HADES
De vez em quando, quando eu era mais novo, eu pensava que eu ganhei aquela Singularidade por um propósito, minha falta de mana quando nasci, minha fraqueza, minha capacidade de ver fantasmas, tudo isso pareceu ter motivos pra acontecer.
E por isso, uma boa parte da minha infância, eu apenas me foquei em tentar entender como eu poderia usar isso pra ajudar as pessoas, pensando que isso me ajudaria a achar meu propósito.
Naquela altura da minha vida, eu já tinha usado minha Singularidade pra falar com muitos fantasmas, acabar com muitos assuntos mal resolvidos, além de receber muitos artefatos especiais como recompensa por ajudá-los a ir pro outro lado.
Muitos cidadãos ficavam felizes quando eu aparecia na fazenda ou casa deles, porque eu não apenas “purificava” a casa deles, como eles diziam, mas ajudava um amigo a ir pro lugar onde pertencia.
Eu fiquei muito feliz, sempre que eu ajudava um fantasma, e por causa disso, eu ganhei o costume de analisar pessoas, pra saber se elas eram pessoas ou fantasmas, porque às vezes era bem difícil de diferenciar.
E por mais que eu quisesse me enturmar, ir pra festa de nobres, fazer caçadas, e ajudar alguns cavaleiros a ficarem mais experientes através de combates, eu não podia parar de pesar como…os mortos sempre parecem tão vivos em comparação aos vivos, algumas diferenças eram tão grandes que até chegava a ser ridículo.
Eu já tinha visto muita gente viva que estava cansada demais pra sequer falar qualquer coisa, enquanto tinha muitos fantasmas que pareciam grandes festeiros na pós vida, o que era irônico, já que esses fantasmas só estavam aqui embaixo porque tinham assuntos mal resolvidos, que os prendiam na terra.
E no meio de tudo isso, eu já dancei com fantasmas que só eu podia ver, ri de piadas que um fantasminha sussurrou em meu ouvido, e até gritei alto quando outro fantasma me contava um segredo de um outro nobre super sinistro.
Cada uma dessas coisas me fazia sentir muito feliz, feliz de forma que ninguém vivo podia fazer, a ponto de que a felicidade engolia por completo a vergonha que eu sentia, minha mãe sempre me dizia que eu não era amaldiçoado, e que eu não precisava sentir vergonha do que eu tinha, algo que ela não precisou fazer muito pra me convencer
E, apesar dos papéis de bobo que minha Singularidade me dava às vezes, eu já tinha passado tanto do ponto de me importar com o que as pessoas pensavam de mim que eu quase nem sentia mais quando alguém tava me zoando.
Porque muitas vezes, eles tentavam me insultar fazendo zoeiras com a minha condição, e me chamando de louco, mas em algum momento, eu só senti que, não valia a pena falar com gente assim, era desperdício de energia, e eu precisava dela mais pra cuidar da minha condição do que outra coisa.
Apesar de eu ter orgulho do que eu consegui com a minha Singularidade, eu ainda passei por muitos problemas com ela.
Pra começar, as vozes dos fantasmas a noite que nunca paravam, e me faziam ter insônia às vezes, também tinham os fantasmas que faziam piadinhas comigo muitas vezes, e também o fantasmas monstruosos que eu via fazendo coisas sinistras com as pessoas e os outros não percebendo nada…
Além de mais de 1 milhão de problemas que a minha Singularidade causava, se eu realmente quisesse viver com essa Igualdade, não podia desperdiçar minha energia lidando com idiotas.
E, ironicamente, depois de eu chegar num momento bem ruim, onde minha Singularidade pareceu piorar muito, do mais completo nada. Fazendo com que eu abandonasse a ideia de “propósito” da minha Singularidade, e só comecei a viver minha vida de forma normal.
E de forma surpreendente, abandonar esse meu pensamento de “propósito através da Singularidade” meus dias mais fáceis, mesmo naqueles dias onde minha Singularidade me fazia considerar se eu devia perder a cabeça de vez, mas pro alívio do meu povo, eu apenas considerava.
E no meio desses meus pensamentos, em meus 14 anos, acabei recebendo uma prova que meus pais me inscreveram, eles não me deram detalhes de pra que o teste servia, só avisaram que seria bem importante, então eu, na minha maior inocência, o fiz com bastante atenção.
O teste era bem denso, ele tinha 20 questões, de matemática, geografia, história, física e filosofia. As de filosofia eram as mais estranhas, por que eu conseguia ver como aquelas perguntas não pareciam ter uma resposta fixa, parecia bem mais que as perguntas eram um teste de caráter, por exemplo, uma delas era.
