram mais do que essenciais para ela conseguir virar finalmente essa página da vida dela.


Lorenza: ...na verdade, foi o contrário, Gabriela abraçou a Sirene assim que ela terminou de gritar no ouvido dela, um carinho que, mesmo adormecida, eu senti na pele o quanto a Sirene tava precisando daquele carinho, aquele abraço, nocauteou, enfraqueceu e acalmou a Sirene de uma forma que nenhum tranquilizante conseguiria fazer


Isabeli: hmhmhm, “para alguém que é veneno, um abraço até sufoca”


Lorenza: e um provérbio antigo de algum sábio ancião


Isabeli: não, eu ouvi numa música uma vez


Lorenza: esse bardo sabia bem o que tava cantando


Isabeli: eles sempre sabem, Lorenza, eles sempre sabem.


Era engraçado isso, a Lorenza era uma Singular de nível 2 quando entrou aqui, mas ela rejeitou tanto a ajuda que precisou que eu fosse aqui, antes que ela chegasse ao nível 3, isso porque a maioria dos testes de recuperação eram pra ela revisitar seus traumas e memórias, e isso não era algo nem um pouco fácil pra garota. 


Infelizmente, tem pessoas que passam por tantos traumas que preferem perder a própria consciência do que revisitar esses traumas, nem que fosse pra curá-los, e depois de cada história que eu ja ouvi, ficava difícil de eu tirar a razão dessas pessoas. 


Por mais que fosse melhor pra saúde deles só deixar os traumas saírem, eu sabia que alguns deles eram difíceis de revelar. E é exatamente por isso que nada se resolvia em uma sessão de terapia, mas sim várias.


Lorenza: sabe, eu posso até ter dado a volta por cima na minha vida, mas sinto que não teria conseguido aproveitar o que eu conquistei se não fosse a minha garota


Isabeli: todos precisamos de uma Gabriela na nossa vida, algo a acrescentar?


Silencio, ouvi mais alguns sons de movimento, e então ouvi.


Lorenza: eu…to…com raiva…antes, eu usava essa raiva pra sobreviver, trabalhar, lutar, aumentar, e tentar não me perder no meio do caminho. E quando eu tava lutando pra da uma vida que eu…que nós merecemos, eu usei minha raiva pra me manter no lugar certo…e agora, sem nada mais pra eu gastar minha raiva, eu só tenho meus traumas do passado para pensar…


E assim como eu pensei, uma vez segura, ela finalmente conseguiu ver que, ela não podia ficar no paraíso que ela criou, não, uma mente criada pra sobreviver como a dela, precisava ser reprogramada devagar, para viver e não sobreviver, e pra sorte dela, já estávamos numa boa parte do caminho, não na metade, mas era uma boa parte dela.


Lorenza: todas as coisas que passei com meus pais, o simples fato de que, não importa o quanto eu tentei, eu não consegui fazer minha mãe me amar, me destruiu por dentro, e agora, eu sinto que finalmente tô pronta pra, tentar encarar essa dor que deixei guardada de mim por tanto tempo.


Eu fiquei em silêncio por um bom tempo, apenas deixando que ela absorvesse tudo que falou, de novo, porque como eu sempre gostava de falar pro meus pacientes, “pensar algo, e falar em voz alta eram duas coisas totalmente diferentes”.


Isabeli: sua sombra foi paciente, ela esperou que o caos do lado de fora se acalmasse, mas com o seu exterior calmo, sua sombra viu permissão para liberar seu caos interno. Essa fase sua não é uma provação, mas sim uma recompensa, você ficou tanto tempo sem cuidar de si mesma, que seu corpo te lembrou que, sim, você pode se importar com sua própria saúde.


A Lorenza não falou nada, mas mesmo não conseguindo ver, eu podia imaginar que ela ficou com os olhos arregalados por alguns segundos, antes de dar uma risadinha sincera, e então falar.


Lorenza: hehehe, cuidar de mim mesma? Nem lembro a ultima vez que fiz isso


Isabeli: então é bom você já começar a pensar nisso agora, não é? me fala, o que você quer fazer primeiro pra cuidar de si mesma?


