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As Primeiras Crônicas Temporais – Variações
Capítulo 3 - Entre o que Foi Dito e o que Foi Escondido
2592 palavras • 16514 caracteres • ⏱ 10 min 22 s

Capítulo 3 - Entre o que Foi Dito e o que Foi Escondido

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Ao\ncruzar a porta, Guilherme foi tomado por um baque silencioso. Esperava\nencontrar poeira, bagunça, o caos de um eremita solitário — mas a realidade era\ncompletamente oposta.


O interior da casa era limpo,\norganizado e aconchegante, como se alguém se esforçasse para manter tudo em\nordem, apesar da aparência desgastada do lado de fora. As paredes, de um tom verde\nclaro, estavam bem pintadas; o chão, de cimento queimado escuro, reluzia sob a\nluz natural que entrava pelas janelas. Um sofá de couro antigo, porém bem\ncuidado, ocupava parte da sala, junto a uma estante discreta com livros\nempilhados e porta-retratos virados para baixo.


Beto entrou atrás de\nGuilherme, olhando ao redor com a testa franzida. Havia ali um desconforto\ndisfarçado de curiosidade, como se tudo fosse mais silencioso do que deveria\nser.


Eles mal haviam passado pela porta\nquando Beto, hesitante, quebrou o silêncio:


— O senhor é o... Sr.\nSoares, certo?


O homem, que estava à\ndireita, na cozinha, servindo Coca-Cola em três copos, virou levemente o rosto.\nOs cabelos escuros e ondulados caíam até os ombros e os olhos eram fundos,\natentos, como os de alguém que já viu mais do que gostaria.


— Soares é o sobrenome\nda mãe dele. — respondeu com voz grave, sem agressividade, mas com certo peso.\n— Meu nome é Gabriel Carvalho.


Guilherme assentiu,\nembora não estivesse totalmente certo do que sentir ao ouvir aquilo. Não estava\nacostumado a assinar Carvalho, mas o possuía em seus documentos.


— Sentem aí. — Gabriel\napontou com o queixo para a mesa de madeira entre a sala e a cozinha, sem\ninterromper o gesto de servir.


Os dois obedeceram.\nGuilherme escolheu a cadeira da ponta e Beto se acomodou ao lado, ainda com o\nolhar girando entre os móveis arrumados, o ambiente limpo demais, e a presença\nde um homem que até pouco tempo atrás era só uma ausência.


Gabriel colocou os copos com calma sobre\na mesa e sentou-se. Os garotos o imitaram, mas sem muita vontade.


O silêncio se alongou, até que\nGuilherme, sem desviar os olhos do pai, disse o que viera entalado na garganta\ndesde a noite anterior, quando ensaiou aquelas palavras deitado no travesseiro\ngelado de seu quarto:


— Por que você foi\nembora?


Gabriel bebia lentamente. Engoliu.\nLimpou os cantos da boca com a palma da mão e apoiou os cotovelos sobre a mesa.


— Sua mãe não contou?


Guilherme deu um meio sorriso — sem\nhumor.


— Contou, mas ouvi...\nvárias versões.


O pai assentiu com a cabeça, uma\núnica vez, como quem aceita a resposta sem surpresa.


— Imagino.


— Teve uma época em que\ndisseram que você fugiu porque não queria pagar pensão. Depois, que era doente.\nDepois, que você era perigoso. Que mexia com coisa errada... Até ouvi que tinha\nenlouquecido.


Gabriel manteve os olhos fixos no\ncopo.


— Todas têm um pouco de\nverdade — disse, por fim.


Guilherme ficou em silêncio. Queria\nmais do que isso. Queria que ele entrasse em detalhes, pedisse desculpas,\ndissesse que foi difícil também pra ele. Mas tudo que recebia eram frases\nmedidas, controladas. E o tempo todo, o mesmo olhar — não frio, mas cauteloso.\nQuase blindado.


O peso daquele silêncio agora se\nassentava sobre os três como uma nuvem baixa, prestes a romper.


