— Não passa de um alvo. Apenas mais uma missão — murmurou o Sr. Ada, olhando para mim como se eu fosse um rato de laboratório prestes a ser usado e descartado. — Só quero a cabeça como comprovação de que o serviço foi cumprido, Amayomi — Ouvir meu nome pronunciado por ele me deu náusea.
— Entendi, Sr. Ada.
A tarefa era direta: um alvo, uma execução. Nada além do costume — tão rotineiro quanto o café da manhã.
O sol virou um incômodo permanente, e o tráfego nas ruas atrapalhava meu deslocamento de bicicleta. O ponto marcado apareceu à minha frente: um edifício velho, sujo, corroído, quase em ruínas.
— Isso não deveria estar em pé — resmunguei.
Retirei a pasta da mochila, analisando rapidamente as informações. Segundo o relatório, a vítima passava por ali todos os dias, sem exceção, a caminho da cafeteria.
A estrutura do prédio não favorecia um ataque limpo, tampouco uma fuga eficiente.
Guardei a pasta novamente e estacionei a bicicleta no bicicletário em frente ao edifício. A entrada era estreita, mal conservada. A recepcionista sequer levantou os olhos do celular, rindo de algo na tela, completamente alheia à minha presença.
Passei por ela como se fosse apenas mais um morador. Não houve questionamento. Nenhuma vigilância.
O interior era ainda mais deplorável: velho, abafado e tomado por um odor forte de mofo. Não existia elevador — apenas uma escadaria longa que conduzia ao terraço. O silêncio tinha um aspecto estranho, quase artificial, como se o edifício estivesse deserto.
— Oi, moradora nova?
A voz atrás de mim surgiu de repente. Virei-me com cuidado. Uma senhora de meia-idade me observava. Sua presença era inquietante — silenciosa demais para alguém que acabara de chegar.
"Como ela apareceu sem fazer barulho?" Ainda assim, forcei um sorriso discreto.
— Sim. Estou visitando o lugar, vendo se vale a pena morar aqui.
— Não recomendo! — respondeu de imediato. — Olhe ao redor: velho, sujo... a encanação é péssima. Às vezes ficamos até três dias sem água. Morar aqui é um sacrifício.
— Minhas condições não me dão muitas opções — retruquei, analisando o ambiente. — Ainda há muitos moradores?
— Não. Quando o prédio começou a cair aos pedaços, a maioria foi embora. Devem restar uns dez, no máximo.
Assenti, absorvendo a informação aquilo facilitava as coisas.
"Preciso sair daqui. Já perdi tempo demais". Desloquei levemente o corpo, indicando pressa.
— Você precisa ir, não é, querida? — perguntou ela, com um toque de curiosidade.
— Sim. Gostei da conversa, mas ainda tenho outros lugares para visitar.
— Claro... não vou te prender.
Observei enquanto ela se virava e entrava em seu apartamento. Antes que a porta se fechasse, notei o número: 12.
Retomei o caminho com passos mais rápidos, evitando qualquer novo encontro. As escadas para o terraço eram longas e silenciosas demais. Quando finalmente alcancei a porta, vi que estava tomada pela ferrugem.
Empurrei, um chiado agudo ecoou pelo prédio.
— Droga... — murmurei.
Esperei alguns segundos. Nenhum movimento.
Entrei.
O terraço era amplo, aberto, e oferecia uma visão clara da rua — e da cafeteria.
"Perfeito."
Apoiei-me na mureta do terraço, mantendo o corpo relaxado, como se estivesse apenas apreciando a vista. Por dentro, porém, cada detalhe era analisado com precisão.
A cafeteria ficava do outro lado da rua. Movimentada, mas previsível.
Pessoas entrando e saindo, sempre no mesmo ritmo. Alguns rostos se repetiam. Outros, passageiros demais para importar. Abri a pasta com cuidado, protegendo seu conteúdo da luz direta. A foto do alvo estava ali, intacta. Observei-a mais uma vez, gravando cada traço.
Altura mediana com a postura despreocupada e um rosto comum.
Fácil de ignorar e eliminar.
Fechei a pasta, o horário se aproximava.
A rotina dele não falhava — e era exatamente isso que o tornava vulnerável. Um leve vento atravessou o terraço, trazendo consigo o cheiro distante de café fresco, ironicamente reconfortante. Ajustei minha posição, encontrando o ponto ideal entre visibilidade e discrição. Dali, eu tinha controle, antecipação e vantagem. Agora era só esperar os minutos se arrastarem.
Então, ele apareceu caminhando sem pressa, como alguém que acreditava ter todo o tempo do mundo. Meu olhar se estreitou.
Era ele.
A mesma roupa casual descrita no relatório, o mesmo andar despreocupado. Nenhum sinal de alerta.
— Perfeito — sussurrei para mim mesma.
Minha mão deslizou até o interior da mochila, tocando o objeto com familiaridade. Frio, preciso, confiável.
Respirei fundo, um único movimento resolveria tudo sem sofrimento, sem complicações como sempre. Mas algo... Algo estava errado.
Franzi levemente o cenho. Ele parou antes de entrar na cafeteria olhou para os lados não como alguém distraído, como alguém atento. Meu corpo enrijeceu, ainda que externamente eu permanecesse imóvel ele não deveria fazer isso. Não estava no padrão, não estava no relatório.
O homem levou a mão ao bolso, retirando o celular fingiu olhar a tela, mas seus olhos não estavam ali estavam analisando procurando. Por um instante — breve, quase imperceptível — seus olhos se ergueram na direção do prédio. Na minha direção.