“Todas as pessoas deveriam ser tratadas de forma igual?”
Aquela pergunta, por mais simples que parecesse, eu conseguia entender muito bem a profundidade por trás de cada palavra, então, respondi, e a cada palavra que eu colocava, eu sentia que meu coração estava escrevendo no lugar do meu cérebro.
(escrita=[ ])
Hades: [não, as pessoas não podem ser tratadas de forma igual, pois existem pessoas com corpos, mentes, histórias, futuros, deficiências, vantagens, desvantagens, e milhares de outras coisas completamente diferentes. Se todos fossem tratados de forma igual, as pessoas que não conseguem fazer o que muitos conseguem seriam excluídos antes mesmo de tentarem de verdade]
Hades: [as pessoas precisam ter suas diferenças respeitadas, de uma forma que, ao mesmo tempo que elas consigam ter chances iguais contra aqueles que tem vantagem sobre elas, que as pessoas possam também usar suas diferenças pra melhorar o mundo em que vivem]
Hades: [o que as pessoas precisam não é de tratamento igual, mas de respeito, as pessoas precisam se dedicar mais a entender uma a outra, com esses simples atos, milhares de problemas podem ser resolvidos].
E já tinha ouvido muitas histórias dos meus colegas fantasmas sobre como eles morreram por falharem em se encaixar, depois de serem tratados igual a todo mundo.
E olha só, que grande surpresa, por eles serem tratados igual a todo mundo, quando eles estavam sofrendo, todos pensavam que eles tavam querendo chamar atenção, e só perceberam que aquilo não era uma cena quando era tarde demais.
O resto da prova nem foi problema pra mim, porque, além dos fantasmas, o conhecimento sempre foi meu amigo, pois quando não se saia muito de casa e você não tem muitos parentes próximos, os livros acabam se tornando meus amigos, e eu tratava perfeitamente bem meus amigos.
Quando entreguei aquele teste estranho pros meus pais, eu vi no sorriso deles, que eles já estavam esperando que eu passasse, mesmo que eu não tivesse certeza sobre o que eu estava passando.
E não ironicamente, não importava pra onde esse teste me levaria, ele era difícil o suficiente para eu ter certeza que o prêmio, cargo ou título que eu ganhasse com ele, faria com que todo o meu reino ficasse maior, e quanto mais eu pensei nisso, mas eu acabei ficando curioso sobre, pra que o teste era.
Hades: não ligo de vocês não me contarem os detalhes agora, mas podem pelo menos me explicar pra que esse teste serve?
Pai: hehehe, é surpresa
Hades: qual é papai, me conta, se sabe que eu vou descobrir alguma hora
Mãe: Hades, se você descobrir isso por conta própria, então seu coração vai sair pela boca de tanto pânico que você vai sentir
Hades: nossa, é tão sério assim?
Pai: pois, é, sei que você tem andado bem triste desde que a Perséfone se foi.
Ah não, por que eles falaram isso? Quando eles falaram aquilo, meu coração começou a doer, e ficou muito, mas muito pesado, ah, a Perséfone era talvez a mulher mais linda que eu já conheci, a mais inteligente e a mis corajosa também.
Ela tinha apenas um erro, ela tinha a mesma condição que a minha, com a diferença que em um dos check ups dela, a Perséfone acabou passando por uma rejeição extrema do núcleo, e acabou morrendo antes que qualquer um pudesse socorrê-la…
Ainda era difícil pra mim aceitar que a Perséfone se foi, agente tinha se conhecido em uma das consultas regulares que eu precisava fazer para que o núcleo do meu peito não começasse a me rejeitar, porque mesmo depois de muito tempo, isso era uma possibilidade.
Aquela garota apareceu na minha vida no meu pior momento, me fez aprender coisas que eu nem podia imaginar pelo quão pessimista eu estava naquela época, e me ajudou a encontrar um sentido em lutar pela minha vida. Não era uma vida ideal, mas era a minha vida, e a única que eu tinha.
A Perséfone foi como um anjo que me tirou do poço de pessimismo que eu estava, e com um verdadeiro anjo, assim que o “trabalho” dela foi feito, ela partiu, deixando apenas eu, tentando manter meu coração inteiro, mesmo que ela não estivesse aqui.
Por que, pelo que parece, a garota não tinha um único assunto mal resolvido em terra, ela partiu direto pro paraíso assim que morreu, e até hoje, eu interpretava isso com ela pensando que, no fim de tudo, eu conseguiria continuar, mesmo que sem ela…e considerando como aquela garota realmente me mudou, eu continuava, apenas pra não deixá-la na mão.