Gabriel levou o copo novamente à\nboca, como se ainda ponderasse o que dizer. Em seguida, levantou o olhar para\nBeto, que mantinha o corpo levemente curvado e os olhos fixos no homem, um\npouco trêmulo.


— E você? — perguntou,\ndireto. — Quem é?


Beto se ajeitou na cadeira.


— Eu sou o Roberto. A\ngente estuda junto. Vim com o Guilherme porquê...


— Ele é meu amigo —\ninterrompeu Guilherme, cortando com a voz mais alta do que pretendia. — Mas eu\nvim aqui pra ouvir de você. Não das pessoas. Não da minha mãe. Não de papéis\nguardados. De você.


O silêncio voltou por um segundo,\ndenso como fumaça de pneu queimado.


— Você sabia que as\npessoas diziam que você era louco?


Gabriel não respondeu de imediato.\nBeto tossiu, quase se engasgando.


Ainda com os cotovelos na mesa, Gabriel\nentrelaçou os dedos e recostou-se na cadeira, encarando o espaço vazio logo\nacima da cabeça do filho, como se aquilo o poupasse do contato direto.


— Eu sei o que dizem.\nSempre soube.


— E fez o quê com isso?\n— insistiu Guilherme. — Ficou aqui, se escondendo? Fingindo que não tem um filho?


Gabriel respirou fundo, os ombros\nsubindo e descendo lentamente. Ainda não era o tipo de homem que explodia ou\ngritava — seu silêncio era o grito contido de quem carrega culpa sem admitir.


— Sabe por que ninguém\nconsegue contar a mesma versão da minha partida? — perguntou ele, finalmente. —\nPorque ninguém entendeu direito o que aconteceu. Nem eu.


Guilherme cerrou os\npunhos sob a mesa.


— Eu tenho direito de\nsaber! Mesmo que seja pra odiar você de forma justa!


Gabriel assentiu uma vez, de forma\nlenta. Seus olhos — até então pesados — ficaram mais atentos, mais fixos, e\npela primeira vez houve uma rachadura em sua couraça. Era pequena, quase\nimperceptível. Mas estava lá.


Gabriel passou a mão pela barba,\ncomo se recolhesse forças num gesto automático. Em seguida, pousou os\nantebraços sobre a mesa e falou, pela primeira vez, com peso real na voz:


— Eu era físico. Fui\ncontratado pelo Exército quando ainda nem tinha terminado o doutorado. Fui\nmandado pra um laboratório em Minas Gerais, depois transferido pra São Paulo.\nFazia parte de um grupo chamado “Coordenação de Inteligência Operacional\nAvançada” — nunca apareceu oficialmente em documento nenhum. Meu último\ntrabalho foi em janeiro de 1996, em Varginha.


Beto arqueou as\nsobrancelhas, boquiaberto e ele pousou o copo com um leve estalo sobre a mesa,\nsoltando um grunhido surpreso. Guilherme riu com ironia, balançando a cabeça\ncomo quem ouve uma história mal contada.


— Varginha? Ah, tá bom.\nAgora vem me dizer que o ET era real?


Beto virou-se para ele, os olhos\nsérios.


— Talvez não seja\nmentira, Gui. Deixa ele continuar.


Gabriel apenas\nobservava os dois, impassível, como se já tivesse passado por essa desconfiança\nantes — e cansado de tentar convencer.


— Sua mãe estava\ngrávida quando tudo desmoronou. Depois de Varginha, me afastaram. Disseram que\niam me reintegrar em breve. Nunca aconteceu. Me isolaram, tiraram meu acesso,\nme mandaram embora com uma aposentadoria precoce e um acordo de silêncio.


— Foi aí que ela voltou\npra Serro Velho... — disse Guilherme, mais para si.


Gabriel assentiu.