Segurei a respiração, Não me movi não pesquei nada. O tempo pareceu congelar, então ele desviou o olhar. E entrou na cafeteria, soltei o ar lentamente. Aquilo não foi normal.
Fechei os olhos por um segundo, reorganizando os pensamentos. Duas Possibilidades, Coincidência...Ou ele sabia. E se soubesse, então aquilo deixava de ser uma simples missão, endireitei a postura. Um leve sorriso surgiu, quase involuntário.— Interessante...Talvez, pela primeira vez em muito tempo...Aquilo não fosse apenas rotina.
Apenas quando finalmente permiti que meu corpo relaxasse, o prédio começou a estremecer.
Não foi um tremor leve — foi pertubardo, como se algo gigantesco estivesse se movendo sob a estrutura. O chão vibrou sob meus pés, as paredes rangeram, e um estalo seco ecoou pelo corredor. Meu olhar disparou em direção à rua, lá fora, o caos já tinha começado.
Pessoas corriam sem direção, tropeçando umas nas outras, algumas gritando, outras apenas tentando fugir com os olhos arregalados de puro pânico. A recepcionista — que minutos antes parecia entediada atrás do balcão — agora estava do lado de fora, completamente diferente. O rosto pálido, as mãos na cabeça, os lábios tremendo enquanto ela tentava dizer algo, os gritos começaram a ficar mais claros.
— Saiam daqui! — Corram! — Vai cair!!
Então ouvi.
Nítido.
Cortando todo o resto.
— O prédio vai cair!!
Meu estômago afundou. Um frio brutal percorreu minha espinha. Minha mente se recusava a aceitar aquilo. Como um prédio simplesmente... cai?
Antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, a estrutura inteira gemeu — um som grave, quase vivo. O chão sob meus pés inclinou de repente, puxando meu corpo junto como se eu não pesasse nada.
Perdi o equilíbrio.
Fui arrastada.
E então arremessada.
Meu corpo colidiu violentamente contra a porta de ferro. O impacto arrancou o ar dos meus pulmões. O som metálico da porta se fechando ecoou alto demais, quase ensurdecedor. Tossi, tentando recuperar o ar, minha cabeça girava. Levantei como pude e agarrei a maçaneta, trancada.
Empurrava.
Nada.
Puxava.
Nada.
O pânico começou a crescer dentro do peito, esmagando qualquer pensamento racional.
— Abre... abre! — Chutei a porta.
Uma vez.
O metal vibrou.
Duas vezes.
A dor subiu pela minha perna, mas eu não parei, na terceira, com toda a força que ainda restava no meu corpo, a porta cedeu com um estalo violento.
Corri.
Não pensei.
Não olhei para trás.
Apenas corri.
As escadas pareciam intermináveis, os degraus instáveis sob meus pés. O prédio continuava se movendo, cada passo uma luta contra o próprio chão. Corrimões tremiam, pedaços de reboco caíam, e o ar estava ficando pesado, carregado de poeira.
Meu coração batia tão forte que eu mal conseguia ouvir outra coisa.
Segundo andar.
Eu precisava sair.
Passei correndo pelo corredor, as portas fechadas dos quartos parecendo me observar, silenciosas, ameaçadoras.
Então, ao passar em frente a uma delas—
Um estalo.
Seco.
Quase imperceptível.
E no segundo seguinte — A porta explodiu.
Um estrondo ensurdecedor rasgou o ar. A onda de impacto atingiu meu corpo com violência, como um soco invisível e brutal.
Fui lançada para longe.
O mundo girou.
O chão desapareceu.
E tudo o que restou foi o som — alto, caótico... e depois, silêncio.
O impacto atingiu meu corpo como uma parede invisível, fui lançada para trás, batendo contra o chão com força.
Minha cabeça girou, um zumbido tomou conta dos meus ouvidos. Por um momento, não senti nada, então a dor veio toda de uma vez, meu braço latejava, minhas costas queimavam, e minha perna... minha perna quase não respondia.
— Levanta... levanta...— Forcei meu corpo.
Minhas mãos deslizaram no chão coberto de poeira e destroços. Cada movimento era uma luta e cada respiração. Mas eu me levantei, cambaleando e quase caindo.
Continuei.
O corredor estava destruído, parte do teto havia desabado. Tive que me abaixar, rastejar por alguns trechos, ignorando a dor que gritava em cada músculo do meu corpo.
A luz da saída apareceu no fim do corredor.
Fraca e distante mas ali.
Minhas pernas tremiam, minha visão falhava mas eu não parei, um passo depois outro e mais outro. Até que, com o que restava de força, atravessei a porta de saída. E caí.
O ar fresco atingiu meu rosto enquanto meu corpo encontrava o chão do lado de fora. Ao meu redor, vozes gritavam, passos corriam... mas tudo parecia distante.
O prédio atrás de mim ainda rangia, como se estivesse prestes a dar seu último suspiro.
Fechei os olhos por um segundo.
Eu tinha conseguido sair.
Olhei ao redor, ainda tentando recuperar o ar entre a poeira e os gritos. Minha visão embaçada levou alguns segundos para se ajustar até encontrar uma silhueta parada do outro lado da rua, imóvel em meio ao caos como se nada ao redor o afetasse. Ele estava ali. O alvo. As mãos nos bolsos, a postura calma demais para alguém cercado por destroços e pânico. Então ergueu lentamente o rosto na minha direção. Mesmo à distância, senti quando nossos olhos se encontraram. E o leve sorriso que surgiu em seus lábios me disse uma única coisa: aquilo nunca foi um acidente.