Hades: o que tem ela?
Pai: estamos preocupados com você filho, você tem andado muito triste, não tem falado com nenhuma garota, e estávamos pensando em arranjar uma pretendente pra você.
Bom, eu meio que sabia como essas coisas funcionam, então não estava irritado com meus pais, estava apenas cansado porque se eles me fizeram lembrar de tudo isso APENAS pra falar que iam fazer um casamento arranjado pra mim, eles me deixam exausto por motivo nenhum.
Hades: haaaaa, ta, faz o que vocês quiserem
Pai: certeza filho?
Hades: contanto que vocês não me casem com uma velha que tem idade pra ser minha bisavó, eu não ligo.
Depois do que eles fizeram eu lembrar, não tava mais no clima pra conversar com ninguém, então, quando eu me afastei um pouco mais dos meus pais, eu vi meus amigos fantasmas chegando.
Pelos corredores, normalmente eles atravessavam pinturas, ou apenas apareciam debaixo dos tapetes, e todas as vezes eles riam e me cumprimentavam, já que eu já tinha feito amizade com a maioria deles a essa altura, claro que alguns deles faziam pegadinhas, mas eles sempre conseguiam alegrar em 100% o clima de qualquer lugar.
A minha Singularidade não deixava que os fantasmas me tocassem, mas depois de procurar o suficiente nos lugares certos, descobri uma forma de fazer com que eu os tocasse, e depois de passar por um grande corredor de “toca aqui”, fui pro meu quarto e olhei um pouquinho pras relíquias que eu tinha em meu quarto.
A maioria delas eram coisa simples, uma pena de um fantasma que dedicou sua vida a traduzir o máximo de livros possível; o cachecol de um garotinho que foi enterrado pela lama em uma tempestade, mas que queria que seu corpo fosse entregue a família antes de conseguir descansar em paz; a espada quebrada de um guerreiro lendário, cujo único desejo, era poder cortar uma árvore, como um cidadão comum. E essas eram apenas algumas das milhares de relíquias que eu guardava no meu baú.
E com um pouquinho de nostalgia, eu peguei uma das relíquias, mais precisamente, uma gravatinha borboleta, essa gravata me dava boas lembranças, esse foi um dos primeiros fantasmas que eu ajudei, e foi meio que sem querer.
Eu me lembrava perfeitamente bem como, quando eu tava e um bailinho de aniversário, um fantasminha me chamou pra um canto.
E quando fui até o fantasminha, ele me mostrou que tinha uma gravatinha borboleta vermelha em um dos arbustos, uma gravata que, segundo o fantasminha, era dele.
O pedido do fantasma era simples, ele só queria que eu usasse ela no banquete que eu tava participando, e como um garotinho de 6 anos sem nenhuma malícia do mundo, fiz o que o fantasminha pediu.
A maioria dos adultos gostou da gravatinha vermelha, mesmo que ela parecesse grande demais pra mim, pensando que eu só peguei ela pra ser um homenzinho, e sempre que eu olhava pra janela, eu via o fantasminha e olhando.
E quando a festa acabou, vi que o fantasma sumiu, porque eu tinha feito o último desejo dele, que era demonstrar sua gravata em um último baile.
Apesar do quão inesperado foi aquilo na primeira vez que rolou, aquele foi o primeiro sinal pra mim que minha Singularidade não era só um fardo, e com aquela gravatinha vermelha, eu pretendia nunca esquecer disso.
Além de que, aquela gravatinha tinha um efeito especial, ela me deixava um pouquinho mais chique sempre que eu a usava, cada relíquia que já pertenceu a um fantasma, tinha um defeitozinho legal, se cuidado da forma certa, e mesmo que eles não se comparassem aos efeitos de relíquias criadas por humanos, ainda davam efeitozinhos legais.
E enquanto pensava naquelas coisas, eu pensei em usar aquela gravatinha no primeiro encontro com minha pretendente.
Não pra tentar parecer chique, mas porque no fim, essa gravata representava muito bem quem eu era, e quem eu ainda seria, um rei gentil com os amigos e implacável com seus inimigos, mas que ainda está disposto a ajudar tanto os vivos quanto os mortos, sem exceções.
E apenas imaginando como minha pretendente poderia ser, eu bocejei, e deixando a gravatinha bem perto no meu coração, deixei o sono vir, deixando que minha futura pretendente aparecesse em meus sonhos