— Eu fui atrás. Por um\ntempo. Mas eu... — fez uma pausa, esfregando o canto do olho com o polegar —\nentrei num buraco. Bebi demais, fumei demais. Me afastei de tudo. Só continuei\ntrabalhando... nas minhas coisas.


Beto recuou na cadeira,\nclaramente desconfortável, mas fascinado. Guilherme mantinha os olhos no pai,\ntentando decifrar a verdade atrás daquela voz calma demais.


— Vivo com a\naposentadoria militar. É assim que pago a pensão. É assim que como. E foi assim\nque sobrevivi até hoje, sendo chamado de louco por todo mundo. Porque se você\nabre a boca... você desaparece. Ou acaba como meu pai.


Guilherme franziu a\ntesta.


— Meu avô? O que\naconteceu com ele?


Gabriel pegou o copo com calma,\ngirando-o lentamente sob os dedos, como se buscasse as palavras dentro da borda\nde vidro. Um sorriso escapou, amargo, como quem revive algo antigo.


— Você já ouviu falar\nda Operação Prato?


— Sim — respondeu Beto,\nquase em prontidão.


— Não — disse\nGuilherme, ao mesmo tempo. O uníssono criou um silêncio breve, quase cômico,\nantes de Gabriel continuar.


— Foi uma operação\nmilitar em 1977, no Pará. A Aeronáutica mandou agentes pro interior do estado\nporque dezenas de pessoas relataram luzes no céu. Algumas foram queimadas,\noutras ficaram em coma. E outras... sumiram. Oficialmente, foi arquivado como\n“histeria coletiva”. Mas meu pai era um dos investigadores. Ele viu as coisas.\nE mais do que isso... ele entendeu o que viu.


— E isso tem a ver com\na morte dele? — Guilherme perguntou, a voz mais baixa agora.


— Tem. — Gabriel se\nendireitou na cadeira, os olhos cravados nos do filho. — Porque é isso que\nacontece quando você sabe o que eles não querem que você saiba.


Guilherme manteve os\nolhos fixos no pai.


— Eles quem?


— O governo. O\nVaticano. Ou sei lá como você queira chamar. — Ele deu de ombros. — O nome\nmuda. O poder, não.


Beto soltou um “eu\nsabia” empolgado, os olhos brilhando, como se todas as teorias que ele\nalimentava desde criança tivessem finalmente ganhado corpo.


Mas antes que qualquer\num pudesse dizer algo, uma luz azul intensa invadiu a cozinha pela porta dos\nfundos, brilhando no peso fosco com força. Era uma luz viva, pulsante, como a\nde um reator ou de algo que não pertencia àquela casa.


Guilherme se virou imediatamente.


— O que é isso? O que\ntem lá atrás?


Gabriel se levantou de\nforma brusca, puxando a cadeira consigo e indo até a porta dos fundos em dois\npassos largos. Fechou com força, trancando o trinco de metal com um estalo.


Virou-se devagar.


— Nada.


Guilherme se adiantou,\nimpulsionado pela curiosidade — ou talvez pela necessidade de confirmar que\naquilo tudo não era um delírio. Deu dois passos, mas parou bruscamente ao ver que\no pai continuava postado diante da porta dos fundos, os braços abertos como uma\nbarreira silenciosa, bloqueando a passagem. Os ombros largos preenchiam o vão,\ne seu olhar era o de quem não aceitaria questionamentos.


Beto recuou\nautomaticamente, dois passos cautelosos para longe da cozinha, como se\nesperasse que alguma coisa explodisse a qualquer momento.


E então, o som de um\ncarro subindo a estrada de terra rompeu o silêncio da casa. Pneus rangendo,\npedra contra pedra. Barulho abafado de motor.


Gabriel endureceu. Seus\nolhos se estreitaram, e por um instante pareceu ouvir mais com o corpo do que\ncom os ouvidos. Virou-se devagar para os dois garotos, a voz baixa, firme:


— Alguém mais sabe que\nvocês vieram aqui?


