Infelizmente a hora que me deixou tão ansiosa finalmente chegou, minha mãe beija meu rosto com afeto enquanto meu pai nem mesmo olha em meus olhos…
— Se algo acontecer eu… — Ele não consegue terminar a frase, até mesmo eu entendo que no momento que eles forem embora, estarei à mercê da minha própria sorte e azar.
— Não se preocupe, pai. Ficarei bem, acho melhor vocês irem logo, a caçada vai começar daqui a poucas horas, certifiquem-se de estar bem longe dos grupos, e principalmente da cidade. — Lembro antes que eles saiam, sei que não é a primeira lua de sangue que eles participam, mas não posso esconder o medo de perdê-los.
Ambos sorriem pequeno e entram no carro, observo sua silhueta desaparecer na neblina da madrugada, uma lágrimas solitária escorre enquanto sinto um peso em meu peito.
Estou com medo…
Toco na batente da porta e suspiro baixo, porém minha pequena paz acaba ao ver uma grande besta de pelagem cinza, estava lá, na estrada, encarando… esperando um momento de vulnerabilidade, e para meu azar esse momento chegou.
A mulher entra na casa e tranca todas as portas e janelas, seus passos apressados e silenciosos são quase uma tortura naquele ambiente frio e desolado, suas mãos trabalham para pegar o máximo de comida e água sem perder o ritmo rápido e silencioso.
Com cuidado para não passar muito perto das janelas, desce para o quarto que fica em seu porão.
Era pequeno com uma mini freezer, porém muito melhor do que ficar sozinha no meio da neve com criaturas atrás de seu corpo.
— Pelo menos aqui embaixo tem um banheiro, assim não preciso sair pela casa. — Falou para si mesma enquanto senta na cama olhando para as mãos.
Quantos dias essa lua dura mesmo? Não consigo lembrar…
Enquanto pensava, seus olhos vão ficando pesados, cada vez mais difícil se manter acordada…
Durante seu leve sono, sons baixos e agudos ecoam pelo silêncio da madrugada, sons raspantes que vibram as janelas, seus olhos se abrem, narinas dilatam e sua enorme boca com dezenas de presas tão afiadas quanto lâminas de aço se fazem presente, parado ao lado, observando sua nova companheira.
Hazel revira o corpo na cama, seus sentidos ficam aflorados, sabe que algo estava errado, mas não consegue entender, até que um som alto de destruição chama sua atenção, seu corpo senta ereto na cama, olhos arregalados, mandíbula tensa, tudo fica silencioso, menos seu próprio coração que parece gritar para sair dali.
Mesmo com medo, Hazel força seu corpo a levantar, olhos tremem como um gato assustado enquanto a mulher se move para perto da porta, com cuidado encosta o ouvido na madeira, do lado de fora pode escutar os passos rasos de uma criatura, tais passos não deveriam pertencer a uma fera de três metros e meio de altura.
Ignorando a própria sensatez, Hazel abre uma fresta da porta, sentiu seu corpo inteiro gelar, em sua frente havia uma enorme cabeça, olhos vermelhos como a lua, dentes enormes, pelagem tão negra que se torna quase invisível pela escuridão, seus olhos estãos fixos nela, sua presa….
Fecho a porta como se isso fosse me proteger, mas de forma peculiar, o lycan não invadiu meu quarto, aproveito isso e abro as cameras com meu computador, na frente da casa haviam três deles, e um era o cinza maldito, olho as cameras do corredor e vejo a besta negra deitado tranquilamente na frente do porão… ele parece o menos ameaçador.
Os outros dois monstros estão quase completamente sujos de vermelhos, meu estômago embrulha em pensar no que era aquele vermelho, ou melhor de quem era.
Alcanço meu celular e ligo para o único contato salvo, mãe, todos híbridos são proibidos de ter coisas de comunicação humana, porém meus pais contrabandeiam algumas coisas para a minha proteção.
Mãe, o que eu faço? Tem três deles em frente a casa
— E um enorme como um carro deitado no corredor!
— Fique quieta e escondida, nenhum deles te viu, certo?
— Não…
Menti
— Já estamos fora da cidade, não podemos voltar, Hazel se mantenha escondida e não faça barulho, o porão tem isolamento acústico, então fique tranquila e olhe as câmeras.
Antes que consiga responder , um estrondo alto no andar de cima me fez gritar de susto, rapidamente ao perceber meu erro, coloquei as mãos sob meus lábios, pressionando com força.
O silêncio reina na casa, respiro ofegante enquanto abaixo-me até sentar no chão, olho as câmeras, nenhum deles estava à vista, até mesmo o que estava no corredor desaparece…
Algo estava acontecendo, e tenho certeza que não é nada bom…
Engatinhou devagar focando em não fazer outro som, com máximo cuidado entro no armário e me espremi até passar por dentro dos casacos, atrás deles continha um cofre. Com dificuldade entro nele e fecho a pequena portinha, ligo meu celular e olho novamente as câmeras da sala, vejo uma silhueta se mover para as escadas do segundo andar, a porta da sala é arremessada para longe.
Outro consegue entrar.
Meu corpo se arrepiava por inteiro, sinto meus batimentos em minha garganta, minhas mãos tremem fazendo a imagem borrar levemente.
Estou com medo… muito medo.
Os sons de garra se aproximam cada vez mais, sinto lágrimas se formando enquanto tento ao máximo ficar quieta, meus olhos embaçam, meu peito doi, e os passos só ficam cada vez mais altos…
Por favor, não me veja!

