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A Luz do Seu Amor
😡🙄😮‍💨me desculpa?😮‍💨🙄😡
4221 palavras • 23428 caracteres • ⏱ 16 min 53 s

😡🙄😮‍💨me desculpa?😮‍💨🙄😡

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Eu realmente esperava que o Sir Hades conseguisse se adaptar melhor a lidar com os Singulares do nível 3 bem rápido, porque eu preciso de ajuda já que tenho muitos anos lidando com eles.



Eu tive sorte em duas coisas quando o assunto era cuidar dos Singulares no Porão, eu tive tempo de construir minha própria cabeça antes de construir a cabeça dos outros, com meus pais fazendo o possível pra lidar com os casos mais sérios enquanto eu apenas focada nas minhas próprias coisas, sem que precisassem de mim pra fazer isso.


E quando a minha vez chegou, eu comecei a cuidar de cada caso bem devagar, lentamente indo de um caso por dia, até chegar a 15 casos, isso até finalmente chegar na façanha de 30 casos por dia.


Eu me orgulhava muito disso, mas eu já tinha passado do limite de conseguir aguentar isso a muito tempo atrás, eu tinha muitos Psichomantes especializados que me ajudavam a lidar com os pacientes no Porão, mas como sempre, como aquela com o melhor conhecimento no castelo, eu tinha o árduo trabalho de cuidar dos casos mais graves.


O único que conseguia trabalhar com os casos mais graves, junto comigo, era o Filo-arcano atual, o Sir Guilherme, nós quase nunca nos falávamos, porque, além de sermos cheios de compromissos, quase sempre estamos desencontrados em questão dos ditos, compromissos, porque de manhã, ele cuidava de cada um dos meus compromissos, sempre que eu tava muito preocupada ou ocupada com algo mais importante.


E de tarde, ele se trancava em sua torre particular e mergulhava em estudos, pra conseguir fazer obras cada vez melhores pra todos na frente deles. Mas mesmo comigo nunca o vendo, eu sabia muito bem o quão essencial o trabalho dele era, então eu não falava nada e nem tentava o atrapalhar nessas horas.


Mas mesmo assim, dois magos ainda não eram o suficiente pra cuidar de todos os Singulares do Porão sem que alguém acabasse ficando com mais Pacientes, por isso queria que o meu Rei conseguisse cuidar de pelo menos um Singular, antes de eu levá-lo para a biblioteca particular do papai de novo.


Mas hoje não era o dia para eu pensar nessa coisa, nananananão, hoje era o dia em que a Lady Lorenza iria sair da casa de recuperação, e mesmo que nós não fôssemos parentes de sangue, eu me sentia tão incluída nessa conquista dela que eu precisava vê-la saindo da asa de recuperação, era o mínimo que eu podia fazer por ela.


E pra variar um pouco, eu levei meus pesinhos pra lá comigo, pois queria que a intimidade com a Lady Lorenza fosse algo mais intimo que o que a Lady Bruna poderia presentear.


Ir até a casa de recuperação da Lorenza foi fácil, o problema foi ter que esperar que a família dela chegasse, pois pelo jeito, eu cheguei muito mais cedo que a família dela.


Então, pra passar o tempo, eu mandei meus cãezinhos me levarem até um banco que tinha perto dali, e fiquei sentada lá,pelo que pareceu décadas, de tão empolgada que eu tava de ver a Lorenza de novo, e de forma irônica, eu tava tão empolgada que eu não percebi a Lorenza chegando e se sentando do meu lado até que ela decidiu falar comigo.


Lorenza: oi Isa


Isabeli: não fale meu nome de forma casual assim, as pessoas vão acabar se amontoando em mim, não estou aqui como Rainha, estou aqui como a Bianca: a sua amiga e Psicomante. Porque eu queria ver você saindo hoje, e nada de piadas de cego ein


Lorenza: nada de piadas? Ah, que pena, eu já tava com uma na ponta da língua


Isabeli: é, eu posso imaginar isso.


Nós duas ficamos quietinhas depois que eu falei isso, porque a Lady Lorenza e eu já tínhamos passado de um ponto da amizade onde agente não via necessidade de falar nada, podíamos ficar quietinhos assim numa boa, e não ia ter nenhum desconforto em nenhuma de nós duas.


