As luzes coloridas do picadeiro\ndançavam nos olhos de Guilherme, que assistia hipnotizado ao número dos\nequilibristas. O cheiro de pipoca, serragem e suor pairava no ar, misturado ao\nmurmúrio ansioso da plateia. Mas então, um estalo seco ecoou pelo circo,\nseguido por gritos. Uma fumaça cinza começou a se erguer por trás das cortinas\nvermelhas. Alguém gritou “fogo!”, e o caos se instaurou.
Pessoas corriam em todas as\ndireções. Crianças choravam, adultos empurravam. Guilherme se levantou\nbruscamente, tentando achar uma saída. Esbarrou em um vendedor de balões,\ntropeçou em uma bengala caída, sentiu o calor das chamas se aproximando. Sem\nsaber como, se viu nos fundos do circo, atrás do picadeiro, onde o som da\nmultidão era abafado pelas lonas grossas.
Um homem surgiu da penumbra, com\no rosto parcialmente coberto de fuligem, e segurou Guilherme pelos ombros.
— Você está ouvindo o que eu\nestou dizendo ou está só com essa cara de pastel me olhando? — a voz do homem\nera áspera, cortante, como um balde de água fria.
De repente, tudo tremeu. O cheiro\nde fumaça virou cheiro de giz. O fundo do circo sumiu, e o som da plateia foi\nsubstituído pelo zumbido fluorescente da sala de aula. Guilherme piscou,\natordoado. Estava sentado na penúltima carteira, com o caderno em branco diante\nde si. A voz não era mais a de um estranho nos bastidores do circo — era de\nFernando, o professor de Sociologia, parado bem ao seu lado com os braços\ncruzados.
— Guilherme... se o senhor já\nterminou seu sono, poderia me dizer qual foi o impacto do incêndio na\nperspectiva do personagem principal da música que analisamos? — perguntou, sem\nolhá-lo, virando-se novamente para a frente da sala e caminhando em direção ao\nquadro. Guilherme limpou a baba no canto da boca e olhou para Jordana, depois\npara Roberto e, por último, para Manuela. Todos o olhavam com certa inquietude,\nenquanto o restante da sala o encarava com sorrisos de deboche.
— Que... possivelmente ele\nsobreviveu ao incêndio... ou não teria música. — disse, sem nenhuma certeza do\nque estava dizendo. Jordana e Roberto riram, Manuela revirou os olhos, e o\nresto da turma começou um murmurinho de zombaria.
— Certamente, Guilherme, o nosso\npersonagem não estava presente no incidente, mas você sabe que a resposta para\na pergunta não era exatamente essa. — Fernando soava um tanto impaciente, mas\nparecia não se importar muito, já que agora voltava a escrever no quadro. — Se\nvocê acha que a aula não é interessante, fique à vontade para se retirar e\ntalvez continuar dormindo na sala da diretora...
Antes mesmo que Guilherme pudesse\nresponder, o sinal tocou e a movimentação de mochilas e cadernos começou. Uma\naula de Sociologia no último tempo de uma sexta-feira era um martírio para quem\ntinha apenas dezessete anos.
— Menino, você não dorme em casa,\nnão? — perguntou Manuela, jogando sua mochila rosa nas costas. Logo à sua\nfrente, Roberto terminava de fechar o zíper da própria mochila, e Jordana se\njuntava a eles.
— Até que foi uma resposta\ncriativa! — exclamou, apertando a bochecha esquerda de Guilherme. Jordana\nPascoal tinha algo de etéreo — uma presença delicada, quase encantada, como se\npertencesse a um mundo entre o clássico e o moderno. Seus cabelos loiros,\ngeralmente caindo em ondas suaves sobre os ombros, tinham o brilho do ouro\npálido, quase castanhos. O rosto, moldado por traços finos e expressivos, era\ndominado por olhos claros e atentos, quase sempre iluminados por uma\ncuriosidade serena — talvez por isso tirasse boas notas. Seu olhar, ora doce,\nora cortante, parecia enxergar mais do que revelava. O nariz pequeno,\nligeiramente arrebitado, dava-lhe um ar jovial que contrastava com a maturidade\nsilenciosa que sua postura transmitia. Os lábios, desenhados com precisão,\nfrequentemente se curvavam em sorrisos discretos, mas nunca vazios — havia\nsempre um pensamento por trás deles, uma frase não dita. Baixa, mas não impotente,\nela se movia de forma um tanto desleixada. E embora seu estilo variasse entre o\nminimalismo e o charme grunge, sempre havia algo nela que evocava as estrelas\nde uma era dourada de Hollywood — como se carregasse dentro de si memórias que\nnão viveu, mas que, de algum modo, pertenciam a ela. Guilherme tinha quase\ncerteza de que Roberto era apaixonado por ela, mas nunca tivera coragem de\ntocar no assunto.
