Foi Manuela quem chamou\no carro pelo aplicativo, e os três esperaram em silêncio, parados sob a sombra\ncomprida da árvore ao lado da estrada. Guilherme mantinha os olhos fixos no\ngalpão ao longe, como se a estrutura cinza e silenciosa o atraísse de volta,\ncomo um ímã sussurrando segredos que ele ainda não tinha escutado por completo.\nEstava quieto demais, pensativo demais — como se já estivesse tramando um\nretorno.
Beto chutava pequenas\npedras com a ponta do tênis, abrindo a boca algumas vezes, como se quisesse\ncomentar algo, mas desistindo antes que qualquer som saísse. A dúvida pairava\nno seu rosto, junto com a tensão que não o abandonara desde o estampido do\ntiro.
Manuela, por sua vez,\nparecia incapaz de ficar parada. Com as mãos espantava mosquitos invisíveis,\nabelhas e marimbondos que pareciam surgir de todos os lados, irritando-se a\ncada segundo. Resmungava baixinho enquanto tentava desviar das investidas\naladas, estapeando o ar com impaciência.
Quando o veículo branco\nfinalmente apareceu subindo pela estrada de terra, envolto em poeira fina,\nninguém disse nada — apenas entraram. Guilherme no banco da frente, com o olhar\nainda perdido em algum ponto que havia deixado para trás. Manuela e Beto atrás,\ncarregando cada um o peso e o estranhamento daquela visita que deveria ter sido\nsó uma curiosidade, mas que agora parecia o começo de algo bem maior.
O caminho de volta para a cidade\nfoi longo e quieto nos primeiros minutos, com o ronco constante do motor preenchendo\nos silêncios.
Mas Beto não aguentou por muito\ntempo.
— Manu, foi tudo meio\nlouco... ─ começou, quase como em um sussurrou. Guilherme rapidamente virou o\npescoço, olhando o amigo com dúvida. ─ O cara primeiro parecia um neandertal,\nsério! Tinha cabelo até saindo da orelha, eu juro! E ele apareceu do nada, todo\nsujo e depois aquela espingarda debaixo do braço! Foi tipo…
Manuela fez uma careta.
— Tá, e vocês ficaram\nlá por quê, mesmo? ─ perguntou, irônica.
Guilherme, do banco da frente,\nrespondeu voltando os olhos para a janela:
— Longa história.
Beto continuava contando a história\ncomo se fosse um episódio de Arquivo X, narrando com entusiasmo cada momento do\nencontro, do clima tenso, da luz azul, do tiro, da espingarda, da porta\ntrancada. Manuela reagia com comentários ácidos e olhares incrédulos, às vezes\ninterrompendo com um “ele é completamente maluco!” ou “eu vi, eu estava lá\nnessa parte!”
O carro parou primeiro\nna praça central. Beto desceu ainda tagarelando, prometendo mandar links sobre\na Operação Prato e o Caso Varginha. Despediu-se com um aceno desajeitado e saiu\nandando em direção à banca de jornais, onde provavelmente encontraria Jordana e\na mãe ─ Guilherme torcia para que ele estivesse indo apenas comprar revistas e\nnão fazer fofoca.
Depois foi a vez de Manuela. O\ncarro parou diante da casa dela, um sobrado com fachada de cerâmica bege,\ndetalhes avermelhados nos cantos e um portão de ferro branco com grades\nentrelaçadas. As janelas do andar térreo tinham arcos suaves e grades s, e no\nandar de cima uma varanda estreita com balaústres amarelos. Havia uma luz acesa\nnos fundos, provavelmente da sala, e uma sensação de cotidiano que contrastava\ncom tudo o que haviam vivido naquele dia.
Ela olhou para Guilherme antes de\nsair, a mão já na maçaneta.
— Você tá mesmo\npensando em voltar lá, né?
Ele não respondeu. Ela suspirou,\nabriu a porta e saiu. Antes que fechasse, olhou de novo para ele.
— Você devia cuidar de\nsi como tá tentando cuidar dessa história maluca. Boa noite, Guilherme!
