Eu agradecia muito ao meu Rei por ter dado essa oportunidade de continuarmos tendo dias tranquilos, antes da primeira tentativa dele do Donum Regis e da visita ao Porão.
Eu não tinha nenhum problema com ele lendo o Donum Regis, eu tinha a absoluta certeza que um Homem como o Sir Hades conseguia facilmente ler o Donum Regis sem receber sequelas disso.
O problema mesmo eram os Singulares de nível 3 que ele iria ver daqui a duas semanas. Porque tinha um motivo bem específico pra aqueles Singulares estarem no Porão e não em outra casa de recuperação, porque eles carregavam dores que um Psicomante normal não podia cuidar.
Eu tinha certeza que meu Rei podia lidar com isso, mas eu sabia muito bem que, presenciar uma dose tão massiva de maldade que esse mundo carregava sempre era algo muito difícil, principalmente quando se fazia isso pela primeira vez.
Sabia que apenas ignorar isso e não tentar entender o que eu tava sentindo não iria prestar, então eu fui me encontrar com a mulher mais inteligente (fora da minha família) que eu conhecia.
Claro, dessa vez, a Lady Bruna estava comigo, porque ela era amiga dela também.
Era um encontro simples que nós fazíamos sempre que uma de nós precisava pensar, e considerando o quão frequente isso era, nós já tínhamos tudo planejado.
Eu trouxe a lona, a Bruna trouxe os lanchinhos feitos pela cozinheira do castelo e a Dandara trouxe sucos de frutas caseiras.
Eu nunca vi a aparência dela, mas ela tinha uma voz doce, algo que pra uma cega era inacreditavelmente importante para nós sermos amigas.
Mas a Lady Bruna já descreveu ela vezes o bastante pra eu ter certeza de como ela era. Uma ruiva, de cabelos longos, sedosos e bem cuidados, com lábios grossos, olhos azuis e um sorriso lindo. Claro, tudo segundo a Lady Bruna.
Dandara: nossa, oi Isa, tem andado ocupada né? Seu marido tá te dando muito trabalho?
Isabeli: que nada, na verdade ele facilita meu trabalho
Dandara: aaaaah, bate aqui garota.
Eu dei um bate aqui nela, a Lady Dandara também era casada, ela era a esposa do Sir Antônio, e mesmo que eles não fossem muito ligados a política, eles eram um dos casais que eu mais me inspirava quando vinha em questão de romance e confiança, eles eram tão fofinhos juntos que eu tinha medo de ganhar a Singularidade do açúcar venenoso(diabetes) se visse eles por muito tempo.
Dandara: tenho sorte de ter um grande Príncipe do meu lado, ele realmente…salvou a minha vida…
Isabeli: só ele?
Dandara: ta bom, você também ajudou, mas vamos ser sinceras, sem o Sir Antonio, agente nunca teria se conhecido
Isabeli: é, pior que é mesmo…
A Lady Dandara veio de uma casa problemática, que não cuidava dela direito, a casa Galdino, eles tinham um nível de negligência bem alto, mesmo sendo uma casa de barões.
Tanto que, quando foi descoberto que as crianças da casa estavam sendo maltratadas, a casa Galdino acabou sendo desmantelada, os pais foram banidos do Reino e as crianças foram mandadas para casas de pessoas que realmente tratariam elas direito.
Tudo graças a Lady Dandara, e de uma mãe anônima que deu uma ligação para que a casa fosse investigada.
Depois daquilo, a Lady Dandara foi pra um lar diferente, passou um bom tempo na casa de recuperação pra tratar de certos problemas mentais por ficar tanto tempo com a família escrota dela.
E no meio desse processo, eu e ela nos encontramos, e considerando que nós duas éramos amantes ávidas de livros, nos viramos amigas bem rápido, mesmo quando ela não estava num estado mental muito bom.
A Lady Bruna nunca chegou a me explicar em detalhes como a Lady Dandara estava naquela época em que ela estava na casa de recuperação, e eu sempre encarei aquilo como um sinal do quanto ela estava péssima, porque quando a Lady Bruna não me explicava alguma coisa, normalmente significava que aquilo era sinistro demais pra ser descrito pra mim.
Mas pelo jeito aquele já é um passado distante, porque agora, a Lady Dandara estava incrivelmente saudável, e parecia mais do que disposta a ter todo o tipo de papo doido comigo.
Dandara: você não vai acreditar nisso, mas eu consegui a façanha de fazer uma vassoura de modelo speed que consegue ser mais rápida que um raio
Isabeli: NÃO ACREDITO, VOCÊ FEZ ISSO MESMO?!
Dandara: pois é, nem eu mesmo acreditei, mas não foi fácil, primeiro eu…
Isabeli: Dandara, se senta e pega algo pra beber primeiro, depois você começa a falar de sua façanha
Dandara: ah é, ah é, desculpa o entusiasmo.
