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As Primeiras Crônicas Temporais – Variações
Capítulo 5 - Três Mochilas e Um Plano Ruim
2771 palavras • 17358 caracteres • ⏱ 11 min 05 s

Capítulo 5 - Três Mochilas e Um Plano Ruim

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O carro já cortava a\nrodovia com os faróis baixos varrendo o asfalto escuro. As árvores à margem\npassavam como vultos apressados, e o ronco suave do motor preenchia o interior\ndo Gol com uma tranquilidade disfarçada. Do lado de fora, o mundo parecia\nsuspenso no tempo. Do lado de dentro, Guilherme mantinha os olhos fixos na\nestrada à frente, mas falava com voz baixa, quase íntima.


— A casa é diferente\npor dentro. Bem cuidada, sabe? Cozinha arrumada, cheiro de produto de\nlimpeza... — disse, dando de ombros. — Eu achei que fosse encontrar... sei lá,\nentulho, coisa abandonada.


Paulo ouvia em silêncio, com uma\nmão no volante e a outra apoiada no câmbio, lançando olhares ocasionais.


— E ele mora sozinho\nmesmo?


— Mora. — Guilherme\nconfirmou rápido, como quem ensaiou essa resposta.


Falava como quem pisa em gelo fino.\nContava as coisas simples — o galpão que parecia novo, o jeito seco do pai, que\nestava preparando macarrão e que tinha Coca-Cola. Mas era difícil desviar das\nperguntas pontuais, como foi a despedida, por que voltar àquela hora, ou o que,\nexatamente, ele queria descobrir a mais.


— E o que ele te disse?\n— Paulo arriscou, como quem não queria parecer curioso demais.


Guilherme demorou um segundo para\nresponder.


— Que... tava tudo\ncerto. Que continuaria pagando a pensão. — disse, rápido. — E umas outras\ncoisas... meio filosóficas. Ele é meio esquisito, sabe? Vive dando umas voltas\nantes de chegar no ponto.


O silêncio se estendeu\npor mais tempo do que deveria. Paulo não pressionou, mas o ar no carro ficou\nmais denso. Guilherme percebeu. Sem tirar os olhos da estrada, esticou a mão\naté o painel e girou o botão do som.


— Gosto dessa música. —\ndisse, num tom que encerrava o assunto.


“Escutei alguém abrir\nos portões, encontrei no coração multidões...” ♪


Os primeiros acordes de “Três\nLados”, do Skank, invadiram o carro. A batida suave da bateria, os acordes\nmelódicos do baixo e a voz familiar de Samuel Rosa preencheram o espaço como\numa cortina que escondia o que não se queria mostrar.


 “Meu desejo e meu destino brigaram como\nirmãos...” ♪


Guilherme recostou no\nbanco, fechou os olhos por um segundo e deixou a cabeça girar levemente em\nsincronia com a música. Não queria pensar mais. Não ali. Não agora. Paulo, sem\ncomentar nada, apenas aumentou um pouco o volume e manteve os olhos na estrada.\nO carro seguia firme no asfalto, como se o caminho soubesse aonde levá-los —\nmesmo que ele ainda não soubesse o que estavam procurando.


O carro deslizou\nlentamente pela última curva antes do sítio. Guilherme esticou o pescoço, os\nolhos atentos à escuridão que envolvia a estrada de terra. À frente, o galpão\napareceu primeiro, uma sombra alongada e imponente, ainda mais silenciosa sob o\ncéu sem lua. Logo depois, a casa do pai surgiu parcialmente entre as árvores,\ncom uma única luz acesa no segundo andar, como um farol tímido no meio do breu.


— É ali! Pode parar.


Paulo encostou o carro\nno acostamento, no mesmo lugar onde, horas antes, Guilherme, Beto e Manuela haviam\nesperado o Uber. O mato ao redor estalava sob o vento e o som da terra sendo\npisada pelo carro. As pedras soltas estalaram sob os pneus. Guilherme pegou a\nmochila do banco de trás e a pendurou no ombro com um movimento rápido. Se\ninclinou para frente e deu um beijo calmo em Paulo, como se dissesse “fica bem”\nsem usar palavras.


