logo do projeto lunar

Capa
O Último Pulso
Capítulo 2: O Fatídico Dia
1690 palavras • 9978 caracteres • ⏱ 6 min 46 s

Capítulo 2: O Fatídico Dia

1
0
0

O projeto estava concluído… ao menos no papel. A máquina ocupava o centro da sala de testes, silenciosa, sólida, real. Restavam apenas os procedimentos finais, alguns protocolos, validações e confirmações que existiam mais para tranquilizar a Instituição do que para garantir segurança real. Ainda assim, Victor não conseguia afastar a sensação incômoda que o acompanhava havia dias. Era familiar. O mesmo aperto de 2094. A mesma sensação de que tudo poderia dar errado.

A Kronos não escondia mais a urgência. Os pedidos haviam se transformado em ordens. Queriam resultados. Não havia espaço para dúvidas, nem para recuos de última hora.

Victor, Helena e Ulisses sabiam exatamente o que estavam prestes a fazer.

Ativar algo que ninguém jamais havia tocado: o tempo.

O primeiro teste prático foi anunciado sem cerimônia.

O objetivo parecia simples — quase banal, se descrito em poucas palavras: enviar uma pequena sonda metálica cinco minutos ao passado. Apenas cinco. Nenhuma interferência humana sem nenhuma alteração visível.

Se funcionasse, não haveria mais discussão.

Dentro da sala de testes, o ar parecia mais denso. Técnicos e supervisores ocupavam seus postos com precisão ensaiada. Do outro lado das barreiras de vidro, membros da alta cúpula da Kronos observavam em silêncio.

Helena mantinha o olhar fixo na máquina. As mãos cerradas com força excessiva.

Victor percebeu.
— Dessa vez, você parece mais nervosa do que eu — disse, tentando soar leve.

Ela não sorriu.
— Esse é o teste das nossas vidas — respondeu. — Se der errado… não tem como fingir que não tentamos.

— Vai dar certo — disse Victor. — Confia em mim.

Ela assentiu, mas não parecia convencida.

Faltavam poucos minutos.

Ulisses varreu a sala com o olhar até encontrá-lo. O Dr. Damian estava no fundo, imóvel, observando como quem já conhece o desfecho.

Tudo voltou de uma vez: a conversa na sala sem janelas, o cartão, a promessa não dita. A sensação de estar sendo empurrado para uma escolha que nunca quis fazer.

O estômago se revirou.

Ulisses se aproximou de Victor.

— Victor… preciso falar com você.

— Agora? — Victor franziu a testa. — Estamos prestes a iniciar o teste. O que pode ser mais importante do que isso?

Ulisses abriu a boca mas o tempo parecia escorrer entre os segundos.
— Me pediram uma coisa — disse, baixo. — Há alguns dias. Uma coisa que pode mudar tudo.

Antes que pudesse continuar, do outro lado do vidro, Damian se moveu, inclinando-se em direção ao console de controle e falou com firmeza suficiente para ser obedecido.
— Iniciem a contagem. Agora.

A sirene ecoou pela sala.

As luzes diminuíram levemente. O visor principal ganhou vida.

10… 9… 8…

Ulisses olhou para Victor. Depois para Helena. Não havia mais espaço. Nem tempo.

— Não dá mais tempo… — murmurou.

5… 4… 3… 2… 1…

A máquina ativou. E naquele instante, sem alarde, sem aviso, sem chance de correção, o mundo que eles conheciam começou a se desfazer.

Uma luz surge ao centro da sala. Não um clarão — um rasgo. Como se o espaço tivesse sido forçado além do limite.

A máquina não avançou no tempo. Ela colapsou. O ar perdeu consistência. O chão ondulou como se fosse líquido. A realidade ao redor se dobrou, comprimida em camadas impossíveis. Um vazio irregular se abriu à frente deles, pulsando de forma errática, instável — um erro que insistia em existir.

Não houve gritos. Não houve reação.

Em segundos, a sala, a máquina e os três foram engolidos.

Silêncio. Escuridão. E então, queda.

Victor sentiu o corpo ser esticado e esmagado ao mesmo tempo. Não havia direção. Nem cima. Nem baixo. A dor vinha atrasada, como se o próprio corpo demorasse a entender que ainda existia.

Depois, o impacto.

Ele ficou imóvel por um tempo que não conseguiu medir. O chão embaixo dele era duro, irregular, quente demais para a hora que deveria ser. Quando abriu os olhos, a luz o feriu — não era a luz fria do laboratório.

Victor se levantou devagar, os braços tremendo com o esforço. Virou o corpo uma vez. Depois outra.

Nenhum sinal de Helena. Nenhum sinal de Ulisses. Nenhum sinal de qualquer coisa que reconhecesse.

Ao longe, entre escombros e escuridão, algo gritou. Victor sentiu o corpo gelar…

— Onde… onde eu estou?

A pergunta ficou sem resposta.

Ulisses despertou engasgando, com poeira presa à garganta. O ar era pesado, metálico. Helena estava ao seu lado, apoiando-se nele para se manter de pé.

— Você… — a voz dela falhou. — Você tá bem?

— Acho que sim… — respondeu, sem convicção.

Ela girou lentamente, observando o entorno.

Estruturas partidas se erguiam ao redor, curvas, deformadas, como restos de algo que já fora urbano. O céu era escuro, mas não era noite. A luz parecia suspensa, sem origem definida. Fria. Morta.

Helena empalideceu.

 — Ulisses… — disse, quase num sussurro. — Cadê o Victor?

Ele virou o corpo rápido demais. O movimento fez a cabeça girar.
— Ele… — parou. Olhou novamente. — Ele tava com a gente.