Guilherme e Beto se\nentreolharam, pegos de surpresa. Nenhum dos dois teve tempo de responder. Gabriel\nse moveu rapidamente até a geladeira. Atrás dela, numa pequena fresta entre o\neletrodoméstico e a parede, puxou uma espingarda antiga de cano longo, com o\nmetal escurecido pelo tempo. Verificou a câmara com precisão mecânica, como\nalguém que já fez aquilo centenas de vezes. Sem dizer mais nada, caminhou com\npassos pesados em direção à porta da frente.


Beto engoliu em seco.


— Eu disse que tinha\numa espingarda... — murmurou, mais pra si do que pra alguém.


Guilherme apenas deu de\nombros. O medo vinha, sim — mas não do pai. Era outra coisa. Algo que crescia\nconforme ele se movia atrás dele, com os olhos fixos nas costas largas, no som\nseco da madeira rangendo sob as botas.


A porta já estava\naberta quando Guilherme alcançou o alpendre. O sol do meio da tarde batia\nforte, mas havia uma tensão opaca no ar, como antes de uma tempestade. E então,\nsentiu o braço do pai se estender, firme, cruzando seu peito.


Um gesto instintivo — contido,\nprotetor, silencioso.


Guilherme parou,\nsurpreso. O toque do pai era quente, pesado. Não doía. Mas dizia algo. E o\ncoração dele respondeu antes que qualquer pensamento pudesse articular o que\nsentia. Foi medo. Foi adrenalina. Mas também foi... cuidado. Talvez pela\nprimeira vez na vida.


Lá em cima, na estrada\nde terra, um carro preto estava parado diante da porteira. Moderno, limpo,\ndestoando completamente do ambiente rural. Vidros escurecidos. Motor ainda\nligado.


A porta traseira se\nabriu devagar, rangendo. Mas ninguém saiu.


O interior escuro do\ncarro era uma boca aberta de sombra, e o tempo parecia desacelerar. O vento\nestagnou. Os pássaros calaram. Até os cachorros, antes barulhentos, agora\nobservavam em silêncio.


Beto se aproximou pela\nlateral, cauteloso.


— O senhor tá esperando\nalguém?


Gabriel respondeu sem\ntirar os olhos do carro:


— Eu não recebo\nvisitas.


O carro permaneceu\nimóvel. A porta, aberta. O espaço vazio, como uma ameaça invisível. O que quer\nque estivesse ali... ainda não tinha se mostrado.


A porta traseira do\ncarro finalmente se moveu novamente. Um tênis branco pisou na terra vermelha,\ndepois outro. Manuela saltou do carro usando um jeans rasgado e um camisa verde\nde manga dobrada. O cabelo estava preso para o alto com uma bandana vermelha\nestampada, o nó formando um pequeno laço bagunçada sobre a cabeça. Por um\ninstante, ela pareceu conversar com alguém dentro do carro, depois fez uma\ncareta, acenou para a porta da casa com um sorriso sem graça, e bateu à porta\natrás de si. O carro acelerou, sumindo em uma curva mais à frente e deixando\nmais poeira.


Gabriel franziu a\ntesta.


— Vocês a conhecem?


— Sim! — respondeu\nBeto. — É a Manuela. É nossa amiga.


Antes que qualquer\noutro gesto fosse feito, Guilherme se soltou do braço protetor do pai e\ncaminhou com firmeza até a escada do alpendre.


— Manu? Como você\nchegou aqui?


Ela sorriu, um pouco\nsem jeito.


— Ué, você mandou o\nendereço no grupo semana passada, lembra? A gente brigou, sei que fui um pouco\nexagerada, mas foi preocupação... depois eu fiquei pensando… — baixou o olhar —\n…e me arrependi. Queria te apoiar, desculpa!


Guilherme deu um meio\nsorriso, tocado e constrangido ao mesmo tempo.


— Tá tudo bem...


Beto se aproximou pela\nlateral, ainda tirando a poeira da calça, e Gabriel permaneceu firme, sem\nbaixar a espingarda, mas também sem apontá-la.