O carro seguiu em\nfrente, mergulhando pelas ruas mais estreitas e silenciosas até parar diante do\nprédio onde Guilherme morava. Era um edifício de três andares, com faixas\nhorizontais vermelhas e paredes em tom creme claro, que davam um ar limpo e\norganizado à fachada. As janelas de ferro com pequenos vitrais repartidos\ncriavam uma estética urbana comum e funcional — quase discreta. A entrada era\nmarcada por uma porta de ferro branca com vidros pretos, robusta e sempre\ntrancada, como se fosse uma espécie de filtro entre a cidade e os pequenos\nmundos que viviam ali dentro. Guilherme morava no segundo andar, onde os\nreflexos da iluminação pública conseguiam atravessar as cortinas fechadas com\nfacilidade ─ seu quarto nunca ficava totalmente escuro.
A porta do apartamento\nrangeu suavemente ao abrir. A sala, iluminada por luz natural, parecia saída de\noutro tempo. O piso de taco bem cuidado refletia a luz suave que vinha da\njanela grande à esquerda, e as estantes repletas de livros preenchiam boa parte\nda parede ao fundo. Quadros com molduras pretas— alguns retrôs, outros de\nexposições culturais — e pequenos porta-retratos estavam distribuídos pelas\nparedes claras, dando à sala um ar intelectual e acolhedor. Um sofá branco\nlargo, com mantas dobradas nas laterais, fazia conjunto com uma mesinha de\nmadeira clara coberta de livros empilhados em cores vibrantes.
O cheiro do apartamento\nmisturava livros antigos com café, incenso cítrico e um toque distante de pão\nna chapa — como só casas de mãe conseguem ter.
— Onde você estava,\nGuilherme? — perguntou a voz conhecida, vinda da cozinha com um certo ar de\ncensura maternal embutido.
Ela apareceu segundos depois no\ncorredor, apoiada no batente da porta, com uma jardineira jeans curta por cima\nde uma camiseta preta, camisa xadrez azul escura por cima e um tênis branco já\nmeio gasto nos pés. Os cabelos ruivos ondulados caíam até os ombros, com franja\ncobrindo a testa. Tinha olhos claros, atentos e marcados por linhas discretas\nde quem aprendeu a ser forte por necessidade, não por escolha. O cansaço de\nquem cuidou muito tempo de tudo sozinha dançava nos detalhes do rosto — mas não\napagava a beleza quase juvenil que ainda insistia em permanecer nela.
Guilherme largou a\nchave sobre a mesinha de entrada, entre uma pilha de envelopes e um vasinho com\nflores artificiais.
— Trabalho da escola...\ncom o pessoal da turma.
Passou direto pelo\ncorredor, tirando o tênis no caminho com o pé. Entrou no quarto e jogou a\nmochila em um canto, ao lado do criado-mudo. A cama, de colcha xadrez\nbagunçada, estava cheia de almofadas assimétricas, e um moletom embolado dormia\nentre os lençóis. O quarto era apertado, mas cheio de vida. Um tapete listrado\nocupava quase todo o chão. Havia pôsteres de filmes colados na parede, caixas\nde som embaixo da TV, livros amassados, revistas antigas, principalmente ao\nredor da escrivaninha, onde um computador com luz verde ainda piscava. Bagunça\nfuncional de adolescente.
Guilherme se jogou na cama, pegou o\ncelular pra ver as horas. Quase cinco da tarde. Ainda havia tempo.
A mãe encostou de novo na porta do\nquarto, braços cruzados, o semblante ainda firme.
— Você tá imundo,\nGuilherme! Vai tomar banho antes de comer qualquer coisa.
Antes que ele pudesse protestar, um\nvulto loiro passou correndo por ela, feito um raio descontrolado.
— GUI!!!
Caio pulou com tudo sobre ele,\nfazendo o colchão afundar e arrancando um guincho de dor.
— AI, CARACA! —\nGuilherme se contorceu, espremido.
— Acertei você em\ncheio! — gritou Caio, gargalhando enquanto rolava sobre os travesseiros.
Guilherme gemeu,\nvirando o rosto pro travesseiro.
