???: e com os grandes líderes mundiais no ponto mais distante daquela linda celebração, líderes esses que abandonaram o príncipe e a princeza quanto mais eles precisavam deles, o príncipe e a princeza deram um beijo apaixonado, selando para sempre o amor que os manteve vivos até aquele momento
Isabeli: (respira fundo e suspirar de paixão) Eu amo as dramatizações que você põe nas cenas, sabia
???: ah qual e eu não romantismo tanto assim as cenas
Isabeli: e você pode me garantir, de pés juntos, que você não mudou nada dessas palavras que você leu?
???: tá bom, você me pegou, eu tentei “melhorar” algumas das cenas que eu li
Isabeli: hihihi, obrigada Bruna
Bruna: só o melhor, para a futura Rainha
Isabeli: e só o melhor pra minha melhor amiga do mundo.
E quando tava pensando mas por mim mesma, eu ouvi a porta se abrindo, e pelo som dos calçados de couro no chão, e o cheiro de vinho que eu reconhecia em qualquer lugar, eu tinha uma ideia de quem era.
Davi, o mordomo chefe da casa, em autoridade, ele só tava abaixo do papai, da mamãe e de mim, então ele ainda tinha que tomar cuidado como agia na minha frente.
Mordomo: lady Isabeli, o Lorde Adriano a espera na sala de reuniões
Isabeli: avise ao meu pai que já estou indo.
Ele não saiu na hora, ele deu uma reverência e depois fechou a porta com cuidado. Eu soube disso porque ele demorou um pouco pra abrir a porta.
Isabeli: ele se curvou pra mim?
Bruna: sim, minha Lady
Isabeli: então vamos.
E estendendo minha mão, recebi ajuda da Bruna pra me levantar, e com cuidado, fui levada até a sala de reuniões.
Muitos nobres não conseguiam pensar em confiar em outra pessoa, mas por causa da minha cegueira por causa da minha Singularidade, não confiar em ninguém era o pior erro que eu podia fazer.
Claro, eu precisava tomar cuidado com quem eu confiava, mas se eu tinha certeza de uma coisa, era que a Bruna era uma garota confiável.
A Bruna vinha da linhagem dos Grenhoose, uma família que sempre foi leal a minha, nossos ancestrais lutaram protegendo as costas um do outro numa intensa guerra com os Cavernosos, e depois de salvarem a pele um dos outros muitas vezes, uma amizade que sobrevive a gerações se formou.
A ponto de ter uma tradição de amizade bem poderosa entre as novas geracoes, meu pai foi amigo da Grenhoose da geração dele, minha avo foi amiga do Grenhoose da dela, e a Bruna virou minha dama de companhia pra manter a tradição.
E apesar dela ser minha dama de companhia, nós duas nos viamos mais como duas colegas de quarto do que, Dama e vassala, quando não tinha ninguém nos olhando, a Bruna não via problemas em se soltar um pouco mais perto de mim. Ela apenas não deixava eu fazer nada, porque ainda era difícil pra mim fazer qualquer coisa sendo cega.
Ela tinha a mesma mentalidade que eu, “não dava pra escapar de nossas responsabilidades, mas podíamos dar um jeito de fazer nossas responsabilidades serem algo divertido, e pela forma como ela ria quando brincava comigo, sabia que ela não tava me enganando.
Nananananão, eu a tinha ouvido risadas falsas o suficiente pra ter muita confiança em saber quando alguém tava me enganando ou não, além dela perceber quando eu tava meio sensível, e tentava me deixar mais pra cima, então se ela tava me enganando pra me trair, ela tava fazendo um ótimo trabalho.
Bruna: entao, ta preparada?
Isabeli: nao faço ideia, eu me preparei a minha vida inteira pra isso, mas mesmo esse sendo só o primeiro passo, sinto que preciso de mais uns anos de infância feliz antes de virar uma adulta cheia de problemas
Brina: é assim que se fala.
E assim que chegamos na sala de reuniões, um silêncio se fez, sendo quebrado por uma respiração ofegante, terminando com um movimento de ar rápido, comigo presumindo que a Bruna se curvou ao meu pai e depois foi embora.
Uma vez sozinha, eu levantei minha mão com cuidado, e fui recebida com uma mão grande, cheia de calos e rugas, mas que também tinham um carinho que eu nunca conseguiria confundir.
Pai: ta preparada?
Isabeli: eu só fico ali ouvindo você falando, me sinto um acessório
Pai: a sua hora de falar vai chegar querida, você só precisa ser um pouco mais paciente.
E com essa fala, meu pai me levou pra dentro da sala de reuniões, e como sempre, o lugar tava cheio de vozes, exigindo coisas, pessoas tentando silenciar outras, pessoas tentando esfaquear os outros nas costas, e no meio de tudo isso, tenha regiões com problemas de verdade, regiões que precisavam de ajuda, e regiões que precisavam de novos líderes.
E como o chefe da reunião, meu pai tinha o direito de desenrolar cada uma daquelas conversas, e decidir o que podia ser ignorado, o que devia ser enrolado, e o que era urgente.
Eu tinha falado que me sentia um acessório naquelas reuniões, mas o tipo de coisa que eu aprendi apenas ouvindo os adultos conversando era absurda, só precisava aprender como falar direito, mas sinto que isso eu ja tava aprendendo em outos lugares.