Tanto que, as próximas frases que eu disse, foi só de indignação, não de necessidade de falar algo.


Isabeli: nossa, eles estão demorando

Lorenza: pontualidade nunca foi o forte deles, daqui a pouco eles...


???: Lorenza?


Eu não sabia de quem era aquela voz, mas pela reação da Lorenza, com certeza era a Gabriela, porque a Lorenza se levantou na mesma hora, expirou e inspirou por alguns segundos, como se não pudesse acreditar que aquele momento havia chegado, e correu na direção dela, de forma desenfreada.


O som que eu ouvi com a Lorenza correndo até a parceira dela, me lembrou bastante da forma que eu corri depoi de ficar um tempo longe do meu Rei pela primeira vez, mas pelo barulho que a Lorenza fez, já podia imaginar que a saudade dela era bem melhor que a minha saudade do meu rei naquele dia em específico.


Depois daquilo, eu já estava esperando que as duas me tratassem da mesma forma que eu parecia pra todos a minha volta, um ser totalmente invisível.


E pelo jeito, eu nao tava errada nisso também, as duas pombinhas apaixonadas, primeiro se beijaram, conversaram com bobagens, coisas sérias, e milhares de coisas que, mesmo sendo Psicomante dela, eu não devia estar ouvindo, pelo menos não de forma tão casual assim, então, chamando meus cãezinhos, eu já me preparei pra dar o fora dali, isso, pelo menos, até que eu senti um toquezinho beeeem cuidadoso no meu ombro, que me fez virar com cala, reconhecendo aquele toque na mesma hora.


Quando me virei, eu ouvi a Lorenza me pedindo um aperto de mão, algo que eu cumpri sem nenhum problema, e então, ela falou.


Lorenza: foi uma experiência maravilhosa conhecê-la Lady Bia, espero que gente possa se reencontrar em melhores ocasiões

sabeli: eu concordo Lady Lorenza, se cuida, tá bom?



I

Lorenza: ah, eu vou Lady Bia, eu posso te garantir que eu vou me cuidar muito bem a partir de agora.


E depois de ouvir aquilo, eu dei um último abraço na Lorenza, e então ela foi embora, deixando só eu um coração cheio de felicidade dela ter conseguido, e um profundo desejo de "eu podia ter feito mais" incrustado no meu peito. Mas eu logo acalmei esse desejo do meu coração, já que no fim, cenas como essa não eram nem um pouco incomuns pra mim.


Depois de lá, eu visitei várias outras casas e recuperação, e apesar das Singularidades, motivos delas ficarem assim, e principalmente, o que foi mostrado pra cada paciente sair de lá, fossem completamente diferentes. Uma coisa sempre estava presente, a alegria na voz de cada um que já tinha entrado e depois saindo da casa de recuperação.


Muitos Singulares estavam ali na segunda, terceira e até quarta vez, mas tava tudo bem, tinha gente que não podia ficar melhor apenas ficando lá uma vez, mas quando o assunto era saúde mental, valia a pena entrar e sair da casa de recuperação quantas vezes fosse necessário.


Muitos Singulares gostavam de referir as casas de recuperação como ninhos, onde os passarinhos da asa quebrada iam pra se curarem e depois voarem.


Muitos pássaros ficavam mais que o necessário, e muitos ficavam com medo de voltar ao mundo real e abandonar o ninho, mas com o passar do tempo, cada um deles apenas aprendeu que, uma hora ou outra, teriam que tentar voar de novo, e com o descanso que tiveram no ninho, o voo deles seria a coisa mais bela de todo o mundo.


Mas junto de toda essa felicidade, tinha algo que sempre me deixava meio triste de acontecer, depois da casa de recuperação, eu quase nunca via meus queridos Pacientes de novo, não porque eu me afastava, porque, apesar do quão bem eu ajudei eles a se encontrarem e voltarem ao mundo real, eles sabiam que eu era apenas uma parte da vida deles, tinha muito mais coisa pela frente.


E principalmente, que ainda tinha muitas coisas pra se viver, coisas que eu os ensinei que eles podiam aproveitar, coisas que eles podiam fazer quando não estivesse tão perto de mim e pudessem pensar por conta própria, então eles quase sempre se afastava de mim, pra conseguirem viver aquilo que eu não podia dar a eles.