Novamente, silêncio, apenas com um ranger de uma cadeira pra dizer que ela ainda tava lá, ela tava inquieta, ela iria falar algo tao absurdo assim?


Lorenza: promete que não vai rir?


Isabel: sim


Lorenza: eu quero tomar um banho. Mas não um banho normal, eu quero tomar um banho bem demorado, com uma água bem quente, daquela que queima sua pele, enquanto eu me encho de sabonetes caros e shampoos que deixariam meu cabelo divino.


Depois do que ela falou, foi minha vez de ficar em silêncio. Ela realmente achou que eu iria rir do que ela disse? Depois de todas as doideiras que eu já ouvi ela falando nas nossas seções, ouvir ela querendo algo tão simples como isso, me deixou muito, mas muito feliz mesmo. 


Ao mesmo tempo que, o fato de que ela pensava que querer algo simples assim era “errado” depois do que ela passou, me deixava bem triste.


Isabeli: ah querida, eu nunca riria desse tipo de coisa


Lorenza: não acha que o que eu to pedindo é simples demais, comparado a tudo que eu passei?


Isabeli: acho, e isso é incrível, porque o que muitas pessoas nao entendem na recuperação, é que antes de você conseguir aproveitar as coisas mais incríveis da vida, você precisa voltar a sentir a alegria e prazer nas coisas mais simples da vida, seja comer um bolo de laranja, ou tomar um banho bem quentinho, quando você desacelera um pouco pra sentir com cuidado cada uma dessas coisas, você sente que a vida vale a pena, sentindo que você tá, só vivendo, ao invés de sobreviver.


E mais uma vez, a Lorenza ficou em silêncio, um silêncio que demorou bem mais do que os outros, algo que me fazia pensar que ela tava pensando bastante no que eu falei pra ela naquela hora, até ela me perguntar, com uma voz mais tímida e assustada do que pensei que era possível dela fazer.


Lorenza: essa, vai ser nossa última sessão?


Isabeli: hmhm, não, mas pelo que estou sentindo de você, a sua mudança para o “porão” está bem longe de acontecer agora.


O maior problema que eu mais sentia quando eu tinha que cuidar de um paciente, era que um Psicomante não podia ser mudado, pelo menos não em um caso extremo como o da senhorita Lorenza. 


Trocar Psiomantes podia fazer com que a confiança fosse quebrada, com que todo o progresso da senhorita Lorenza fosse jogado pela janela e que ela acabasse piorando de novo. 


E por causa disso, eu tinha que sair do meu castelo pra cuidar dela o tempo todo, algo que, apesar de eu gostar de paixão de fazer, era desgastante pra caramba.


E quando a sessão dela acabou, antes de eu sair, eu deixei a Anima e o Animus irem até ela e a cheirarem, e os dois ficaram bem alegres e felizes, a ponto que eles receberam carinho na cabeça depois de ficarem tanto tempo com ela.


Aquilo era uma despedida pra mim, junto com  chance de descansar minha mente cansada, mesmo que fosse só por alguns segundos, e quando meus lindos, ieis e muito carinhosos cãezinhos voltaram, e na hoa ja me preparei pra ir pra próxima sala.


Uma vez na porta do próximo psicomante perto do nível 3, eu respirei fundo, e fiz uma sessão de terapia pra mais 4 Psicomante a beira da transformação. 


Foi algo tão cansativo quanto de costume, mas depois de impedir 4 pacientes de chegarem ao nível 3, mesmo cansada, eu sentia uma alegria e uma satisfação no meu coração que nenhum cansaço podia arruinar.


Mas o serviço não tinha acabado, assim que eu saí de lá, eu já me fui pro corredor com a ajuda da dos meus cães, e em segundos, eles me levaram até o Sir Hades, e pela forma que ele tava respirando, dava pra ver que ele não tava muito acostumado ainda com as sessões de terapia do território.


E sentindo pelo som da respiração dele o quanto ele ainda tava cansado, antes de nos voltarmos a nossa doida sessão de salvar pessoas, e tirei um tempo pra ficar abraçadinha com ele na cadeirinha ao lado dele.


