O projeto estava concluído… ao menos no papel. A máquina ocupava o centro da sala de testes, silenciosa, sólida, real. Restavam apenas os procedimentos finais, alguns protocolos, validações e confirmações que existiam mais para tranquilizar a Instituição do que para garantir segurança real. Ainda assim, Victor não conseguia afastar a sensação incômoda que o acompanhava havia dias. Era familiar. O mesmo aperto de 2094. A mesma sensação de que tudo poderia dar errado.
A Kronos não escondia mais a urgência. Os pedidos haviam se transformado em ordens. Queriam resultados. Não havia espaço para dúvidas, nem para recuos de última hora.
Victor, Helena e Ulisses sabiam exatamente o que estavam prestes a fazer.
Ativar algo que ninguém jamais havia tocado: o tempo.
O primeiro teste prático foi anunciado sem cerimônia.
O objetivo parecia simples — quase banal, se descrito em poucas palavras: enviar uma pequena sonda metálica cinco minutos ao passado. Apenas cinco. Nenhuma interferência humana sem nenhuma alteração visível.
Se funcionasse, não haveria mais discussão.
Dentro da sala de testes, o ar parecia mais denso. Técnicos e supervisores ocupavam seus postos com precisão ensaiada. Do outro lado das barreiras de vidro, membros da alta cúpula da Kronos observavam em silêncio.
Helena mantinha o olhar fixo na máquina. As mãos cerradas com força excessiva.
Victor percebeu.
— Dessa vez, você parece mais nervosa do que eu — disse, tentando soar leve.
Ela não sorriu.
— Esse é o teste das nossas vidas — respondeu. — Se der errado… não tem como fingir que não tentamos.
— Vai dar certo — disse Victor. — Confia em mim.
Ela assentiu, mas não parecia convencida.
Faltavam poucos minutos.
Ulisses varreu a sala com o olhar até encontrá-lo. O Dr. Damian estava no fundo, imóvel, observando como quem já conhece o desfecho.
Tudo voltou de uma vez: a conversa na sala sem janelas, o cartão, a promessa não dita. A sensação de estar sendo empurrado para uma escolha que nunca quis fazer.
O estômago se revirou.
Ulisses se aproximou de Victor.
— Victor… preciso falar com você.
— Agora? — Victor franziu a testa. — Estamos prestes a iniciar o teste. O que pode ser mais importante do que isso?
Ulisses abriu a boca mas o tempo parecia escorrer entre os segundos.
— Me pediram uma coisa — disse, baixo. — Há alguns dias. Uma coisa que pode mudar tudo.
Antes que pudesse continuar, do outro lado do vidro, Damian se moveu, inclinando-se em direção ao console de controle e falou com firmeza suficiente para ser obedecido.
— Iniciem a contagem. Agora.
A sirene ecoou pela sala.
As luzes diminuíram levemente. O visor principal ganhou vida.
10… 9… 8…
Ulisses olhou para Victor. Depois para Helena. Não havia mais espaço. Nem tempo.
— Não dá mais tempo… — murmurou.
5… 4… 3… 2… 1…
A máquina ativou. E naquele instante, sem alarde, sem aviso, sem chance de correção, o mundo que eles conheciam começou a se desfazer.
Uma luz surge ao centro da sala. Não um clarão — um rasgo. Como se o espaço tivesse sido forçado além do limite.
A máquina não avançou no tempo. Ela colapsou. O ar perdeu consistência. O chão ondulou como se fosse líquido. A realidade ao redor se dobrou, comprimida em camadas impossíveis. Um vazio irregular se abriu à frente deles, pulsando de forma errática, instável — um erro que insistia em existir.
Não houve gritos. Não houve reação.
Em segundos, a sala, a máquina e os três foram engolidos.
Silêncio. Escuridão. E então, queda.
Victor sentiu o corpo ser esticado e esmagado ao mesmo tempo. Não havia direção. Nem cima. Nem baixo. A dor vinha atrasada, como se o próprio corpo demorasse a entender que ainda existia.
Depois, o impacto.
Ele ficou imóvel por um tempo que não conseguiu medir. O chão embaixo dele era duro, irregular, quente demais para a hora que deveria ser. Quando abriu os olhos, a luz o feriu — não era a luz fria do laboratório.
Victor se levantou devagar, os braços tremendo com o esforço. Virou o corpo uma vez. Depois outra.
Nenhum sinal de Helena. Nenhum sinal de Ulisses. Nenhum sinal de qualquer coisa que reconhecesse.
Ao longe, entre escombros e escuridão, algo gritou. Victor sentiu o corpo gelar…
— Onde… onde eu estou?
A pergunta ficou sem resposta.
Ulisses despertou engasgando, com poeira presa à garganta. O ar era pesado, metálico. Helena estava ao seu lado, apoiando-se nele para se manter de pé.
— Você… — a voz dela falhou. — Você tá bem?
— Acho que sim… — respondeu, sem convicção.
Ela girou lentamente, observando o entorno.
Estruturas partidas se erguiam ao redor, curvas, deformadas, como restos de algo que já fora urbano. O céu era escuro, mas não era noite. A luz parecia suspensa, sem origem definida. Fria. Morta.
Helena empalideceu.
— Ulisses… — disse, quase num sussurro. — Cadê o Victor?
Ele virou o corpo rápido demais. O movimento fez a cabeça girar.
— Ele… — parou. Olhou novamente. — Ele tava com a gente.
— Talvez… — tentou racionalizar. — Talvez tenha ido procurar ajuda.