— Obrigado por me\ntrazer! Vai tranquilo... Amanhã... prometo que a gente almoça junto. Só nós\ndois. — disse, já do lado de fora, com as mãos apoiadas na porta e no capô do\ncarro, como quem não queria sair do campo de visão de Paulo por completo.


Paulo não respondeu de\nimediato. Os olhos fixos na silhueta da casa à frente.


— Você acha que eu vou\nte deixar aqui no meio do nada, com um cara que você mal conhece? — disse, a\nvoz carregada de firmeza contida.


— Ele é meu pai, Paulo.\n— Guilherme respondeu sem hesitar.


— Sim... E ainda assim,\né um desconhecido. — retrucou Paulo, com a voz mais baixa, mais grave.


Guilherme deu uma\nrisadinha sem humor e balançou a cabeça.


— Eu vou ficar pra\ndormir... Tá tudo certo.


— A sua mãe sabe disso?\n— perguntou Paulo, estreitando os olhos. — Ele ao menos sabe que você vai\ndormir aqui?


Antes que qualquer\nresposta pudesse vir, um farol cortou a escuridão da estrada atrás deles. A luz\nofuscou os olhos dos dois, varrendo a estrada seca com brutalidade e levantando\npoeira fina que engoliu tudo à volta.


— Merda! — murmurou\nGuilherme, voltando correndo para dentro do carro. Com um movimento rápido,\nfechou a porta, desligou a luz interna e girou o botão do som até silenciar\ncompletamente.


O interior do carro\nficou mergulhado na penumbra. O feixe do farol do outro veículo ainda vinha na\ndireção deles, ampliando-se a cada segundo.


— O que tá acontecendo?\n— sussurrou Paulo, tenso, os dedos ainda no volante.


Guilherme respondeu\napenas com um tapa leve na barriga dele, como quem diz: “quieto.”
\nE os dois ficaram ali, em silêncio absoluto, enquanto o som de pneus na estrada\ne o brilho agressivo do carro desconhecido avançavam pela noite.


O carro desacelerou até\nparar alguns metros atrás, do outro lado do acostamento, onde a poeira ainda\npairava como uma neblina dourada sob os faróis. Era um Sedan escuro, com vidros\nfechados, que não emitia nenhum som além do motor em marcha lenta.


As portas se abriram\nquase ao mesmo tempo. Duas figuras desceram. Uma mais alta e a outra baixa,\nencapuzadas, indefinidas. A poeira e a iluminação difusa impediam qualquer\nidentificação clara. O carro, assim que os dois passageiros se afastaram da\nlataria, engatou uma ré lenta e silenciosa, depois fez a volta e seguiu embora,\ncomo se tivesse apenas cumprido uma entrega — e nada mais.


Dentro do Gol, o\nsilêncio era absoluto.


Guilherme permanecia\nencolhido no banco, a respiração baixa, o coração batendo forte dentro do\npeito. Paulo apertava o volante com as duas mãos, o maxilar travado, os olhos\natentos aos retrovisores.


— Consegue ver alguma\ncoisa? — Guilherme murmurou, tenso.


Paulo não respondeu de\nimediato. Estreitou os olhos, acompanhando cada movimento das silhuetas. Foi só\nquando uma das figuras — a mais alta — ergueu o celular e acendeu a lanterna,\niluminando parcialmente o próprio rosto, que Paulo soltou um suspiro contido e\nbalançou a cabeça.


— É a Manuela... —\ndisse, quase aliviado, mas ainda desconfiado. Virou o rosto para Guilherme, que\nainda estava recolhido no banco, como se quisesse se dissolver na escuridão do\ncarro.


— Por que a Manuela\nestá aqui, Guilherme? — perguntou Paulo, agora mais incisivo, sem disfarçar o\ntom de alerta na voz.


Guilherme soltou o ar\ncom força pelo nariz, tentando pensar rápido, mas a resposta não vinha. Ergueu\nmais o corpo, apoiando os cotovelos no painel do carro, e focou o olhar no que\nse desenrolava adiante.


