Estou sentada no jardim, meus dedos entrelaçam suavemente um pequeno buquê de margaridas, já se passou dois dias, a lua está cada vez mais visível ao dia, não sei quando será a fuga dos meus pais, mas não posso ir de qualquer forma, então prefiro me manter em paz, antes de ter meu pescoço arrancado por presas enormes.
— Hazel! — Uma voz preocupada e suave ecoa pelo silêncio do jardim.
— Ainda estou viva, não se preocupe. Mãe. — Digo enquanto mantenho meus olhos para baixo, não consigo olhar para ela desde que ouvi sua conversa com meu pai.
Antes que ela possa responder, um farfalhar chama minha atenção, encaro o bosque, meus olhos não encontram nada estranho, mas resolve me aproximar de uma moita, puxo as folhas e grito horrorizada.
Era uma raposa, uma maldita raposa devorando um coelho, espera, raposas nunca viriam para essa cidade, olho para minha mãe pronta para perguntar o que uma raposa faria no território de “lobisomens”, porém quando estou prestes a falar se ela sabe a resposta, sinto suas mãos agarrarem meu vestido e me arrastar para dentro.
Luto para acompanhar seus passos, olho para trás de relance e vejo, um enorme Lycan negro, em cima de uma das arvores, seus dentes estavam amostra, sua saliva escorria enquanto seus olhos vermelhos me encaram como se fosse a própria morte me olhando, em sua boca havia um animal morto, seu sangue pingava lentamente e lamentavelmente nas folhas e solo.
Ele… estava bem encima de onde eu estava…
Que porra é aquela?!
Sinto minha garganta secar em horror, antes que eu possa olhar pela última vez, minha mãe tranca a porta e grita algo para meu pai que já estava em pé encarando pela janela.
— Ainda não chegou a hora, por que tem um Gamma rondando? — Minha mãe praticamente berrou enquanto corria trancando tudo.
— Alana, vá pegar nossa mala. — diz meu pai, me encarando como se estivesse sendo forçado a algo.
Olho confusa tentando entender seu olhar, eles não vão me abandonar de verdade, certo?
Sem aguentar a curiosidade, olho pela fresta da janela, a raposa estava comendo… agora que percebo… O coelho era uma isca, o lycan não atacou ele… ele observou até que a raposa abaixou a guarda, espremo um grito de terror, aquele grande monstro devora ela em apenas uma mordida…
Olho até que a cortina é fechada com força.
– Não deixe que te vejam, Hazel. — Encaro meu pai em silêncio e me afastou da janela.
— Vão mesmo me deixar sozinha? — Pergunto já sabendo a resposta, mas mesmo assim agarro-me ao fio de esperança.
Seus olhos encontraram os meus, porém logo desvia o olhar, sua resposta cai no silêncio, um sim doloroso…
— Quando vão? — Minha voz saiu em uma súplica rouca, respiro fundo controlando a vontade avassaladora de chorar.
— Vamos em três dias, filha. — aceno lentamente enquanto subo as escadas em silêncio, mesmo se gritar, chorar e implorar, eu não poderei ser levada por eles… São as regras para viver nesta cidade.
2 dias passam arrastando-se como uma tartaruga.
— Hazel, querida lembre-se, não saia de casa, não abra a porta, não fale com nenhum deles e acima de tudo, não ajude nenhuma das presas deles. — Minha mãe repete essas palavras como um mantra, eles vão embora hoje de madrugada, ela não parava de falar sobre golpes, regras e formas de se esconder na casa.
— Qualquer coisa, tranque-se no cofre escondido atrás do seu armário. — disse finalmente sentando ao meu lado e suspirando alto.
— não se preocupe, mãe, ficarei bem, você e o pai devem se preocupar em escapar da cidade antes da temporada chegar de verdade. — respondo sorrindo enquanto abraço ela carinhosamente.
Não quero que fique preocupada, mãe… mas tenho a impressão que essa temporada não vai acabar da forma certa…
17;45 faltam sete horas para a fuga.
Sinto que as horas estão arrastando-se de forma lenta e dolorosa, me encontro aninhada nos braços de minha mãe, a temperatura lá fora já está chegando à graus negativos, provavelmente a neve está tomando conta de tudo, dedos suaves acariciam meus longos fios dourados, um filme infanto juvenil passa de forma lenta na televisão, uma cena divertida está passando, mas hoje não será um dia para alegria…
— Estou com medo… — sussurrei enquanto meu rosto se ilumina com o leve fogo que brilhava na lareira.
— Eu sei… e sinto muito, minha criança… — Sua voz é baixa, tão rouca que mal posso entendê-la, passei esse últimos dias escutando seus choros de dor, não consigo imaginar a dor de abandonar um de seus filhos… e sinto-me quebrada ao perceber que não posso ajudá-la e nem mesmo me ajudar.
— Bem… Olha pelo lado bom, vão aproveitar esses dias para fazer novos irmãozinhos para mim. — Digo sorrindo fraco em uma pequena tentativa de animá-la.
Seu rosto fica completamente vermelho em poucos segundos, seus olhos dilatam enquanto ela se prepara para uma sessão de reeducação.
— Olha o respeito, menina! — diz enquanto me dava leves tapas e alguns puxões de cabelo. — você não tem jeito… Mas estou falando sério, filha, cuide-se e se esconda até que possamos voltar.
— Certo, mãe, irei estar aqui esperando seu retorno, não se preocupe comigo, está bem? — seus braços enrolam em volta de mim, ficamos assim até o final do filme, caindo em um sono profundo e tranquilo…