— Hoje não, Caio...\nHoje não...
A mãe riu baixinho,\nbalançando a cabeça como quem já tinha visto aquela cena mil vezes e ainda\nassim achava graça. Caio se ajeitou na cama depois do salto vitorioso, rindo\nainda da reação do irmão, enquanto Guilherme permanecia afundado no colchão. O\ngarotinho logo se pôs de pé novamente, os cabelos loiros espetados num\nredemoinho natural no topo da cabeça e os olhos claros brilhando de empolgação.
— Vamos brincar de Hot\nWheels? Vai, por favor! — pediu, já correndo até o outro lado da cama para\nsacudir o corpo do irmão. Caio era pura energia compactada. Apesar da expressão\nàs vezes fechada, bastava um empurrãozinho para que se transformasse em um\nfuracão de risadas. Usava uma camisa cinza e a bermuda jeans. Uma criança sendo\ncriança. Nada impedia sua alegria de circular — nem mesmo o "não"\niminente que viria de Guilherme.
Guilherme se levantou\nda cama devagar, ainda se espreguiçando, tentando ignorar a empolgação do irmão.
— Caio, depois! Preciso\ntomar banho.
Mas antes que pudesse\ndar dois passos, o menino se agarrou à perna dele, feito um carrapato\ndeterminado.
— Não! Só um pouquinho!\nVai ser rapidinho!
Sua mãe ainda estava\nlá, parada na porta com os braços cruzados e um olhar firme.
— Caio, deixa o seu\nirmão, vai. Ele tá todo sujo, parece que rolou no pasto. Vai tomar banho\nprimeiro, depois vocês veem isso...
Guilherme soltou a\nrespiração pela boca, derrotado.
— Hoje não vai dar, não!
A mãe ergueu uma\nsobrancelha.
— Vai sair de novo?
— Vai ter um rock lá no\nAlt+Tab, vou encontrar com o pessoal...
Ela suspirou fundo,\nvirando o olhar pro teto, como se implorasse paciência aos céus.
— O Caco vai chegar\nmais cedo hoje! É dia de pizza e jogo com a família, você sabe...
Guilherme arqueou as\nsobrancelhas, fazendo uma careta teatral e irônica.
— Que pena... Joguem\nDetetive e tentem descobrir onde irei passar a noite... — disse, dando um\nsorrisinho provocativo enquanto se encaminhava para o banheiro. A mão já na\nmaçaneta.
Antes de fechar a\nporta, lançou um último olhar para a mãe. Ela permanecia ali, bufando com\nfrustração, mas logo passou a mão com carinho pelos cabelos do pequeno Caio,\nque ainda estava encostado na parede com os carrinhos nas mãos.
A porta do banheiro se\nfechou com um clique suave, e por um instante, a casa voltou ao som comum dos\npratos sendo lavados, da televisão da vizinha, e de um menininho abrindo sua\ncaixa de Hot Wheels sozinho no chão da sala.
A água quente escorria\nlentamente pelas costas de Guilherme, mas o calor não era suficiente para\napagar o frio que sentia por dentro. De olhos fechados sob o chuveiro, ele\ntentava organizar os pensamentos, como quem rebobina um filme muito confuso na\nesperança de que da segunda vez tudo faça mais sentido.
As palavras do pai\nainda ecoavam como um zumbido baixo, difícil de ignorar.
\nFísico militar. Caso Varginha. Afastamento. Silêncio. Luz azul.
“E se for verdade?”,\npensou, deixando a testa recostar no vidro frio do box. “E se ele não for só\nmais um maluco que fugiu das responsabilidades? E se tudo aquilo... realmente\naconteceu?”
Tentava forçar\nconexões, como se o tempo todo alguma coisa já estivesse ali, sussurrando. As\nhistórias estranhas da infância, os cochichos da avó, os comentários atravessados\nda mãe — todos pareciam mais pesados agora. Como peças de um quebra-cabeça com\nbordas desgastadas, que só agora começavam a se encaixar.