A luz do celular tremia\nnas mãos de Manuela, que parecia apontar para a casa de seu pai como quem tenta\nconvencer ou insistir. A figura menor, ao lado dela, fazia gestos com os\nbraços, negando com a cabeça. Mesmo à distância, Guilherme reconheceu aquele\njeito nervoso, exagerado: era Beto.


— Merda... — murmurou,\nfinalmente. — É o Beto com ela!


Paulo virou o rosto,\nsurpreso.


— O que eles estão\nfazendo aqui?


— Eu também gostaria de\nsaber... — disse Guilherme, sem esconder o desconforto.


Lá fora, Manuela dava\npassos curtos em direção à entrada da propriedade, mas Beto a puxava de volta,\nclaramente tentando impedir que ela avançasse.


— Ela não faz ideia do\nque está fazendo... — disse Guilherme, já abrindo a porta do carro, mas ainda\nsentado.


— Espera. — disse\nPaulo, segurando-o pelo braço. — Você quer mesmo envolver mais gente nisso? Já\nnão tá confuso o suficiente?


Guilherme o olhou, o\nrosto sério. A sombra da árvore caía sobre a testa, mas os olhos estavam vivos,\npulsando de indignação e preocupação.


— Eles já estão aqui...


— Então resolve rápido.\n— Paulo soltou o braço devagar. — Mas se alguma coisa parecer errada, você\nvolta correndo. Eu não vou embora!


Guilherme assentiu,\npegou a mochila e saltou do carro, fechando a porta com cuidado.
\nA poeira ainda se espalhava pelo chão da estrada de terra, abafando os passos\nenquanto ele se aproximava dos amigos. O barulho dos grilos e do mato sendo\nremexido sob o vento criava uma trilha sonora quase ritualística.


— Manuela! — chamou, já\nperto. A voz não foi alta, mas bastou para fazê-la virar.


Manuela girou nos\ncalcanhares com expressão tensa.


— Aê, finalmente! Você\ndemorou, caramba!


— O que vocês estão\nfazendo aqui? — perguntou ele, parando a alguns passos de distância, o tom mais\nfirme do que esperava.


— Você acha mesmo que\neu ia dormir tranquila depois de tudo o que aconteceu hoje? — rebateu ela,\ncruzando os braços. — E eu te conheço, sei que é cabeça dura. Quando cisma com\nalguma coisa, leva o troço até o fim!


Beto, ao lado dela,\nolhava para o chão como se estivesse desejando desaparecer.


— Foi ideia dela. Eu\nsó... vim junto. — disse ele, levantando as mãos, quase se desculpando.


— Manu, aqui não é\nlugar pra você estar agora. Sério!


— Você também está! E\nsozinho!


— Não estou sozinho...\n— disse, olhando por cima do ombro, na direção do carro branco, onde Paulo\nainda observava, com o braço apoiado na janela.


Manuela seguiu o olhar\ndele, estreitando os olhos. Quando reconheceu a silhueta, o brilho dos faróis e\no rosto meio inclinado no retrovisor, ela piscou algumas vezes como se\nprecisasse de confirmação.


— Espera... é o Paulo?\nO professor de educação-física? — disse, apontando com o queixo. — O que ele tá\nfazendo aqui?


Guilherme travou.


— É... eu... bom... ele\nsó me trouxe, sabe? Tipo... de carro.


Manuela o encarou por\num segundo, depois arqueou as sobrancelhas lentamente, como quem acaba de ver\numa peça do quebra-cabeça cair no lugar. Estava estupefata.


— Não. Não. Não,\nGuilherme... — disse, com a voz baixinha, abrindo um sorriso largo e\nescandalizado. — VOCÊ... tá pegando o professor?


Guilherme ficou\nestático, gaguejando.


— A gente... não é\nassim... quer dizer, não é do jeito que você tá dizendo...


Manuela levou a mão à\nboca, completamente chocada, mas mais como quem acaba de ouvir uma fofoca boa\ndo que uma confissão bombástica.


— Meu. Deus. Do. Céu. —\ndisse entre os dedos. — Isso é a coisa mais inacreditável que eu ouvi desde que\na Isabella caiu na saída do colégio e gritou “meu aplique”! Que. Ba-ba-do!