Manuela olhou para ele\ncom um olhar de cima a baixo, tentando disfarçar, mas a repulsa escapou por seu\nrosto antes que pudesse controlar.


— É ele? Seu pai?


Guilherme assentiu com\num movimento sutil de cabeça.


Gabriel arqueou uma\nsobrancelha.


— Vocês dois namoram?


— Não! — responderam os\ntrês ao mesmo tempo, com o mesmo tom de "eca", quase coreografado.\nGuilherme olhou para o pai, Beto virou o rosto vermelho, e Manuela cruzou os\nbraços com a testa franzida.


— Alguém aí vai abrir\nessa porteira pra uma dama ou vou ter que estragar meu esmalte?


Gabriel deu um passo à\nfrente, firme, sem sorrir.


— Hoje, não! Os meninos\njá estão de saída. A visita acabou.


Guilherme se virou,\nfrustrado.


— Como assim acabou? A\ngente nem...


O estampido cortou o\nar. O tiro ecoou alto, seco, e voou para cima. Pássaros alçaram voo da copa das\nárvores, cachorros começaram a latir desesperados, e Beto caiu de bunda no\nchão, os olhos arregalados. Manuela recuou dois passos, instintivamente protegendo\no rosto com as mãos.


Guilherme não se moveu.\nO coração disparou, mas não era medo puro — era fúria contida, incredulidade.\nOlhou para o pai com os olhos arregalados, o corpo tenso.


Gabriel manteve a\nespingarda firme, apontada para o céu. A fumaça ainda escapava pelo cano. Seus\nolhos voltaram para o filho, frios, diretos.


— Eu disse que acabou.


A frase saiu baixa,\npausada, quase soletrada.


O ar ao redor parecia\nter perdido o som. Gabriel desceu os três degraus da varanda devagar, a\nespingarda agora apoiada de lado contra a costela, o cano ainda quente voltado\npara cima. Abriu a porteira com um gesto firme, o rangido da madeira\ncontrastando com o silêncio desconfortável entre os adolescentes.


— À vontade, senhores...\n— disse, num tom cordial que soou mais como zombaria. — Obrigado pela visita.\nEspero que a Coca-Cola tenha agradado.


Beto passou primeiro,\nrápido, ainda olhando por cima do ombro. Guilherme foi em seguida, o olhar\nainda grudado no pai.


Gabriel esperou que os\ndois atravessassem, então fechou a porteira com um estalo seco, como se\nencerrasse ali um capítulo que nunca quis abrir. Sem mais uma palavra, virou-se\nde volta para a casa, os passos pesados afundando na terra. A porta se fechou\ncom força, fazendo os vidros da janela tremerem.


Manuela chutou uma\npedrinha com o tênis branco, e soltou um suspiro indignado.


— Que cara\nhospitaleiro, né?


Beto bufou, ainda com\nos ombros tensos.


— Você não sabe da\nmissa a metade!


Guilherme permaneceu em\nsilêncio. Os olhos fixos à frente, perdidos no pensamento, mesmo com o murmúrio\ndos amigos ecoando atrás de si. Parecia que parte dele ainda estava lá dentro,\nnaquela cozinha. Ou talvez mais além, atrás daquela porta trancada que nunca\nchegou a ver.


E então ele falou,\nfirme, como se para si mesmo:


— Eu vou voltar!


Beto virou o rosto.


— Como assim,\nExterminador do Futuro!?


Manuela arregalou os\nolhos, cruzando os braços.


— Tá maluco? Ele quase\nmatou a gente!


— Ah, exagero! —\nretrucou Beto, mas nem ele soava tão certo disso.


Guilherme não\nrespondeu. Seu olhar permanecia cravado no galpão ao fundo da casa, aquele onde\na luz azul tinha piscado e invadido a cozinha. A lembrança ainda queimava na\nretina.


Depois de alguns\nsegundos, ele repetiu:


— Vou voltar à noite


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