Meu pai nunca mentiu, um dia seria eu, um dia, eu iria liderar essa reunião, e lidar com todas aquelas vozes, e apesar de eu ter a coragem pra responder, eu sentia que precisava de algum tempo pra aprender a falar com esses enroladores que tentavam tirar as vantagens dos menores erros do meu pai.
Bom, coitado deles, porque meu pai não era enganado tão fácil assim, não importa o quanto eles tentassem, não dava pra eles enganarem meu pai, e se quisesse ser uma boa rainha um dia, teria que aprender cada um desses truques.
Quando a reunião finalmente acabou, continuei em silêncio, só tentando computar tudo que eu ouvi na reunião doida, as exigências de mais soldados, as discussões de como lidar com Singulares, e como distribuir comida pra todo mundo. E enquanto eu andava com meu pai pela casa,em um momentinho pai e filha falei.
Isabeli: sério pai, não sei como você consegue ficar tanto tempo naquelas reuniões? é tudo tão chato
Pai: isso porque você não tá no centro, de mesa falou, você é um “acessório”, ninguém tenta chegar perto de você, enquanto você é um acessório, eu sou um bife, e com cada membro daquele conselho sendo como milhares de leões tentando me comer, até meus aliados
Isabeli: é, eu sei…mas ainda é chato
Pai: a paz é chata, amor.
E quando ele falou aquilo, parei de andar na hora, meu pai gostava muito de falar essas coisas que destruíam e reconstruiam por completo minha forma de ver o mundo, como se fosse uma terça feira normal pra ele.
Bom, ser um Filo-arcano, e ter lido o Donum régis já seria mais que o bastante pra dizer que meu pai não era normal, mas eu ainda queria testar essas coisas doidas que ele me dizia, testar sempre fazia minha cabeça expandir, me preparando pra quando seria minha vez de ler o Donum regis
Isabeli: sério?
Pai: é, pessoas que entregam paes pra meninos de rua, professores que tentam entender seus alunos ao invés de apenas repreendê-los, escritores que passam horas e horas tentando criar histórias pra inspirar pessoas pelo mundo. Cada uma delas, se você ver com calma, tem uma vida chata, com responsabilidades chatas…mas também são essas coisas chatas, que impedem que coisas terríveis aconteçam pelo mundo.
Mesmo sem enxergar, eu fechei meus olhos e respirei fundo, não era incomum pro meu pai falar esse tipo de coisa pra mim, não de forma ruim, mas de forma aleatória quase completa mesmo, não tinha ideia total de como esses papos estavam me afetando, mas eles estavam me afetando.
Isabeli: é, mas alguns só são chatos quando não se sabe aproveitar, pois quando você aproveita bem esses momentos, é bem facil nao ser algo chato
Pai: hahahaha, é, verdade…eu já disse que te amo hoje?
Isabeli: não
Pai: eu te amo filha
Isabeli: também te amo papai.
Apesar de todas as loucuras que eu tava passando, e as loucuras que eu teria que aguentar no futuro, quando eu perderia por completo meu direito de ser uma criança, eu ainda me sentia segura, porque por um simples aperto de mão, eu conseguia sentir que estava colocando minha confiança nas pessoas certas.
Pai: e aí, já quer ver sua lista de pretendentes?
Isabeli: papai, por favor, podemos ver isso outro dia?
Pai: claro filha, mas lembre-se, você não pode ficar adiando pra sempre
Isabeli: eu sei papai…eu sei.
E com aquilo, meu clima feliz, tranquilo e relaxado que eu me encontrava, se desfez.
O meu reino tinha coisas o bastante pra ser considerado um tesouro, e como todo o bom tesouro, sempre tinham ladrões cruéis querendo roubá-lo.
E mesmo com todo o cenário que eu cresci, eu ainda acreditava em amor, não o amor à primeira vista de fantasias, e que as pessoas simplesmente ignoravam as partes ruins e que seria horrivel de viver na vida real.
Não, eu acreditava em um amor parecido com meus pais, um amor que não é instantâneo, mas um amor que vem da confiança, respeito, e principalmente, a convivência.
Isabeli: não quero que todos pensem que sou apenas uma boa donzela com um rostinho bonito, quero mostrar minha personalidade, mas sei que vou encontrar muitos pretendentes que vão evitar mostrar a deles. Seja por medo, vergonha ou a arrogância de pensar que, se não tiver passatempo, eles são diferentes. Eu ainda sou uma garotinha papai, deixe eu fantasiar sobre minhas histórias de amor por mais um tempo
Pai: como eu disse filha, não tem problema, só não esqueça que, não importa o quão bom um sonho seja, nós sempre temos que acordar, não estou falando isso como seu Rei, mas como seu pai, entendeu?
Demorei um pouquinho pra falar, não porque eu não concordava com meu pai, mas por que eu concordava tanto com ele, que precisei de um tempinho pra processar tudo que eu aprendi.
Isabeli: sim papai.
Ainda estava com medo, de não encontrar ninguém que eu pudesse amar, eu tinha certeza que encontraria muitos, que apesar de não me amarem, poderiam ser Reis bons, amigos, que poderiam estar do meu lado, mesmo que o romantismo fosse só pra mídia…
Viver uma vida sem amor, não importa o quanto eu tenha me preparado pra isso, um destino desses era algo que minha criança interior não estava pronta pra aceitar.