Beto, que até então\nobservava a troca em silêncio, mordeu o lábio inferior e olhou para o lado. Ele\njá desconfiava de alguma coisa, mas ver Manuela explodir de surpresa só\nconfirmou o que até então era intuição.


Lá do carro, Paulo\nlevantou uma mão e acenou discretamente, com um meio sorriso de canto de boca,\ncomo quem dizia: “Sim. Eu estou aqui. E ouvi tudo.”


Manuela arregalou ainda\nmais os olhos.


— E ele acenou. Ele\nouviu tudo. Meu Deus.


Guilherme passou a mão\npelo rosto, mais rendido do que envergonhado.


— Manu, pelo amor de\nDeus... não faz escândalo.


— Escândalo? Eu tô\nprestes a pedir detalhes! — sussurrou ela, rindo e batendo em seu próprio\nbraço. — O professor de educação física, Gui? Por isso você sumia às vezes... Aquele\naquecimento que ele te obriga a fazer no início das aulas... agora tudo faz\nsentido!


Beto pigarreou, meio\ndesconfortável.


— Tá... tá bom já, né?\nA gente tá no meio do mato, à noite, na frente da casa do seu pai esquisito.\nTalvez foco?


Manuela deu dois passos\npara trás, ainda sorrindo.


— Tá, tá. Mas isso aqui\nvai render! Me espera depois!


Guilherme revirou os\nolhos, dando meia-volta a passos firmes até o Gol branco, os ombros levemente\nencolhidos sob a mochila, o coração ainda acelerado pela reação de Manuela — e\npela presença cada vez mais próxima da casa escura.


Paulo abaixou o vidro\nassim que ele se aproximou.


— Então? — perguntou,\nainda com uma expressão entre o alerta e o cuidado.


— Você pode ir. Sério.\nVai ser melhor assim. — disse Guilherme, apoiando os braços na janela aberta. —\nEu vou chamar ele. Amanhã a gente conversa, juro. Tranquilo, sem esquisitices.\nSó nós dois.


Paulo demorou um\nsegundo, mas acabou assentindo, mesmo contrariado. O motor do carro ainda\nvibrava em ponto morto, como se resistisse a deixá-lo partir.


— Se você piscar, eu\nvolto. — disse ele, com meio sorriso.


— Eu sei. — Guilherme\nrespondeu. — Obrigado. De verdade.


Eles trocaram um último\nolhar rápido — íntimo, silencioso — e então Paulo engatou a marcha e partiu, sumindo\ndevagar pela estrada de terra, deixando para trás apenas o brilho fraco das\nlanternas.


Guilherme respirou\nfundo e voltou até os amigos.


— Ok. Ouçam... a luz\nestá acesa no segundo andar, então a parte da frente não vai dar. A gente vai\ndar a volta pela lateral, onde tem aquele corredor que liga a casa ao galpão.\nLá deve ter uma entrada.


Beto arregalou os\nolhos.


— Espera, você tá\nsugerindo... que a gente invada?


— Tecnicamente, não é\ninvasão. — respondeu Guilherme, já em movimento. — É mais uma visita...\nforçada.


Manuela digitava\nfuriosamente no celular, com os olhos brilhando de adrenalina e fofoca.


— O que você tá\nfazendo? — perguntou Guilherme, desconfiado.


— Contando pra Jordana.\nIsso precisa ser registrado. Eu disse que ia render! — respondeu ela, com um\nsorriso travesso. — “Paulo, o professor, e Guilherme. Confirmado. Juro por\nDeus.”


— VOCÊ O QUÊ?! —\nGuilherme arfou, mergulhando em direção ao celular. Tomou o aparelho das mãos\ndela com um puxão rápido, quase tropeçando. — Você tá maluca?! Não! NÃO! Isso\nnão pode...


Antes que pudesse\nterminar a frase, um latido forte ecoou no escuro. Todos congelaram.


Do segundo andar da\ncasa, onde a luz permanecia acesa, uma silhueta surgiu na janela ─ imóvel,\nobservadora. A figura ficou ali, parada, como se farejasse o mundo do alto.


— Abaixa! Abaixa! —\nsibilou Beto, empurrando os dois pelos ombros com força.


