Como pode a ausência fazer-me colapsar?
Como pode algo terminar sem antes começar?
Como posso eu sentir e não expressar?
Será que tudo o que me resta é chorar?
Num mar de lágrimas negras afundar?
Não consigo terminar as guerras que comecei,
nem lutar contra os demónios que eu próprio inventei.
A ser feliz — parece que desaprendi.
A amar — sinto que nunca consegui.
As vozes — não consigo parar de ouvir,
não consigo parar de as sentir.
Estou preso algures no mais sombrio da minha alma,
dentro de uma cova que por mim foi cavada.
Estou a ser torturado com as minhas próprias armas,
enforcado nas cordas por mim penduradas.
Estou a degradar o meu mundo interior
devastando-o com bombas por mim criadas.
Estou a afogar no mar que inundei,
estou a queimar no incêndio que iniciei,
estou perdido no labirinto que projetei,
colapsando na ausência que provoquei.
Despedaço o meu coração
escrevendo poemas perturbados.
Alimento o meu tormento
viciando-me nestas histórias
que corrompem o meu cérebro.
E enlouqueço quando leio as minhas palavras.
Elas refletem as minhas tristezas mais amargas,
aprisionam-me num vazio insano,
dilaceram-me em mil cacos,
arrancam todo o meu significado.
Esqueço que a mim pertenço
e entrego-me a vontades corruptas.
Faço-me escravo de desejos abruptos,
de desejos que me fazem chorar,
que me fazem num mar me afundar.
Mas não interessa, fui eu que insisti.
Insisti dentre paredes sofrer,
persisti em me escravizar,
forcei-me a chorar, a não nadar.
Estas não são simples lágrimas
— são algo a mais.
Não são só de tristeza,
são também de insuficiência,
de uma permanente carência.
São lágrimas negras.
Que me fazem muitas coisas perguntar,
que me fazem em muitas coisas pensar,
que conseguem expressar
a tristeza que não consigo demonstrar.
Morro em noites escuras,
mesmo tendo vivido dias claros.
choro lágrimas negras,
mesmo tendo olhos brancos.