— É hoje, não é? — perguntou o\ngaroto. Roberto era um poço de informações, mais precisamente sobre o seriado\nmexicano Chaves. Uma enciclopédia viva sobre a produção. No geral,\nRoberto — ou melhor, Beto — era uma presença tranquila. Não tinha porte\natlético, sendo facilmente confundido com um nerd não estereotipado. A pele, de\ntom quente como mogno ao entardecer, reluzia sutilmente sob a luz, como bronze\npolido. Os olhos escuros, profundos e vivos, pareciam sempre à beira de um\npensamento importante — atentos ao que o mundo dizia, mas também ao que deixava\nde dizer. Suas sobrancelhas, bem definidas e cheias, acentuavam ainda mais a\nexpressividade do rosto, que podia alternar com naturalidade entre o carisma de\num sorriso sincero e a intensidade de um silêncio reflexivo. Os lábios largos,\nmuitas vezes curvados em um sorriso gentil, davam a ele um ar acessível e\nautêntico, quase angelical com as bochechas cheias. O maxilar redondo e o corte\nde cabelo sempre alinhado completavam a imagem de alguém que carrega estilo com\nsimplicidade, sem esforço. Era como se estivesse sempre exatamente onde deveria\nestar, com os dois pés no chão e o olhar voltado para além.
— O que é que tem hoje? —\nperguntou Manuela, se ajeitando entre Beto e Guilherme. Manu era assim, entrava\nsem fazer cerimônias. Não precisava anunciar presença — sua confiança preenchia\no espaço antes mesmo das palavras. Tinha uma beleza luminosa, dessas que não se\nimpõem, mas cativam. A pele negra era tão bem hidratada que parecia absorver e\nrefletir a luz ao mesmo tempo. Desde nova fazia ensaios fotográficos, pois\nsonhava em ser modelo, o que lhe rendia um repertório vasto de expressões. Seus\nolhos castanhos, intensos e ágeis, pareciam sempre prontos para captar um\ndetalhe, uma piada, um segredo. Havia neles algo brincalhão, mas também firme —\no tipo de olhar que sabe exatamente o que quer e não se perde à toa. Os cílios\nlongos emolduravam os olhos como traços de quem nasceu para brilhar. Os lábios,\ncheios e móveis, pareciam feitos para a eloquência verbal — sempre cobertos por\num batom de tom rubro. Cada expressão, cada mudança sutil no rosto, dizia mais\ndo que muitas frases. Os traços do rosto eram equilibrados e expressivos, com\nmaçãs do rosto bem definidas e um queixo firme, que sustentava não só a forma\ndo rosto, mas também sua postura de alguém que cresceu sabendo seu valor. O\ncabelo, longo e liso, carregava sua identidade com cuidado e versatilidade. E\nhavia ainda a forma como se portava: meiga e debochada, como quem dança sem\nensaiar, mas acerta todos os passos. Manu não apenas ocupava o espaço — ela o\ntransformava.
— Vou encontrar meu pai. — disse\nGuilherme, ajeitando a mochila nas costas. Houve um pequeno silêncio, o que o\nincomodou um pouco. Jordana, que estava sempre atenta, segurou o braço de\nGuilherme a fim de mostrar que ele não estava sozinho. Suas bochechas coraram,\nainda mais quando viu que Beto e Manu perceberam a atitude da amiga. Houve mais\num momento de silêncio constrangedor até que Manu decidiu se pronunciar:
— E se nós fôssemos com você, o\nque acha? — perguntou, segurando a mão de Guilherme. Beto pareceu aprovar a\nideia, pois logo consentiu. Contudo, Jordana foi a única que pareceu não gostar\nda proposta, recuando de imediato e soltando o braço do amigo.