Helena balançou a cabeça.
— Não. — A voz saiu firme demais para alguém tentando não entrar em pânico. — Tem algo errado.
— Olha esse lugar! — Ulisses respondeu, elevando o tom. — Tudo aqui tá errado!
O silêncio que veio depois foi pior.
Sem opções melhores, Helena se agarrou ao mínimo possível.
— Vamos ficar aqui hoje. Só hoje. Se ele voltar… vai procurar por nós.
Encontraram abrigo em uma estrutura metálica semi-enterrada. Antiga. Fria. Úmida. Mas sólida o suficiente para não desabar.
Dentro, o tempo passou sem medida.
Ulisses vasculhou um canto escuro e encontrou algo semelhante a um refrigerador — embora nada ali lembrasse tecnologia conhecida. Não havia fios nem fonte visível de energia. O interior era preenchido por um gel espesso, translúcido, de tom esverdeado. Frio ao toque. Reativo. Vivo demais.
— Ótimo — murmurou Helena, exausta. — Até a comida aqui parece errada.
Havia pacotes selados. Alimentos compactados. Sem marcas, sem datas, mas intactos. Comeram em silêncio.
A noite veio — se é que aquilo podia ser chamado de noite.
Victor ainda não voltou.
— Ele não foi procurar ajuda — disse Helena. — Alguma coisa aconteceu.
Ulisses encarou o horizonte deformado. Não respondeu de imediato.
— Então a gente precisa sobreviver. Descobrir onde estamos. E o que esse lugar é.
Era a única resposta possível.
No dia seguinte, a fome voltou primeiro. Depois, o medo.
Ulisses acordou antes. O frio do chão metálico atravessava o corpo. Por um segundo, acreditou que aquilo fosse um sonho. Mas o cheiro de ferrugem e poeira não desapareceu.
Levantou-se e espiou por uma abertura no abrigo. A paisagem era a mesma. Morta, imóvel e sem nenhum sinal de Victor.
Helena acordou pouco depois. Não perguntou nada. Não esperava mais respostas.
— Vamos — disse apenas. — A gente precisa continuar.
Ulisses respirou fundo.
— Vamos.
Eles deixaram o abrigo sem olhar para trás.
Naquele momento, mesmo sem dizer em voz alta, ambos entenderam:
Victor não estava apenas perdido.
Durante horas, caminharam sem trocar uma palavra. O mundo ao redor não estava morto — estava errado. A natureza havia tomado os restos da civilização sem pressa, rompendo o concreto rachado, engolindo estruturas, deformando o que sobrara. Árvores cresciam onde ruas deveriam existir. Plantas de cores opacas e formatos irregulares se espalhavam por prédios em ruínas. O ar era preenchido por sons constantes: insetos, aves e ruídos indefinidos, como se algo sempre se movesse fora de vista.
A sensação era clara — não estavam sozinhos. Apenas eram os únicos visíveis.
Ulisses mancou de repente, o rosto se contraiu quando a dor no calcanhar se intensificou.
— Preciso parar… — disse, ofegante.
Helena, exausta, mas ainda alerta, observou os arredores até identificar uma casa à frente. A estrutura estava parcialmente tomada por vegetação rasteira e galhos retorcidos, como se a própria terra tentasse escondê-la.
— Consegue aguentar até ali? — perguntou. — Vamos tentar.
Ulisses assentiu. Com esforço, alcançaram a entrada.
Antes que Helena tocasse a porta, um som veio de dentro.
Baixo, úmido e estranho, algo entre um ronco profundo e uma respiração falha.
Helena congelou.
— Você ouviu isso? — sussurrou.
— Ouvi…
— Não parece com nenhum animal.
Eles se entreolharam. Helena apontou para uma janela lateral, entreaberta, e sinalizou silêncio. Afastou com cuidado os ramos que cobriam parte da abertura e espiou para dentro.
A luz filtrada revelou uma criatura agachada no canto da sala.
O corpo era coberto por uma pele irregular, marcada por manchas esverdeadas e um brilho viscoso, como se estivesse sempre úmida. Os membros eram longos demais, dobrando-se em ângulos que não pareciam naturais. A cabeça se movia lentamente de um lado para o outro, farejando o ar, reagindo a algo que ainda não via.
Um reflexo deformado da natureza após o pulso. Algo que talvez, em outro tempo, tivesse sido familiar — e que agora existia apenas como um erro persistente do mundo.
Helena recuou lentamente, o estômago revirado. Não disse nada e nem precisou. Apenas com o olhar dela Ulisses entendeu no instante em que viu seu rosto perder a cor. O tipo de medo que não pede confirmação — apenas obedece.
Ela segurou o braço dele e puxou com cuidado, afastando-se da casa, passo por passo, como se qualquer ruído pudesse chamar atenção demais.
O som voltou a ecoar lá dentro. Um arrastar lento, um estalo seco, como ossos se ajustando. Eles se esconderam atrás de uma pedra grande coberta por raízes e musgo. Permaneceram ali, imóveis, respirando o mínimo possível.
A criatura não saiu. Mas o som continuava.
O sol começava a desaparecer no horizonte, tingindo as ruínas de um laranja opaco. A noite se aproximava — e com ela, a certeza incômoda de que aquele mundo não ficava mais seguro quando escurecia.
Ulisses engoliu em seco.
— A gente não pode ficar aqui — murmurou.
Helena concordou com um aceno curto. Sem olhar para trás, seguiram adiante, deixando a casa… e levando com eles a primeira prova de que a natureza daquele lugar havia se transformado.