Eu ouvi a Lady Dandara se sentando na lona e pegando um sanduíche, e logo depois voltando a falar da façanha dela com a carpintaria.
A Lady Dandara, além de uma grande genia quando o assunto era filosofia, ela também era uma carpinteira fantástica, tanto que.
Eu estava prestes a encomendar uma carruagem nova da loja dela, eu só tava fazendo um “jogo longo” primeiro, porque eu não podia deixar muito claro que eu tava indo lá por conhecer ela, tinha que ser natural, como se “A Rainha Isabel” não a conhecesse, mas soube que as criações dela eram de primeira qualidade.
E a cada explicação doida que a Lady Dandara dava, mais eu sabia que ela era extraordinária, eu conhecia muito carpinteiro que não conseguiria fazer metade do que ela descreveu.
Até que ela parou de falar pra pegar um pouco mais de fôlego, e principalmente beber um dos suquinhos que ela mesma trouxe, e depois ela deu um suspiro.
Eu sorri de forma boba enquanto eu olhei pra Lady Bruna, nós dois sabíamos o que ia rolar, e estávamos impressionados até que demorou tanto pra rolar.
Dandara: 30 anos, já se passaram 30 anos e o meu Príncipe ainda nao está satisfeito
Isabeli: essa bateu o recorde, ele ficou sem falar do Sir Antônio por 5 horas inteiras
Dandara: ah, foi mal meninas, mas quando você tem um Príncipe como o meu, fica difícil pensar em algo além dele
Isabeli: é sério Dan, com uma mente assim, você ganhou na loteria cósmica por ser o Sir Antônio que se tornou seu noivo
Dandara: não existe um dia que eu não tenha pensado a mesma coisa.
Ta ai outra coisa que me dava alívio todos os dias, a Lady Dandara, apesar de estar bem melhor, possuía um apego absurdo ao Sir Antônio, ele sempre tentava lembrar a ela que eles podiam ficar bem fazendo coisas separados, mas ficava meio difícil já que ele era tão doido por ela quanto ela era por ele.
Mas apesar da dependência bem grande dos dois, eu tinha que admitir, eles eram o casal mais lindo e saudável que eu já tive a honra de conhecer. Claro, sem contar os dos meus pais, mas o casamento dos meus pais era um casamento/compromisso político, então ele não contava.
E o motivo de eu achar que aquele casamento era um dos mais saudáveis de todo o reino era principalmente pelo que a Dandara estava prestes a falar.
isabeli: vai, fala, pra onde ele te levou dessa vez?
Dandara: nao sei porque, mas ele ta bem nostálgico esse ano e me levou pra um dos lugares mais incríveis que ele já me levou em todo o mundo, o grande festival de borboletas das fadas, onde dois casais seguram um ovinho de borboleta, e quando o festival começa, os sentimentos que fluem pra dentro do ovo e eles criam uma grande borboleta criada pelos nossos sentimentos
Bruna: ai ai, eu fico imaginando se algum dia vou ter alguém pra me levar pra esse lugar
Isabeli: com certeza você consegue, você só precisa tentar um pouco mais
Dandara: a nossa borboleta esse ano veio com um brilho diferente, mas que continuava bonita e cheia de alegria
Isabeli: hahaha, sério, tem vezes que eu escuto o que você diz e sinto que você saiu de um conto de fadas, a sua vida é mágica, ruiva
Dandara: ha, e você fala como se sua vida não fosse mágica, não é?
Bruna: vocês vivem no continente da magia, claro que a vida de vocês seria mágica, de uma forma ou de outra
Isabeli: eu tenho certeza que tem muitas donzelas do reino que não concordam tanto com você
Bruna: se são as mesmas donzelas que você sempre amá dizer que são burras demais pra entender a verdadeira magia do nosso reino, então a palavra delas não tem nenhum peso pra mim
Isabeli: hehe, eu te ensinei bem Bruna…acho que bem até demais
Dandara: eu não ligo dela ser assim, na verdade, eu gosto muito mais de te ouvir conversando do que aquela estátua de silêncio absoluto que você era quando saí da casa de recuperação
Bruna: bom, não tinha o que fazer, ainda era perigoso pra Lady Isabeli que eu relaxasse naquela época, e ela tinha muitos inimigos por toda a parte também
Dandara: e agora ela não tem mais?
Bruna: e agora ela tem menos inimigos, além de que eu estou bem mais forte
Dandara: jura? O quão mais forte?
Bruna: sabe aquela minha versão “estátua” que eu tinha quando agente se conheceu?
Dandara: sei
Bruna: se eu lutasse contra aquela versão minha agora, eu daria uma surra na minha antiga eu
Dandara: acredito em você.
E depois dessa grande bomba que a Lady Bruna acabou de mandar pra minha amiga, agente continuou falando sobre bobagens.