— Infelizmente, desta vez não vou\npoder ir junto, galera. Tenho que ajudar minha mãe no trabalho, e ela é bem\nchata quanto a isso. — respondeu, torcendo os lábios. Na verdade, Jordana\nrealmente trabalhava com sua mãe na banca de jornal da praça central. Mas\nGuilherme sentiu que aquilo só veio a calhar diante da situação da qual ela não\nqueria fazer parte.
Manu, sem pensar duas vezes,\npegou Beto e Guilherme pelos braços, quase atropelando Júlia no meio do\ncaminho.
— Tudo bem, depois nós contamos\npara você como foi. Beijinhos! — disse Manuela, puxando os dois garotos pela\nsala já vazia. — Sonsa... — sussurrou, empurrando os meninos porta afora.
Guilherme nunca havia conhecido\nseu pai; as únicas coisas que sabia sobre o homem eram histórias contadas por\nseus familiares do lado materno — pedaços de um quebra-cabeça que não se\nencaixavam muito bem. Fazia algumas semanas que vinha trocando mensagens com um\nprimo, que lhe deu o endereço de onde seu progenitor residia atualmente — um\nsítio, pelo que as coordenadas do Google Maps indicavam. Manu, Beto e Guilherme\nse separaram no andar inferior da escola. Guilherme disse que precisava ir ao\nbanheiro, já que Manu não queria que perdessem mais tempo e propôs que fossem\ndireto da escola para o endereço. Por isso, pediu alguns minutos sozinho.
Foi então que ele encarou seu\nreflexo no espelho manchado do banheiro masculino, onde o granito cinza das\npias contrastava com a pintura bege das paredes, interrompida apenas por faixas\nhorizontais de azulejo branco. Nunca fora do tipo galã. Passou boa parte do\nensino fundamental sofrendo bullying por conta de seu peso e sexualidade,\nganhando um pouco de destaque só depois que atingiu a puberdade, no início do\nsegundo ano do ensino médio. Era o mais velho da turma — havia repetido um ano\nna antiga escola e entrara atrasado no maternal —, então naquela altura já\npossuía um pouco de barba, diferente dos outros meninos. Tinha aquele tipo de\npresença que parecia grande demais para os corredores do colégio, o que lhe\ntrazia certo respeito. Guilherme carregava os ombros largos de quem estava\ncrescendo rápido, sem que o corpo ainda tivesse decidido exatamente onde\nencaixar tudo. Era troncudo, firme, com braços pesados e um peito que já\ncomeçava a dar sombra na camiseta — não era gordo, mas definitivamente também\nnão era magro. Tinha um corpo de quem sempre teve força, mesmo sem se dar muito\nconta disso. O rosto era redondo, com maxilar marcado e queixo largo, mas havia\ntraços suaves também — principalmente quando ele sorria daquele jeito meio\ntorto, como se estivesse sempre prestes a fazer uma piada. Os olhos, de um\ncastanho quase negro, carregavam um olhar pensativo, às vezes meio distante,\ncomo se sempre houvesse algo mais acontecendo por trás dos seus longos\nsilêncios. Os cabelos, castanhos escuros e grossos, caíam com rebeldia sobre a\ntesta, e ele vivia empurrando-os de lado, impaciente. Às vezes parecia mais\nvelho do que era, pelo tamanho, pela voz já grave, pelo jeito de cruzar os\nbraços quando se encostava na parede. Mas bastava se distrair rindo com os\namigos ou xingando baixinho o professor de Biologia para lembrar que ainda era\num garoto — só um que, por acaso, parecia já estar ensaiando para ser homem.
Levou o rosto\njunto à pia para lavá-lo, tentando espantar qualquer vestígio de sono ou\npreguiça que pudesse estar evidente. Sem levantar a cabeça, puxou o papel\ntoalha para se secar e encarar novamente seu reflexo. Foi quando deu um pulo e\nsentiu que o coração ia sair pela boca: logo atrás de si, uma menina estava\nparada, encarando-o. Seu rosto estava parcialmente queimado, o cabelo\nchamuscado e o vestido violeta, cheio de buracos. Ela o observava pelo espelho\ncom um semblante triste. Guilherme nunca tivera medo de fantasmas ou\nassombrações, mas aquilo o pegou totalmente desprevenido — e não podia ser\nreal.