Ele desligou o chuveiro\ne permaneceu ali por alguns segundos, sentindo a água pingar do cabelo, o peito\narfando devagar. Pegou a toalha, enxugou-se mecanicamente e vestiu a primeira\nroupa limpa que encontrou no armário — uma calça jeans escura, camiseta preta e\num moletom velho de capuz.
Saiu do quarto com os\ncabelos ainda úmidos e pés descalços. A casa estava quieta. Devia ser quase seis\nhoras.
Seguiu direto para a\ncozinha, guiado pelo cheiro morno de comida. Abriu a geladeira, pegou um pedaço\nde torta de frango que sobrara do almoço e se serviu de um copo de\nrefrigerante. Não se sentou — apenas ficou em pé, apoiado no balcão, mastigando\ndevagar, em silêncio, como se cada garfada estivesse ali apenas para mantê-lo\npreso à realidade. A mente, no entanto, ainda estava do lado de fora. No\ngalpão. No brilho azul. No que ainda não entendia.
Guilherme mastigava\nlentamente o último pedaço de torta, com o olhar perdido no azulejo bege da\nparede oposta. Estava tão absorto nos próprios pensamentos que só percebeu o\nsom da chave girando na porta quando ela já estava se abrindo. Ouviu a mãe\natravessar apressada da área de serviço até a sala, provavelmente para receber\nquem chegava.
— PAPAAAIIII! — gritou\nCaio, do quarto, com a empolgação explosiva que só crianças pequenas conseguem\nmanter.
Logo em seguida veio um\nbufar forte, profundo, exalando cansaço e aceitação forçada — como quem tenta\ndisfarçar o peso de um dia cheio com um sorriso.
Guilherme permaneceu na\ncozinha, apoiado no balcão, sem mexer a cabeça, apenas ouvindo. A conversa da\nmãe com o recém-chegado ecoava fraca pela sala, enquanto Caio tagarelava sem\nparar, contando coisas que pareciam todas ao mesmo tempo: um desenho novo, uma\nqueda na escada, a corrida que ganhara na escola.
Então, ele ouviu os\npassos firmes e cadenciados entrando pela cozinha.
A figura masculina\nsurgiu na porta, com uma sacola plástica em uma mão e um maço de cartas na\noutra. Caco tinha por volta dos quarenta e poucos anos, com ombros curvados de\nquem não praticava atividade física há muito tempo e uma barriguinha que se\nacomodava sob a camiseta como um velho inquilino que já não precisava pedir licença.\nVestia uma camiseta listrada cinza e preta, desbotada, e uma calça jeans escura\ncom a barra um pouco dobrada. Por cima, uma jaqueta bege clara, manchada com\npoeira nos ombros.
Parou ao ver Guilherme.\nO olhar entre eles foi breve, como um farol amarelo antes do vermelho.
— Opa! — disse, apenas.\nSorriu de canto com os lábios finos e Guilherme tinha certeza que fora o que\nfizera sua mãe se apaixonar. Aquela cara de cachorro que caiu da mudança. Os\ncabelos escuros e ralos nas têmporas, olhos cansados sob pálpebras pesadas, e\num queixo levemente coberto pela barba mal feita. Vinha de família judia, por\nisso ostentava rosto comprido e nariz era reto, largo na base, levemente\navermelhado, como se vivesse num estado crônico de rinite.
Guilherme assentiu com\na cabeça, sem abrir a boca.
Caco andou até a\ngeladeira, abriu a porta devagar, resmungando alguma coisa sobre o calor, e\npegou uma latinha de refrigerante. Estalou a língua ao fechar a porta e saiu da\ncozinha do mesmo jeito que entrou — sem pressa, mas também sem ficar.
Caio passou correndo\natrás dele segundos depois, vestindo uma capa de Batman e pulando como se\nvoasse. A casa, por um instante, estava cheia de vida. Guilherme, no entanto,\ncontinuava ali, mastigando o silêncio.
Guilherme dobrou a\nperna esquerda, apoiando o pé na canela da perna direita, com os cotovelos no\nbalcão da cozinha. Mastigava devagar o último pedaço de torta enquanto\ndesbloqueava o celular com o polegar. A tela iluminou o rosto pensativo e\nmarcado de incertezas. Rolou pelas notificações até encontrar o contato de\nPaulo.