E pelo jeito ele me viu, por que eu senti ele recuando um pouco mais a própria respiração, “do nada”, enquanto me tocava com cuidado, até me dar um abraço completo logo depois.


Nós dois ficamos um bom tempo abraçados, recarregando as energias um do outro, e quando paramos de só nos abraçar, respiramos fundo, ainda bem cansados, e depois nos levantamos, e andamos bem devagar até a carruagem de novo.


E quando entramos na carruagem de novo e ela começou a se mover. Nós ficamos apenas ali, sentados, expirando, e inspirando, expirando e inspirando, expiraaaaaando, e inspirando. Até que o Sir Hades falou.


Hades: (ofega, ofega, ofega) você passa por isso todo dia?


Isabeli: nah, só nos 4 primeiros dias, depois eu meio que me concentro em outras coisas, como as torres mágicas


Hades: ah, as torres mágicas, ja to vendo que vai ser um espetáculo vê-las quando você me levar


Isabeli: vai ser mesmo, mas por favor, tente se concentrar em recarregar sua energia, vamos precisar dela daqui a pouquinho.


O Sir Hades levou meu aviso a sério e tentou relaxar e ganhar mais energia, bom, tínhamos 1 hora de viagem até a próxima casa de recuperação, então nós tínhamos mais do que tempo o suficiente pra nos recuperarmos.


Em todos os primeiros 4 dias do mês, eu visitava 8 casas de reabilitação todos os dias, uma matemática doida que me dava tempo o suficiente para visitar todas as casas do territorio, e isso tudo no meio da semana ainda.


Um tipo de rotina difícil e bem pesado, mas a recompensa de 3 dias “livres” que eu teria disso valia muito a pena, muito mesmo. 


Mesmo que a minha fé na humanidade sempre ficava abalada quando eu visitava aquele lugar, porque todos os piores casos do território eram concentrados nas casas de recuperação. 


Claro, a maioria deles eram pais idiotas, que não tinham noção completa do que os próprios filhos, irmãos ou parentes em geral estavam passando, mas todos os pacientes especiais que eu tinha eram pacientes que passaram pelo pior tipo de coisa.


O tipo de coisa que na teoria, não deveria existir, quase ninguém no território passava por essas coisas,mas era apenas “quase” ninguém, quanto maior um lugar era, mais difícil era ver as pequenas rachaduras que podiam destruir uma estátua imensa.


 Era estatística pequena 1/1000, a cada 1000 casas que possuíam crianças, tinha a chance de apenas uma delas ser maltratada, mas em um reino grande como o meu, esse número fazia muitas crianças precisarem de ajuda, e quase sempre, essas pequenas porcentagens acabavam na casa de recuperação, “de uma forma ou de outra”, assim como eu falei pro Sir Hades. 


E como rainha, eu me sentia responsável por essas crianças difíceis de achar, porque podia até ser óbvio para muitos, mas eles eram os maus cidadãos, cidadãos que mereciam meu cuidado e atenção tanto quanto os outros, talvez até mais, pela “raridade” que os problemas deles eram.


Ai ai, eu realmente me perguntava quando eu não perdi a cabeça ainda com tudo isso que eu fazia. Bom, pelo menos, amanhã eu teria  minha “folga”, e minha chance de passar um tempo com o meu querido noivo.


Hades: a quanto tempo você faz isso?


Isabeli: e comecei a visitar os centros de recuperação desde que eu tinha 12 anos, mas eu só comecei a cuidar das crianças com problemas mais sérios quando eu completei 20 anos


Hades: meu deus, como você aguentou tudo isso?


Isabeli: eu aprendi formas de me manter sã quando eu ainda era criança. Recompensas que eu dou a mim mesma pelo bom trabalho que eu faço aqui


Hades: e você vai usa-las amanhã?


Isabeli: sim, e quero que você venha código nisso, tá preparado?


Hades: pode contar comigo.


Amava o entusiasmo do meu Lorde, e considerando o que iamos fazer daqui a alguns dias, aquela empolgação era mais que justificável.


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