Os três se encolheram\natrás de uma moita de capim alto, o coração de Guilherme batendo no ritmo do\npavor. O celular de Manuela ainda tremia na mão dele, com o texto da mensagem\ninacabada brilhando na tela.


A silhueta na janela\nrecuou, apagando-se de volta na luz difusa do cômodo. O latido cessou com a\nmesma rapidez com que surgiu, mas os três ainda estavam abaixados, quietos como\nestátuas entre a moita e o mato ralo.


Guilherme soltou o ar\ndevagar e, ainda agachado, estendeu o celular de volta para Manuela.


— Toma. Mas sério... a\ngente tem coisa mais importante pra resolver agora, tá? Como o Beto disse:\nfoco.


Manuela pegou o\naparelho de volta, sem parar de encará-lo com a sobrancelha arqueada.


— Você sabe que isso\nnão vai morrer aqui, né?


— Depois a gente fala\ndisso. — disse Guilherme, mudando o tom. — Agora, presta atenção: tem algo\nerrado com meu pai. Não só no jeito esquisito dele... é mais. Tem alguma coisa\nescondida. Algo que não bate.


Beto assentiu, ainda\nmeio encurvado, olhando a casa.


— O pior é que é\nverdade, Manu. Tudo que ele contou, a questão da morte do seu avô... e aquele\nbrilho azul no galpão... não foi normal.


Manuela olhou de um\npara o outro, respirou fundo e ajustou a alça da mochila no ombro.


— Se vocês topam, eu\ntopo também!


Beto fez uma careta. —\nVocês falam com uma facilidade... como se a gente estivesse entrando numa\npapelaria. — murmurou. — Não sei não.


Guilherme deu um\nsorrisinho de lado e levantou uma sobrancelha.


— Então fica aqui, de\ntocaia. Se der alguma merda, você avisa. Pode até usar uma bandeira pra mandar\nsinais. Igual escoteiro.


Beto bufou.


— Muito engraçado.


Guilherme tocou o ombro\ndo amigo, sério dessa vez.


— A gente precisa de\nvocê, cara. Você é o único que entende alguma coisa se a gente encontrar... sei\nlá... fios, placas, sei lá o quê.


Beto ponderou por dois\nsegundos, olhando para o mato alto e depois para a lateral da casa.


— Tá! Melhor ir junto,\nentão. Mas se me matarem, vou puxar vocês dois comigo do além.


Guilherme se endireitou\num pouco e olhou para os dois.


— O que vocês trouxeram\nnas mochilas?


Beto se ajoelhou, abriu\no zíper da sua e virou metade do conteúdo no chão: uma caixa de ferramentas, uma\nlanterna, pilhas avulsas, o laptop envolto em uma capa, pacotes de salgadinhos e\numa quantidade absurda de tralhas eletrônicas — cabos, conectores, placas\nsoltas, adaptadores e até uma chave de fenda minúscula.


— É... alguma dessas\ncoisas pode ser útil. Ou não. Mas vai que, né?


Manuela, por sua vez,\nabriu sua mochila com toda naturalidade. Lá dentro: um estojo de maquiagem,\npapel higiênico, uma tesoura de ponta fina e... um barbeador prateado.


Beto e Guilherme se\nentreolharam, depois olharam para ela com as sobrancelhas quase na testa.


— Um barbeador? —\nperguntou Guilherme, incrédulo.


Manuela cruzou os\nbraços.


— O quê?! NÃO! Vocês\nsão nojentos. — disse, indignada. — Achei que a visita fosse formal, que ia\nentrar na casa, que ia ter um momento. E com toda certeza eu vou cortar a barba\ne o cabelo dele na primeira oportunidade.


Guilherme riu, meio\nabafado. Beto apenas balançou a cabeça.


— Você vai transformar\no meu pai num cliente de salão clandestino?


— Um novo visual pode\nresolver metade da esquisitice.


Guilherme respirou\nfundo, ainda com um leve sorriso, e fez sinal com a cabeça na direção do\ncorredor lateral.


— Bora, antes\nque o barbeador comece a falar sozinho...


E os três começaram a\nse mover, em fila baixa, contornando a vegetação até desaparecerem na sombra da\nlateral da casa.



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