Dandara: eu e o Sir Antonio já alcançamos a faixa dos anos de gigante, mesmo com ele dizendo que queria que nós vivêssemos por muitos anos, quando eu paro pra pensar, ainda é doido pra me pensar que eu vou viver no minimo, do minimo, até os 450 anos agora. Me faz pensar as vezes que o nosso mundo não é grande o suficiente pra nós vivermos tanto tempo, mas sempre que eu penso que nós já passamos por todos os lugares do planeta, o Sir Antônio fala que nos vamo pra um lugar diferente, doido e incrível de novo, só pra provar que eu to errada
Isabeli: o mundo é vasto, até o mais velho dos elfos consegue descobrir algo novo se eles apenas forem pra um lugar um pouco mais distante
Dandara: hmhmhm, mundos diferentes, dimensiones paralelas, eventos que acontecem uma vez a cada 300 anos, terraformados atraves dos seculos que criam paisagens novas, templos de adorações, que apenas aqueles que conhecem bem o que cada templo deveria simbolizar realmente podem encontrá-los. O meu Príncipe está obcecado com tudo isso, sinto que ele vai virar poeira antes de completar o próprio sonho de explorar tudo que existe no mundo, mas acho que isso vai ser melhor, ele ficou tanto tempo só sonhando em viajar pra todos os lugares já descobertos pelos humanos, que não sei o que ele faria se ele conseguisse ir pra todos os lugares da terra
Isabeli: acho que ele só sentar, descansaria, e aceitaria que você e ele podem finalmente pensar em ter um filho, o que acha?
A Lady Dandara demorou um pouco pra responder, mas não por medo, foi bem o contrário na verdade, ela não falou nada exatamente porque ela desejou por muito tempo ter um filho, porque sempre falaram pra ela que era apenas para isso que ela servia.
Agora, ela entendia que ela não era apenas um filho ou um bebe que a fazia importar, ao mesmo tempo que ela ainda queria muito ter um filho, mesmo sem conseguir vê-la, eu conseguia imaginar bem até demais que ela pensava isso quando ela ficava quietinha assim.
Dandara: talvez, mas sinto que isso vai demorar muito pra rolar, ainda tem muito lugar doido pro meu Príncipe encontrar pelo mundo e sinto que, tendo tanto tempo extra assim, agora que eu sei que minha menopausa vai demorar bem mais tempo pra rolar, sinto que posso dedicar mais algum tempo pra ser só eu e ele, antes de ser “eu, ele e um menininho”
Bruna: ou menina
Dandara: ou menina, é, obrigado Bruna
Isabeli: vocês têm, se sabe, “tentado”?
Dandara: ah, agente “tenta” tanto como qualquer casal saudável, mas agente ta sempre protegido…mas se acontecer, aconteceu
Isabeli: conhecendo o Sir Antônio, tenho certeza não vai ver sem querer que vocês vão ter essa criança
Dandara: é, eu sei disso, por isso fico tranquila sobre nossas viagens, porque o nível de proteção que o meu Príncipe tem pra nós não termos um bebe sem querer é algo que deixaria muitos reis mundiais com inveja
Isabeli: haha, o bom Sir Antonio, surpresas nunca foram algo legal pra ele, então entendo ele não querer esse tipo de surpresa
Dandara: certeza? Ele ficou bem feliz quando eu apareci “de surpresa” na vida dele, e ele ama deixar isso bem claro pra mim sempre que está por perto
Isabeli: você sabe que é bem mais complicado do que isso, e não é apenas lance de ele só gostar de você ou não
Dandara: é, eu sei…eu sei.
Apesar da brincadeira, fiquei um pouco feliz em ver como a Lady Dandara ficou arrependida depois do que falou do Sir Antonio, a história dos dois era muito extensa e complicada para apenas explicá-la em simples palavras como “aparecer de surpresa” na vida de alguém.
E a própria Dandara entendia isso, então, pelo resto do nosso “encontro”, agente só ficou ali, deitadas em cima da lona na grama, comendo sanduíches e falando bobagens uma pra outra.
E enquanto eu tava ali com as minhas amigas, eu olhei pra cima por um minutinho, não podia ver o céu, mas eu conseguia sentir pela minha pele o quanto do calor da manhã estava diminuindo, e dando lugar ao calor mais morno da tarde. E no meio dos meus devaneios, acabei falando algo, não mais completo nada.
Isabeli: o que sera que meu Rei está fazendo?
As minhas amigas não responderam a isso, elas sabiam bem que eu tinha falado aquilo mais pra mim mesma do que pra elas responderem de fato. E diferente da ultima vez que eu senti alguma coisa, eu fiquei feliz quando senti isso pelo meu marido, e mais uma vez, esperava que ele estivesse se divertindo tanto quanto eu.