Mas ainda tinham aqueles que, mesmo depois de melhorarem, ainda mantinham contato comigo, como a Lady Lorenza.

Em uma das minhas grandes expedições, enquanto eu estava cuidando de outros assuntos, dessa vez com o pessoal do Continente da Aura, eu acabei recebendo uma carta em braile dela, para que eu pudesse encontrá-la em um lugar específico do Reino, e pelo grau de medo, raiva e ansiedade nas palavras da carta. Eu sabia que a coisa era séria, então eu logo me aprontei, e fui para onde a Lady Lorenza queria que eu fosse.


E quando eu cheguei onde a Lady Lorenza estava, o silêncio ao redor dela estava mais carregado de coisas que podiam contar mais histórias do que qualquer palavra.

A cada dia que se passava, mais certeza eu tinha que, de tudo nesse mundo, a Magia continuava sendo a única coisa que não mentia em todo o planeta.


E pelo jeito, eu fiz bem em levar meus cães comigo, pois assim que viram ela, na mesma hora entenderam que a Lady Lorenza precisava de ajuda, e logo começaram a fazer turnos, pra um deles ganir um pouco e se aproximar devagar dela e deixá-la fazer carinho neles enquanto o outro continuava me protegendo.


Lorenza: hehehe, seus cães me entendem


Isabeli: animais, em geral, sentem mais coisas que as pessoas dão crédito...e aí, o que houve?


Lorenza: a minha mãe tá morrendo.

Os meus olhos inúteis arregalaram quando ela falou aquilo, ela já tinha falado da mãe nas seções dela comigo o suficiente pra eu saber o quão pesadas essas palavras eram pra ela.


A Lorena já teve um grande arco de desenvolvimento, onde ela foi dita muitas vezes por outras pessoas que ela devia perdoar a própria mãe, que ela era a mãe dela, que ela devia perdoá-la e que ficar com raia da mae dela nao valia a pena e que ela devia perdoá-la.


Mas eu tive seções o suficiente com ela pra ela já saber o quanto de besteira cada uma dessas cotas era, então eu não respondi a afirmação dela de cara, apenas tentei ouvir com cuidado os sons de reação que a Lorenza tava fazendo agora.


Respiração irregular, ela tava com raiva, mais raiva do que qualquer outra emoção, e, eu já presumia porque ela pediu que eu viesse com ela para ver a própria mãe, mas eu ainda queria ter certeza que não estava me enganando.


Isabeli: sabem a causa?


Lorenza: nada demais, é apenas a consequência de alguém beber por mais de 50 anos, não parando nem quando a filha tava por perto.


Ah, eu lembro daquilo das nossas sessões, a mãe da Lorenza nunca foi uma bêbada violenta, mas ela era daquelas bebidas que precisavam que a filha fosse buscá-la no bar se quisesse ver a mãe segura, o que, mesmo não sendo o pior cenário, não era o melhor cenário pra uma criança crescer.


A Lorenza não teve uma infância fácil, quando penso nisso, acho bem sinistro o quanto ela demorou pra ter a Sirene manifestada dentro dela.


Isabeli: e você vai falar com ela?


Lorenza: sim, mas eu quero que você venha comigo...porque, eu vou falar coisas pra ela, coisas que eu sei que não posso falar com ninguém além de você do meu lado.


Ai ai, eu ja tava imaginando o que iria sair disso, eu e ela ja tinhamos feito aquele papo vezes demais pra eu não saber o que iria acontecer, e como a Psicomante/amiga dela, tudo que eu podia fazer era apoiá-la.

Isabeli: você tem certeza disso?


Lorenza: sim, eu nunca tive tanta certeza de uma coisa na minha vida quanto isso

Isabeli: eu só queria ter certeza...já que é o que você quer Lorenza, eu não tenho outra escolha além de te ajudar


Lorenza: hmhmhm, sabia que tava fazendo a coisa certa te chamando, agora vamos.


E com a Lorenza já bem animada, nós andamos com muito cuidado até o centro Curandeiro aonde a mãe dela estava internada. Chegar ao quarto certo ficou fácil quando a Lorenza falou que era a filha dela, passar pelos corredores, chegar na sala, tudo foi fácil fácil.