“Você pode me\nencontrar no mesmo lugar de sempre?”\n— escreveu, sem rodeios. Enviou e bloqueou o aparelho em seguida, enfiando-o no\nbolso e foi direto para o quarto. No escuro, abriu o guarda-roupa, puxou uma\nmochila vazia e começou a jogar dentro dela algumas coisas: um par de roupas\nlimpas, uma lanterna pequena, os fones de ouvido e uma velha caderneta. Zíper\nfechado, mochila nas costas.
Quando abriu a porta do\nquarto e chegou na sala, parou. Caio estava sentado no chão, rodeado de\ncarrinhos espalhados como um grande estacionamento. Caco ocupava o sofá, com o\ncorpo afundado entre as almofadas, assistindo à televisão, e a mãe estava\ndeitada no colo dele, rindo de algo que não se ouvia direito.
Por alguns segundos,\nninguém se mexeu. Guilherme ficou parado na entrada da sala, e os três o\nolharam de volta. Havia um tipo de paz improvisada naquele quadro — uma cena\ndoméstica que deveria ser comum, mas nunca lhe pareceu natural.
— Tô saindo. — disse\nele, finalmente.
A mãe ergueu um pouco a\ncabeça, apoiando o queixo em uma das almofadas.
— Não demora, Guilherme!
— Vou dormir na casa da\nManuela. — respondeu, já girando a chave na mão.
Ela se ergueu um pouco\nmais, com a sobrancelha franzida.
— A gente precisa ter\naquela conversa de adulto.
Guilherme soltou o ar\npelo nariz, sem paciência.
— Não precisa, mãe. A\nManuela é só minha amiga... e é sapatão!
Silêncio.
Caio olhou para a mãe,\ndepois para o irmão, curioso. Guilherme caminhou até ele, deu um tapinha leve\nna testa do menino e saiu, girando a chave na porta sem pressa.
A porta se fechou.
— O pé da Manuela é\nmuito grande? — perguntou Caio, sério, olhando para os próprios pais com\ncuriosidade genuína.
Guilherme caminhava\npelas ruas estreitas do bairro, com o capuz puxado até a testa e os fones de\nouvido encaixados firmemente. A luz amarelada dos postes desenhava sombras\ncompridas atrás dele, que pareciam se arrastar junto aos seus pensamentos. O ar\nda noite era quente, mas ainda assim ele mantinha o moletom fechado — como se\nquisesse proteger algo mais do que o corpo.
Tirou o celular do\nbolso, destravou a tela e apertou o play.
O som preencheu seus\nouvidos de repente, invadindo o silêncio como um raio nostálgico que atravessa\na pele.
“Meu amor, olha só\nhoje o sol não apareceu...”\n♪
A música da banda Rádio\nTáxi começou a tocar com força, quase deslocada daquela paisagem. Os acordes\nmelódicos contrastavam com o vazio das ruas, criando um cenário estranho — como\nse a trilha sonora não fosse exatamente do momento, mas de algo maior que\nestava por vir.
Guilherme manteve o\npasso firme, atravessando esquinas já adormecidas, com vitrines apagadas e\npoucas janelas acesas. Sentia como se cada trecho de calçada dissesse: “volte.”\nMas ele não voltava. Seguia em frente.
À medida que se\naproximava do centro da cidade, os sons da noite começavam a mudar. O barulho\ndistante de um carro passando, o eco de um latido atrás de algum muro alto, a\nbatida da própria respiração contra o ritmo da música.
Lá atrás, entre os\nprédios e grades, havia um apartamento onde as luzes ainda estavam acesas, onde\npessoas comiam, riam e viviam. Mas ele já não sabia se aquele era o seu lugar.