Mais que\ndepressa, virou-se, apoiando-se com força na pia às suas costas, mas não\nencontrou menina alguma. Era só ele, as cabines e os mictórios. Esfregou os\nolhos, enfiando a mão na lateral da mochila, de onde tirou uma caixinha de\nremédios e um maço de cigarros. Colocou o comprimido na boca e o engoliu sem\nágua. Depois foi a vez do cigarro, mas, quando levou o isqueiro à ponta do\ntabaco, a palavra "fogo" ecoou em sua cabeça. Ele se encarou\nnovamente no espelho — estava mais pálido do que de costume. A claridade fria\nda luz fluorescente, refletida nas cerâmicas úmidas do chão, só deixava tudo\nainda mais irreal. — Que se foda! — disse, acendendo o cigarro e saindo o mais\nrápido possível do banheiro.
Não se\nlembrava de ter andado tão rápido por aqueles corredores desde que quase\nperdera a prova de matemática no último bimestre. As paredes brancas e azulejo\nbranco até meia altura, pareciam se esticar como túneis clínicos, sem vida.\nAquela aparição era muito semelhante ao sonho que tivera há poucos minutos\ndurante a aula. Por que estava tendo pesadelos tão específicos? E agora\nalucinações? Só poderiam ser alucinações — porque fantasmas não apareciam sem\numa conexão direta com a pessoa viva, pelo menos era o que ele acreditava.
Desceu as\nescadas de cimento do terceiro pátio o mais rápido que pôde, o cigarro balançando\nna boca e deixando fumaça por onde passava. Por aquele caminho, ele passaria em\nfrente à sala dos professores — e daria uma merda grande se o pegassem fumando,\nainda mais sendo menor de idade. Virou à esquerda, passando pelo pequeno\ncorredor entre as rampas e o primeiro prédio — de um tom azul-claro com\ndetalhes em laranja —, que brilhava sob o sol do meio-dia, onde costumavam\ndeixar as bicicletas.
Estava tão\nperdido em pensamentos, olhando para trás, que acabou trombando com algo\ngrande. O cigarro caiu de sua boca, e Guilherme cambaleou, apoiando-se na\nparede mais próxima. Ergueu os olhos para encarar o que havia interrompido sua\nfuga: parado à sua frente estava um homem de elegância natural, contudo\nlevemente desalinhada, como quem prefere o conforto ao espetáculo. Alto, com\nombros largos e postura relaxada, seu corpo transmitia a calma de alguém\nacostumado a observar antes de agir — mesmo com o susto recente.
Seu rosto\nalongado, com maxilar firme e traços maduros suavizados por uma barba um tanto\ncheia que emoldurava o queixo e o lábio superior com sobriedade, se contraiu,\nrevelando marcas de expressão. Os olhos, de um castanho claro quase âmbar,\ntraziam uma leve ironia — como se sempre houvesse um comentário espirituoso à\nbeira da boca, mesmo que ele escolhesse não o dizer.
— O que você\npensa que está fazendo? — perguntou ele, pisando no cigarro caído para apagá-lo\ne olhando para trás. Com as mãos, o homem segurou Guilherme pelos ombros e o\nfez recuar até a sombra do prédio. Passou os dedos pelos cabelos curtos,\ncastanho-escuros e levemente ondulados, que antes penteados com simplicidade se\nbagunçaram entre os sutis fios grisalhos nas têmporas — o tipo de detalhe que\nnão esconde a idade, mas a carrega com dignidade. A testa ligeiramente ampla,\nsomada às sobrancelhas expressivas, acentuava a intensidade de seu olhar.
Agora\nGuilherme entendia por que sentira que havia trombado com uma mureta. Paulo, o\nprofessor de Educação Física, o encarava com as mãos na cintura. Seu porte\nlevemente encorpado — que poderia facilmente ser descrito como “cheinho” —\nestava projetado para a frente, e definitivamente aquela camisa azul parecia\nser um número menor do que o adequado. Guilherme lembrava de boa parte de seus\nantigos professores de Educação Física, e nenhum deles era levemente roliço.\nPaulo não se encaixava nos padrões atléticos tradicionais, mas justamente por\nisso carregava um ar mais real, humano e próximo, o que tornava sua presença\nainda mais cativante.
— Eu\nestava... — não conseguiu terminar a frase. As mãos quentes de Paulo seguraram\nseu rosto e o prenderam em um beijo forte. Guilherme retribuiu por alguns\nsegundos, depois lembrou onde estava.