E quando chegamos na sala, mesmo cega, eu quase conseguia ouvir o silêncio, o lugar todo tava carregado por tantos sentimentos reprimidos, mas tantos sentimentos reprimidos, que eu podia cortar a tensão daquela sala com uma faca.


E com o silêncio carregado de intenções assassinas que as duas exalavam, senti que devia deixar minha mão perto do meu colar, o segundo, aquele que se tornava meu cajado de batalha com um pouco de magia, só pro caso de uma batalha acabar começando aqui, porque do jeito que as coisas estavam, não era uma doideira muito grande pensar desse jeito.


E depois de um silêncio que durou o suficiente pra cirurgias começarem a se encerrarem, a Lorenza falou primeiro.


Lorenza: oi mãe


Mãe: oi filha.


E novamente, silêncio, as duas tinham muita história, muitas traições, muitas confianças quebradas, muitos desentendimentos, muitas palavras de ódio e muita, mas muitas outras coisas que as impedia de falar muito. Principalmente pelo debate de ódio absoluto que as duas tiveram na última discussão longa delas, uma discussão que foi a 10 anos atrás.

E o silêncio continuou até que a Lorenza falou de novo.


Lorenza: sabe mãe, sei que não mudei muito, mas diferente de mim, você ficou feia pra car...ramba, feia pra caramba.

Nada de respostas, nossa, ela realmente mudou, pois pelo que eu sabia nos meus encontros com ela, se tinha algo que a mãe da Lorenza era especialista, era que ela amava responder, não importa o quão poucas chances ela tinha de revidar.


Lorenza: o mundo realmente é algo engraçado, não é? Nós não tínhamos muita coisa, nós éramos apenas um grupinho de camponeses que trabalhavam mantendo as ruas da cidade limpas, e mesmo assim, você me expulsou de casa só por eu admitir a você que eu amava a Gabriela, de toda a nossa família, eu confiei em você mais do que qualquer um, e você destruiu essa confiança, a ponto que eu não confiei em ninguém, por muito tempo.


A voz da Lorenza tava carregada de tristeza quando ela falou aquilo, e novamente, o silêncio se estendeu, a ponto de que eu queria que uma luta acontecesse, apenas para que o silencio parasse.


Lorenza: eu passei por muitas coisas, mas pelo menos eu consegui encontrar um lugar pra descansar minha cabeça, e agora, olha você, divorciada, sem ninguém ao seu lado, com ninguém da nossa família pra ficar aqui nos seus dias finais, e com um corpo com tantas doenças que a morte não passa de um alívio pra você. Se existe algo como punição divina, como muitos dos que eu conheci amam dizer, isso pode ser refletido em você, mamãe.


O "mamãe" dela estava mais carregado de hostilidade do que qualquer xingamento poderia carregar. E mais uma vez, silêncio, um silêncio que pesava tanto quanto halteres de treinamento de fisiculturistas, vai, comecem a brigar, briguem, briguem, só façam algo além desses silêncios imprevisíveis perto de mim, por favor.


Mae: filha...olha, desculpa, por, te expulsar de casa, eu, sinto muito mesmo


Lorenza: ok, eu não perdoo você.


Essa foi a resposta mais rápida que a Lorenza deu em todo o encontro delas, mas ela foi seguida de um silêncio tão grande, que pareceu até que o mundo tinha parado, até que a mãe da Lorenza falou.


Mãe: mas eu disse que sinto muito


Lorenza: é, eu ouvi, e eu disse que não perdoo você.


E novamente, mas pra variar, o silêncio agora não carregava incerteza e imprevisibilidade, mas sim a hostilidade da Lorenza, enquanto a mãe dela estava irradiando um medo tão absurdo que até uma cega como eu conseguia sentir o quanto ela tava recuando e se encolhendo na cama como um animal encurralado.


Eu quase podia sentir como o ódio da Lorenza estava enfraquecendo ainda mais a saúde da mãe dela, e eu podia ser uma sádica completa por falar isso, mas era muito lindo isso acontecer.


Mãe: porque você não pode me perdoar?


Lorenza: o fato de você estar falando isso já é a sua resposta. Me fala a verdade mãe, porque você está se desculpando?


E agora, o silêncio carregava culpa, uma culpa bem grande e vindo direto da mãe dela, mas não era apenas isso que a Lorenza queria ver, pelo que parece.