Seguiu andando. E a\ncidade, como uma cúmplice silenciosa, parecia abrir caminho para ele — ou\ntalvez estivesse apenas permitindo sua fuga. A cada esquina, Guilherme sentia\nque mergulhava mais fundo em uma parte da cidade que poucos notavam. Àquela\nhora da noite era como um segundo turno da realidade — as fachadas mudavam de\nsignificado, os becos ganhavam ecos, e as ruas se tornavam caminhos sem nome,\nguiados apenas pelo instinto. Não era medo. Era como se ele se dissolvesse na\ncidade que só existia quando ninguém mais estava olhando.
Foi assim que chegou à Praça\nPrudente. A Praça Prudente se estendia como um grande respiro em meio à cidade\nadormecida. À direita, a antiga estação ferroviária desativada, com seus arcos\naltos e estrutura de tijolos escurecidos pelo tempo, ainda conservava uma\nbeleza melancólica. Hoje, servia como espaço cultural, mas àquela hora, estava\nfechada, silenciosa, como um palco vazio depois do espetáculo.
Guilherme atravessou a\npraça sem pressa, desviando dos bancos de concreto onde alguns andarilhos e\nsem-teto dormiam enrolados em cobertores finos, cercados de sacolas e sonhos\npartidos. Já estava acostumado àquele cenário — e, diferente de muitos, não\nsentia medo. Tirou um cigarro do bolso do moletom, colocou entre os lábios e\nacendeu com uma tragada curta e automática. O fósforo iluminou brevemente seu\nrosto, revelando um olhar mais cansado do que rebelde. Atravessou a rua,\ndeixando a praça para trás, entrando numa rua estreita, de calçamento irregular\ne muros altos que projetavam sombras retorcidas sobre o chão. Ali, um torreão\nantigo e tombado pela prefeitura se erguia silencioso, com suas janelas vazadas\ne paredes pichadas — lembrança de um tempo em que a cidade era outra. As casas\nao redor pareciam espremidas umas contra as outras, como se quisessem se\nesconder. Um grande depósito abandonado tomava um dos lados da rua, com portões\nde ferro entreabertos e o som oco do vento ecoando lá dentro. Mais adiante, a\nponte de ferro ─ ela se curvava sobre um rio quase seco naquela época do ano ─\ncom grades enferrujadas e vigas que rangiam sob os próprios pensamentos de\nGuilherme. Ele cruzou com passos firmes, o som do tênis contra o metal\nproduzindo ecos baixos.
Logo após a ponte,\nvirou à direita. Ali, um pequeno estacionamento de lojas ─ já fechadas pelo\nhorário ─ dominava o quarteirão. Portas de ferro abaixadas, letreiros apagados,\npapéis voando pelas beiradas. O lugar era deserto, exceto por um único carro\nbranco: um Gol seminovo, com a pintura ainda brilhando e os vidros escuros. Guilherme\ncaminhou até ele sem hesitar. Parou ao lado da porta traseira e se encostou\nali, com a mochila ainda nas costas, puxando mais uma tragada do cigarro. O\ncheiro de nicotina se misturava ao da rua — poeira, ferrugem, abandono.
Ficou ali parado,\nrespirando devagar, como se esperasse o mundo se ajeitar antes de dar o próximo\npasso. Não havia movimento. Nenhuma fresta de luz. Nenhum som. Apenas o ruído\nabafado da cidade dormindo e o farfalhar distante de sacolas plásticas sendo\nlevadas pelo vento.
Deu mais uma tragada, o\ncigarro queimando devagar entre os dedos. Pensava se tinha chegado cedo demais.\nOu tarde demais.
Então, a porta do\nmotorista se abriu com um estalo seco, e uma silhueta saiu do carro, os sapatos\ntocando o asfalto com precisão. A luz do poste mais próximo revelou o rosto\nparcialmente sombreado de Paulo, que ficou parado por um momento com as mãos nos\nbolsos da jaqueta, observando Guilherme com um sorriso enviesado no canto da\nboca.
A tensão no ar não era\nde medo — era de código.
— Termina isso antes de\nentrar no carro. — disse ele, com a voz rouca de quem não falava há algum\ntempo, sem alterar o tom.