— Talvez… — tentou racionalizar. — Talvez tenha ido procurar ajuda.

Helena balançou a cabeça.
— Não. — A voz saiu firme demais para alguém tentando não entrar em pânico. — Tem algo errado.

— Olha esse lugar! — Ulisses respondeu, elevando o tom. — Tudo aqui tá errado!

O silêncio que veio depois foi pior.

Sem opções melhores, Helena se agarrou ao mínimo possível.
— Vamos ficar aqui hoje. Só hoje. Se ele voltar… vai procurar por nós.

Encontraram abrigo em uma estrutura metálica semi-enterrada. Antiga. Fria. Úmida. Mas sólida o suficiente para não desabar.

Dentro, o tempo passou sem medida.

Ulisses vasculhou um canto escuro e encontrou algo semelhante a um refrigerador — embora nada ali lembrasse tecnologia conhecida. Não havia fios nem fonte visível de energia. O interior era preenchido por um gel espesso, translúcido, de tom esverdeado. Frio ao toque. Reativo. Vivo demais.

— Ótimo — murmurou Helena, exausta. — Até a comida aqui parece errada.

Havia pacotes selados. Alimentos compactados. Sem marcas, sem datas, mas intactos. Comeram em silêncio.

A noite veio — se é que aquilo podia ser chamado de noite.

Victor ainda não voltou.

— Ele não foi procurar ajuda — disse Helena. — Alguma coisa aconteceu.

Ulisses encarou o horizonte deformado. Não respondeu de imediato.
— Então a gente precisa sobreviver. Descobrir onde estamos. E o que esse lugar é.

Era a única resposta possível.

No dia seguinte, a fome voltou primeiro. Depois, o medo.

Ulisses acordou antes. O frio do chão metálico atravessava o corpo. Por um segundo, acreditou que aquilo fosse um sonho. Mas o cheiro de ferrugem e poeira não desapareceu.

Levantou-se e espiou por uma abertura no abrigo. A paisagem era a mesma. Morta, imóvel e sem nenhum sinal de Victor.

Helena acordou pouco depois. Não perguntou nada. Não esperava mais respostas.
— Vamos — disse apenas. — A gente precisa continuar.

Ulisses respirou fundo.
— Vamos.

Eles deixaram o abrigo sem olhar para trás.

Naquele momento, mesmo sem dizer em voz alta, ambos entenderam:

Victor não estava apenas perdido.

Durante horas, caminharam sem trocar uma palavra. O mundo ao redor não estava morto — estava errado. A natureza havia tomado os restos da civilização sem pressa, rompendo o concreto rachado, engolindo estruturas, deformando o que sobrara. Árvores cresciam onde ruas deveriam existir. Plantas de cores opacas e formatos irregulares se espalhavam por prédios em ruínas. O ar era preenchido por sons constantes: insetos, aves e ruídos indefinidos, como se algo sempre se movesse fora de vista.

A sensação era clara — não estavam sozinhos. Apenas eram os únicos visíveis.

Ulisses mancou de repente, o rosto se contraiu quando a dor no calcanhar se intensificou.

— Preciso parar… — disse, ofegante.

Helena, exausta, mas ainda alerta, observou os arredores até identificar uma casa à frente. A estrutura estava parcialmente tomada por vegetação rasteira e galhos retorcidos, como se a própria terra tentasse escondê-la.

— Consegue aguentar até ali? — perguntou. — Vamos tentar.

Ulisses assentiu. Com esforço, alcançaram a entrada.

Antes que Helena tocasse a porta, um som veio de dentro.

Baixo, úmido e estranho, algo entre um ronco profundo e uma respiração falha.

Helena congelou.

— Você ouviu isso? — sussurrou.

— Ouvi…

— Não parece com nenhum animal.

Eles se entreolharam. Helena apontou para uma janela lateral, entreaberta, e sinalizou silêncio. Afastou com cuidado os ramos que cobriam parte da abertura e espiou para dentro.

A luz filtrada revelou uma criatura agachada no canto da sala.

O corpo era coberto por uma pele irregular, marcada por manchas esverdeadas e um brilho viscoso, como se estivesse sempre úmida. Os membros eram longos demais, dobrando-se em ângulos que não pareciam naturais. A cabeça se movia lentamente de um lado para o outro, farejando o ar, reagindo a algo que ainda não via.

Um reflexo deformado da natureza após o pulso. Algo que talvez, em outro tempo, tivesse sido familiar — e que agora existia apenas como um erro persistente do mundo.

Helena recuou lentamente, o estômago revirado. Não disse nada e nem precisou. Apenas com o olhar dela Ulisses entendeu no instante em que viu seu rosto perder a cor. O tipo de medo que não pede confirmação — apenas obedece.

Ela segurou o braço dele e puxou com cuidado, afastando-se da casa, passo por passo, como se qualquer ruído pudesse chamar atenção demais.

O som voltou a ecoar lá dentro. Um arrastar lento, um estalo seco, como ossos se ajustando. Eles se esconderam atrás de uma pedra grande coberta por raízes e musgo. Permaneceram ali, imóveis, respirando o mínimo possível.

A criatura não saiu. Mas o som continuava.

O sol começava a desaparecer no horizonte, tingindo as ruínas de um laranja opaco. A noite se aproximava — e com ela, a certeza incômoda de que aquele mundo não ficava mais seguro quando escurecia.

Ulisses engoliu em seco.

— A gente não pode ficar aqui — murmurou.

Helena concordou com um aceno curto. Sem olhar para trás, seguiram adiante, deixando a casa… e levando com eles a primeira prova de que a natureza daquele lugar havia se transformado.

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.