Lorenza: não vai responder? Então deixa que eu tento adivinhar, você não tá se desculpando pra mim porque sente muito, você tá se desculpando porque você tá morrendo, e de repente, você percebeu que eu sou sua filha, e não importa se eu sou "uma aberração", segundo as suas palavras. Eu ainda sou sua filha, e no fim de tudo você realmente me ama, e que voce não aguenta ir pro outro lado com o fato de que você morreu comigo te odiando


Mãe: filha, eu...


Lorenza: mas deixa eu te contar um segredinho, mamãe JÁ É TARDE...(respira fundo) 40 anos de atraso mamãe, você teve 40 anos pra me buscar, me acolher e se desculpar comigo, 5 anos comigo vivendo em abrigos, 15 anos comigo vivendo em casinhas pequenas com o pouco dinheiro que eu conseguia e 20 anos comigo vivendo em uma casa decente graças ao mestre Mamuhorn...


A Lady Lorenza ficou alguns segundos sem falar nada, com o silêncio de todo o lugar ganhando o clima de dor e tristeza, com a Lorenza se lembrando do que ela passou naquela época em que a mãe tinha que protegê-la, mas ela não fez isso.


E por mais assustadora que ela pudesse estar agora, eu tinha muito orgulho dela pelo que ela tava fazendo.


Lorenza: você teve muito mais que tempo pra fazer as pazes comigo, mas você não fez isso mamãe, e sabe porque? Porque você não se arrepende do que voce fez, voce só acha que eu tô amolecida por você estar morrendo, e que eu vou te perdoar por toda as me...(respira fundo e solta) melecas que você me deixou passar só porque você tem poucos dias de vida sobrando.


O silêncio que veio depois disso veio bem vazio, o que era bem preocupante, pois fazia parecer que a Lorenza tava se preparando pra alguma coisa, e ela estava, Lorenza bateu na parte de ferro da cama da mae dela, fazendo um barulho bem alto, que assustou eu e ela, e ate fez meus cães latirem um pouco, e quando todo mundo tava agitado e assustado, ela e continuou.


Lorenza: então, adivinha mãe, eu só vim aqui pra te dizer que, não, um simples "me desculpa" não vai anular toda a dor que eu passei por SUA CAUSA, nem todos os problemas mentais que eu to tentando resolver ainda por NEGLIGÊNCIA SUA. Não, esse "me desculpa" só me mostra o quão desprezível você é como pessoa, e eu quero que você morra amanhã, morra sabendo que eu nunca te perdoei, e nunca vou te perdoar...


Ai, aquilo não era pra mim, mas eu senti aquilo como espectadora, o meu peito foi acertado por uma flecha de tanta dor que eu senti, no sentido ruim, é claro. A mãe da Lorenza merecia, mas cara, deve ter doido muito ouvir isso da própria filha, e então, a Lorenza veio até mim, e falou.


Lorenza: eu xingaria você como um toque final, mas a minha Psicomante não gosta que eu fale palavrões, então...VAI DORMIR MÃE!


Hmhmhmhm, aquele xingamento que a Lady Dandara me ensinou era mesmo bem eficaz. Eu pude sentir o suspiro da mãe da Lorenza quando ela ouviu aquilo da filha, e então, nós saímos dali, e mesmo que eu e a Lady Lorenza não tivéssemos nos encontrado muito depois daquilo, algo em mim dava um pouco de alívio, sentindo que nao era necessário nós nos encontrarmos de novo, pelo menos por enquanto.


E além disso, ela ainda foi visitada pela Sirene, o lado reprimido das emoções da Lorenza que havia ganhado consciência própria. Ela só não me chamou porque, diferente da Lorenza, a Sirene nunca precisou de ajuda pra falar o que ela tava sentindo, e pelo que a Lorenza me disse, a Sirene também teve sua seção de esculacho com a Mãe dela.


E em menos de uma semana, depois do dano psicológico extremo que a mãe das duas recebeu naquele dia foi muito alto pra saúde frágil dela aguentar. E em mais um dia qualquer, onde a Lady Lorenza estava perto de mim de novo, por mais uma coincidência mesmo, ela me contou isso.

Lorenza: minha mãe morreu

Isabeli: é, eu fiquei sabendo.


E depois de eu falar isso, eu senti um silêncio estranho no ar, já tava sentindo que a Lorenza queria me perguntar alguma coisa, só não sabia dizer da forma certa.