Guilherme desviou o\nolhar, tragou fundo uma última vez e deixou o cigarro cair, esmagando a brasa\ncom o tênis. Depois, abriu a porta do passageiro e entrou, sem dizer uma\npalavra, fechando a porta com cuidado. A cabine do Gol estava abafada, com o\ncheiro misturado de banco novo, chiclete de hortelã e perfume amadeirado que\nele reconheceu imediatamente — Paulo.
Os olhos deles se\nencontraram só por um segundo. O suficiente.
Guilherme se inclinou e\no beijou devagar, como quem precisava confirmar que aquele lugar ainda era\nseguro, ainda era dele. Um gesto sem pressa, sem cerimônia — não um começo, mas\numa continuidade.
Depois do beijo, puxou\no capuz para trás, revelando os cabelos ainda meio úmidos e bagunçados, e\ndeitou a cabeça de lado, apoiando-a no ombro de Paulo, que ainda estava com as\nduas mãos no volante. O som baixo do carro preenchia o espaço com uma música\ndiscreta, provavelmente alguma playlist que Paulo gostava de ouvir enquanto\ndirigia. A melodia era suave, quase imperceptível, mas suficiente para dar\nritmo ao silêncio compartilhado ali dentro.
Paulo soltou um suspiro\nleve, o olhar fixo à frente.
— E aí... como foi com\no velho? — perguntou com a voz mais baixa do que o normal, como se tivesse medo\nde romper o silêncio que se instalava ali dentro.
Guilherme mordeu o\ncanto da boca e deu de ombros.
— É complicado.
Paulo franziu o cenho e\nvirou o rosto devagar, encarando-o.
— Como assim,\ncomplicado?
Guilherme fechou os\nolhos por um instante, tentando traduzir o que sentia. Não era dor exatamente.\nEra uma mistura de estranheza, decepção e uma curiosidade que arranhava.
— Ele é... difícil.\nTurrão. Parece que fala com códigos o tempo todo, sabe? Não responde as\nperguntas, mas também não foge. Me tratou como se eu tivesse aparecido pra\ncobrar uma dívida.
Paulo balançou a\ncabeça, fazendo um som com a boca como quem entendia — mas não completamente.
— E agora? Como vai ser?
Guilherme abriu os\nolhos, encarando o painel.
— Quero voltar lá.\nAliás, eu preciso!
— E ele pediu pra você\nvoltar?
— Não... mas... assim.\n— respondeu, passando os dedos entre os fios da própria franja. — Me convidou\npara entrar e almoçar. Foi o mais perto que ele chegou de dizer “fica.”
Paulo apoiou os\ncotovelos no volante e ficou em silêncio por alguns segundos. O carro inteiro\nparecia parado no tempo, enquanto a música baixinha ainda ecoava, como se até\nela estivesse esperando a resposta.
— Então é pra isso que\nvocê me chamou aqui? Pra te levar lá de novo? — perguntou, com o tom mais calmo\ndo que acusatório.
Guilherme o olhou de\nlado, um pouco surpreso pela franqueza. Paulo sabia ler nas entrelinhas.
— Não só por isso. —\nrespondeu, sincero. — Mas também por isso.
Paulo riu de leve pelo\nnariz, balançando a cabeça.
— Você é um problema.
— Eu sou seu problema.
Paulo não respondeu de\nimediato. Só olhou para ele com aquele jeito de quem já sabia disso desde o\ncomeço — e aceitou mesmo assim.
Lentamente, girou a\nchave na ignição. O som do motor engoliu o silêncio e trouxe de volta o mundo.\nAs luzes do painel se acenderam, iluminando os rostos deles por baixo. A\nmúsica, ainda baixinha, seguiu tocando — suave, quase cúmplice.
— Então vamos — disse.\n— Mas você vai me contando no caminho o que mais aconteceu.
Guilherme assentiu,\nencarando a rua escura à frente.
— Fechado. Só não me\ndeixa sozinho no meio do caminho.
— Te conhecendo? Eu que\ndevia me preocupar com você querer voltar sozinho.
O carro saiu devagar do\nestacionamento, as luzes dos postes refletindo no para-brisa e as primeiras\ncurvas da noite se desenhando pela frente.