— O que VOCÊ\npensa que está fazendo? — disse, segurando o professor pela camisa e\nempurrando-o contra a parede. — Estamos na escola, Paulo! — Percebeu que estava\nfalando alto demais e então diminuiu o tom, soltando a camisa do homem. — Quer\nser preso? Quer perder o emprego? Quer que eu seja expulso? — perguntou tudo de\numa vez, em tom sussurrado, mas incisivo.
Paulo riu,\nolhando-o nos olhos.
— Já foi todo\nmundo embora, Gui! — afirmou com toda a certeza do mundo, entrelaçando seus\ndedos nos dele. — E se te pegarem fumando por aí, você vai ter encrenca de\nqualquer forma — continuou, usando a outra mão para puxar Guilherme pela\ncintura.
— Em partes,\nvocê tem razão. — concordou Guilherme, tenso, sentindo Paulo respirar próximo\nao seu pescoço. — Mas eu tenho que ir. O pessoal está me esperando no portão.
— É hoje, não\né? Você vai ver seu pai.
— É.
— O que foi?\nNão está animado? — perguntou Paulo, se desvinculando do corpo de Guilherme e\nencostando-se de braços cruzados na parede às suas costas.
— Estou\ntenso.
— É por isso\nque estava correndo como se tivesse visto um fantasma? — As palavras de Paulo\nsaíram com leveza e seu olhar percorreu todo o caminho entre o corredor por\nonde Guilherme viera até ele.
— Na verdade,\neu estava...
— O que está\nacontecendo aqui?
Uma terceira\nvoz surgiu, vindo da mesma direção por onde Paulo havia aparecido. Parado a uns\ndois metros deles estava Marcos, o professor de Física. De estatura alta e\npostura ereta, seu corpo era esguio e bem proporcionado, com traços que\nlembravam um galã clássico — mas com uma aura de mistério que o tornava ainda\nmais interessante, principalmente entre as alunas. Seu rosto era anguloso, com\nmaçãs marcadas, criando um perfil que transmitia inteligência e severidade\nmesmo no silêncio. A barba, aparada com precisão, cobria parte do queixo e das\nbochechas com sobriedade, reforçando sua imagem madura e sofisticada.
— A Manuela\nestá te procurando por toda a escola, Guilherme! — disse Marcos, ainda em tom\nde suspeita e autoridade.
Guilherme\nsempre achou que os olhos castanho-claros de Marcos eram seu maior ponto de\nmagnetismo: introspectivos, quase melancólicos, pareciam observar o mundo com\num olhar analítico — como se tudo ao redor pudesse ser parte de um enigma a ser\nresolvido. As sobrancelhas arqueadas e expressivas acentuavam ainda mais esse\nolhar penetrante, ao mesmo tempo gentil e calculado.
— Já vou,\nprofessor. Obrigado. — disse Guilherme, corando e abaixando a cabeça.
Paulo\nmanteve-se onde estava, mordiscando o lábio inferior enquanto fuzilava Marcos\ncom os olhos.
— E Paulo, só\nfalta você na reunião. Vamos? — disse Marcos. Não estava perguntando — era\nquase uma ordem. Ele não tinha autoridade formal sobre os demais professores,\nmas conseguia fazer com que o obedecessem facilmente.
Guilherme\nolhou para Paulo de canto de olho e recebeu uma piscadela que o fez querer rir,\nmas se conteve. Passou cabisbaixo por Marcos em direção à saída.
— Ei,\nGuilherme!
Ele parou,\nvirando-se para encarar Marcos, que o chamara. O vento batia em seus cabelos\ncastanho-escuros e ondulados, sempre mantidos em comprimento médio e geralmente\npenteados de modo sutilmente desarrumado — como se quisesse exibir uma leve\nrebeldia no meio de tanta elegância. Diferente de Paulo, seu porte refletia\nmais inteligência emocional do que força física.
Guilherme não\nfora o único que parara para ouvir. Paulo — aparentemente enciumado — apoiou a\nmão no batente da sala dos professores. Marcos deu alguns passos na direção de\nGuilherme, o corpo sempre ligeiramente inclinado para frente, como se estivesse\nprestes a tomar uma decisão importante.
\n\n—\nCuidado. Não se dá para voltar no tempo — disse, com voz grave, suave e articulada\n— a impressão era de que cada palavra fora escolhida com cuidad