Lorenza: Bea, você acha que eu sou uma pessoa ruim por não ter perdoado minha mãe?


Isabeli: claro que não Lorenza...apenas você tinha a decisão de perdoá-la ou não, se ela merece seu perdão ou não. E como você deixou bem claro no dia que você falou com ela, não, ela não merecia perdão

Lorenza: existem pessoas que passaram por coisa pior, e ainda perdoam quem fez mau a elas


Isabeli: Isso porque essas pessoas estão com problemas. Muitas mídias sempre tentam convencer que perdoar é apenas o certo a fazer, mas tem vezes que "perdoar" é a única coisa que você não pode fazer. Pois perdoar as vezes significa desvalorizar todo o seu sofrimento, todas as sequelas que você ganhou, e todos os danos mentais que você recebeu ao longo do caminho, como a sua mãe queria que você fizesse.


Eu senti que a minha raiva e a minha indignação com séries assim tava saindo bem mais que o que eu queria nas minhas palavras, mas a essa altura, eu não me importava mais, eu abri a caixa de pandora do meu coração, e eu não conseguia mais fechá-la.


Isabeli: A gente não vive em um reality show ou um filme fofinho onde todo mundo pode ser perdoado no final. Aqui e o mundo real Lorenza, e as ações das pessoas tem consequências, e às vezes, essas consequências são uma morte sem perdão


A Lady Lorenza ficou em silêncio por algum tempo, mas fiquei aliviada em sentir que aquele silêncio estava carregado de alívio.



Lorenza: nossa, que alívio, eu queria te perguntar se, na sua opinião, eu deveria ter perdoado minha mãe ou não. Mas acho que o que você me disse já vale como uma resposta pra esse pergunta


Isabeli: (sorri) nesse caso, me deixa "responder" voce mais um pouquinho (tosse) pra muitas pessoas, sentir raiva de alguém que te machucou é errado, e que deixar largar é a única solução. Mas essa é a pegadinha, a raiva e a vingança é apenas ruim quando ela é tudo que resta em você.

Parei de falar um pouco, só pra garantir que ela tava me acompanhando, e quando eu tive certeza disso, continuei.


Isabeli: quando você não pensa em ser feliz, apenas em se vingar, então o ódio perdeu o foco, a raiva serve como um lembrete de que, o que a pessoa fez não pode ser perdoado, que o que você passou importou, e que um simples pedido de desculpas não pode fazer todos os traumas que você passou desaparecer, assim como voce mesma disse a sua mãe naquela hora.

E depois de mais um pouquinho de silêncio, que estava se enchendo com uma felicidade crescente, a Lady Lorenza riu um pouquinho, enquanto falava.


Lorenza: realmente escolheram bem em me dar você como Psicomante

Isabeli: fazer o que? É o Paciente que escolhe o Psicomante, não o contrário, você me escolheu porque estamos na mesma página, e eu agradeço por isso todo o dia que estamos juntas


Lorenza: eu também Isa, eu também


Isabeli: Lorenza, o qe eu falei pra voce?


Lorenza: ah, e mesmo, desculpa, Bea


Isabeli: tranquilo, tranquilo.


Ocasiões assim, eram ironicamente bem comuns pra mim, onde minha vida pessoal parecia se misturar um pouquinho com meu trabalho, e eu ajudava meus Pacientes a encerrarem por completo traumas antigos, fazendo a versões antigas deles, versões que eles eram quando estavam na casa de recuperação, fossem resolvidas e postas pra dormir, ou pelo menos acalmadas o bastante pra eles continuarem se melhorando com o passar do tempo.


Às vezes era um serviço fácil, onde eu apenas precisava de um dia a mais com eles e os ajudando a se adaptar no "mundo real" como eles amavam se referir.


E às vezes era algo que precisava de um cuidado e um carinho muito especial, que precisava de algumas semanas e às vezes até meses para conseguir ajustá-los, algo que eu sempre gostava de dar aos meus pacientes.


E depois de vários dias, comigo ajudando mais uma nova leva de pacientes a encerrarem por completo a própria história de traumas e começarem a escrever uma nova, eu voltei pra casa, mais do que prota pra ver como meu Rei estava depois de ter um gostinho do que eu passava todo o fim de semana semana.

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